publicidade
Bandeiras nacionais com imagens do emir do Catar, Sheikh Tamim, penduradas no teto do mercado Souq Waqif, em Doha, Catar (6/7/2017) | Foto: Shutterstock
Edição 308

O lado sinistro do Catar (parte 1)

Conhecido no Brasil pela sua riqueza, pela Copa, pelo PSG e pela Qatar Airways, o país é acusado de financiar o terrorismo islâmico, abrigar líderes do Hamas e comprar influência no Ocidente com seus petrodólares — inclusive na era Trump

Até alguns anos atrás, o Catar — um pequeno país islâmico localizado no Golfo Pérsico, com apenas 3,1 milhões de habitantes, dos quais cerca de 2,7 milhões são trabalhadores estrangeiros — era relativamente desconhecido no Brasil. Quando se falava do Catar, era quase sempre algo relacionado à sua enorme riqueza, como um dos principais produtores de petróleo e gás do mundo — e, mesmo assim, só num círculo restrito da população.

Isso começou a mudar perante a classe média em 2010, quando a Qatar Airways, a companhia aérea estatal, famosa por sua luxuosa classe executiva e pelos preços acessíveis de sua classe econômica, passou a fazer voos regulares de Doha, a capital do país, para São Paulo. Muitos turistas brasileiros, que passaram a usar a empresa para ir a outros países do Oriente Médio e da Ásia, têm aproveitado a parada obrigatória no Catar para ficar uns dias no país, conhecendo suas dunas desérticas e a arquitetura suntuosa e arrojada de seus edifícios, antes de seguir viagem para seus destinos finais.

Agora, foi como sede da Copa do Mundo de 2022 que o Catar realmente ganhou visibilidade no Brasil. Também se tornou mais conhecido como grande importador de “boleiros” brasileiros, seduzidos pelos salários milionários oferecidos pelas equipes locais, e como dono do Paris Saint-Germain (PSG), o maior clube de futebol da França, que teve o craque Neymar entre os seus jogadores, de 2017 a 2023.

Mas, por trás da imagem de país rico e exótico e de novo Eldorado dos atletas brasileiros, há um lado sinistro do Catar, do qual pouco se fala no Brasil, que vai muito além das acusações de corrupção que cercaram a sua escolha como sede da última Copa pela Fifa, a entidade que comanda o futebol mundial. Vai além também das denúncias que proliferaram na época sobre as condições desumanas a que eram submetidos muitos forasteiros, contratados para trabalhar na construção de estádios e em outras obras.

Neymar Jr., do Paris Saint-Germain, durante a partida de futebol da Ligue 1 entre Paris Saint-Germain e Nice no Parc des Princes, em Paris (01/10/2022) | Foto: Shutterstock

Embora pouco comentado no Brasil, esse “lado B” do Catar se tornou alvo de muita controvérsia no exterior, onde virou tema de debates acalorados na arena política, nos negócios, na academia, na imprensa e nas redes sociais. Praticamente não há um dia sequer em que o país não esteja sob os holofotes aqui e ali, pelo que faz ou deixa de fazer.

Influência e poder

Os críticos acusam o Catar de apoiar grupos terroristas islâmicos, ao mesmo tempo em que procura atuar como grande mediador de conflitos nos quais eles estão envolvidos, e de usar os seus petrodólares de forma heterodoxa, para ganhar influência e poder mundo afora.

“Nenhum obstáculo, nenhuma história, nenhuma manchete ruim é grande demais para o dinheiro do Catar”, disse recentemente no X a jornalista Bari Weiss, ex-editora de opinião de The New York Times, ao comentar uma reportagem publicada pelo site de notícias The Free Press, intitulada “Como o Catar comprou a América”. O site, fundado pela própria Bari Weiss em 2021, tem cerca de 175 mil assinantes e foi comprado em outubro por US$ 150 milhões pela CBS, uma das grandes redes americanas de TV, na qual ela assumiu o comando da área de jornalismo.

“O Catar usa seus recursos financeiros abundantes para ampliar sua força política e comprar prestígio e influência”, afirma Benjamin Baird, diretor de Relações Públicas do Fórum do Oriente Médio (MEF), um centro de estudos dedicado à região, com sede na Filadélfia, na costa leste americana. De acordo com um levantamento realizado por Baird para a entidade, os investimentos feitos em negócios nos Estados Unidos pelo país alcançaram US$ 33,4 bilhões desde 2012.

Somando-se os aportes na área empresarial para inversões em usinas de energia, compras de armas, doações a universidades e gastos com ações de lobby e de relações públicas, o total, conforme o The Free Press, chega a quase US$ 100 bilhões só nos EUA. Se colocar na conta os principais investimentos realizados pelo Catar na Europa nas últimas duas décadas, considerando apenas a compra de controle e de participações minoritárias em empresas, o valor roça os US$ 150 bilhões.

Nesta reportagem especial, Oeste mostra em detalhes como o Catar conseguiu alcançar tanto destaque e por que gera tanta polêmica lá fora.

Como, de repente, um país pequeno, cujo território tem metade da área de Sergipe, o menor estado brasileiro, passou de coadjuvante a protagonista no tabuleiro geopolítico global? Como o Catar transformou sua riqueza em influência internacional? Qual foi a sua estratégia para deixar para trás concorrentes regionais como a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos, na disputa pelos corações e mentes do Ocidente?

As respostas a estas perguntas envolvem acusações de jogo duplo na diplomacia; abrigo e financiamento de grupos como a Irmandade Muçulmana, o Hamas, o Talibã e a Al-Qaeda; propagação do extremismo islâmico; impulsionamento do sentimento anti-Israel e do antissemitismo; e pagamento de propinas a políticos e autoridades ocidentais.

Envolvem, ainda, doações bilionárias para grandes universidades e escolas americanas de ensino básico, as chamadas K-12; operações de lobby, marketing e relações públicas promovidas a peso de ouro na Europa e nos Estados Unidos; patrocínio farto de influenciadores e jornalistas, inclusive apoiadores do presidente dos EUA, Donald Trump; e até tentativas de silenciamento de seus críticos, com perseguições e ameaças.

Além de um raio-X da transformação do país numa das nações mais influentes do planeta, Oeste mostra também, na segunda parte da reportagem*, quais são os principais investimentos feitos pelo Catar no Ocidente.

Realizados por meio de seu fundo soberano, batizado como Autoridade de Investimento do Catar (QIA, na sigla em inglês) — cujos ativos somam US$ 557 bilhões e podem chegar a mais de US$ 1 trilhão em dez anos, se os planos de expansão se concretizarem —, eles incluem o controle e participações minoritárias em algumas das maiores e mais promissoras empresas dos Estados Unidos e da Europa. Fazem parte da lista a xAI (startup de inteligência artificial fundada pelo empresário Elon Musk), a Volkswagen, o banco britânico Barclays, a Harrods (loja de departamentos londrina), o icônico hotel The Plaza, em Nova York, e as grifes Valentino e Balmain.

Poder absoluto

Oficialmente, o Catar é uma monarquia constitucional, mas, na prática, funciona como uma ditadura hereditária. O emir Tamim bin Hamad Al Thani, de 45 anos, cuja família comanda o país desde a sua unificação, em 1868, tem o poder absoluto. Ele o exerce sob os rígidos preceitos da vertente sunita wahabita do islamismo, seguida por quase toda a população nativa, mas com certa flexibilidade social e sem uma “polícia de costumes” para fiscalizar o respeito às normas morais religiosas, como no Irã, no Afeganistão e mesmo na Arábia Saudita, onde seus poderes foram reduzidos de forma considerável em 2016.

Retrato de Tamim bin Hamad Al Thani, emir do Catar, e do emir pai, o xeique Hamad bin Khalifa Al Thani, em Doha, Catar (1/5/2024) | Foto: Shutterstock

O atual emir assumiu o posto em substituição a seu pai, o xeique Hamad bin Khalifa Al Thani, hoje com 73 anos, que reinou de 1995 a 2013, quando abdicou do trono. Ele controla todas as instituições governamentais, inclusive as Forças Armadas, além da economia e da política externa. É ele quem nomeia o primeiro-ministro, o gabinete e os 45 membros do “parlamento” (Shura), que funciona como uma espécie de “conselho consultivo”.

O órgão pode elaborar leis, aprovar o orçamento e até propor a demissão de ministros, mas o emir tem o poder de veto sobre as decisões. Não há partidos políticos nem oposição organizada legalmente no país. A liberdade de expressão é restrita e as críticas ao emir, à família real, ao governo e ao islamismo são punidas com multas pesadas e com a prisão de seus autores.

O emir controla também, em última instância, o fundo soberano do país, que concentra os investimentos nos negócios; a Qatar Sports Investments, dedicada principalmente ao futebol; a Qatar Charity, entidade filantrópica por onde fluem contribuições generosas para aliados no mundo islâmico; e a Fundação do Catar, voltada às áreas de educação e cultura, administrada por sua mãe, a xeica Moza bint Nasser al-Missned, de 66 anos, uma das três mulheres de seu pai e antecessor, atualmente levando uma vida de baixa exposição em Doha.

“A xeica Moza é a face pública do Catar, um país que dá muita importância para as relações públicas”, diz o pesquisador Ariel Admoni, da Universidade Bar-Ilan, de Israel, especializado em estudos sobre o país, numa reportagem publicada pelo Jewish Insider, site de notícias sediado em Washington, nos EUA, ligado à comunidade judaica americana. “Ela é um ícone fashion que usa esse status para alavancar as questões de seu interesse.”

Moza bint Nasser al-Missned no Terceiro Fórum Global da Aliança de Civilizações da ONU no Rio de Janeiro, Brasil (28/5/2010) | Foto: Wilson Dias/Agência Brasil

Máquina de propaganda

Foi sob a liderança do emir pai que o Catar se projetou como um player relevante na geopolítica regional e mundial, com uma atuação ativa na chamada Primavera Árabe — a onda de rebeliões populares ocorrida entre 2010 e 2013 em países do Oriente Médio e do norte da África. Na época, ele aproveitou a queda ou o enfraquecimento de regimes autoritários para apoiar grupos islâmicos extremistas que julgava “pragmáticos” e “moderados”, ligados à Irmandade Muçulmana — um ‘movimento voltado à expansão do islã pelo mundo e à implantação de governos regidos pela Sharia (lei islâmica) — com a qual o Catar mantém estreita relação.

Foi com o atual emir, porém, que o país ampliou sua influência no Ocidente e consolidou sua imagem de mediador de conflitos internacionais, com uma estratégia muito bem articulada — apoiada por algumas das principais agências internacionais de comunicação e marketing — e despertou boa parte das controvérsias que têm cercado sua atuação nos últimos anos.

Para propagar uma imagem positiva do Catar e impulsionar a narrativa oficial em relação aos acontecimentos do país e do mundo, o emir e seus prepostos contam também com o apoio da Al Jazeera, a rede de TV estatal criada em 1996 por seu pai, que opera como máquina de propaganda do regime e de grupos islâmicos radicais.

Com um alcance de 430 milhões de domicílios em 150 países, segundo os dados mais recentes da emissora, considerando as transmissões via satélite, cabo e internet feitas em vários idiomas, a Al Jazeera — que também distribui seu conteúdo para veículos de comunicação internacionais — tornou-se um dos maiores e mais influentes grupos de mídia não apenas nos países árabes, mas em todo o planeta.

Al Jazeera, uma rede global de mídia com sede em Doha e financiada em parte pelo governo do Catar (10/10/2017) | Foto: Shutterstock

Por sua visão favorável ao Irã e a organizações islâmicas extremistas, a Al Jazeera — que chegou a transmitir ao vivo a realização de atentados terroristas — foi banida por Israel, Egito, Jordânia, Kuwait e pelos grandes rivais sunitas do Catar no Oriente Médio —  a Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos e o Bahrein.

De acordo com Michael Pregent, ex-oficial de inteligência dos Estados Unidos e membro sênior do Instituto Hudson, um think tank sediado em Washington, a Al Jazeera funciona como uma plataforma para líderes de grupos terroristas, entrevistados com frequência em seus programas, incensarem a jihad (guerra santa islâmica). “Temos de chamar a Al Jazeera pelo que ela é: um agente estrangeiro que promove o terrorismo e o sentimento anti-Israel e antiamericano”, afirma Pregent, em artigo publicado no site The Hill, voltado à cobertura de política e economia.

“Intermediários honestos”

É certo que o Catar procura mostrar serviço para justificar a imagem que cultiva, de grande mediador de conflitos internacionais. Em 2020, no primeiro mandato de Trump, por exemplo, o Catar intermediou a negociação de um acordo entre os Estados Unidos e o Talibã que levou à saída das tropas americanas do Afeganistão, já no governo Biden, em troca do compromisso do movimento de não permitir que o país seja usado novamente como base terrorista.

O acordo pôs fim à ocupação iniciada em 2001, após os atentados cometidos contra as Torres Gêmeas, em Nova York, e outros alvos dos EUA, pela Al-Qaeda, uma das principais organizações terroristas islâmicas. Na ocasião, líderes do grupo — incluindo seu comandante Osama bin Laden, morto pelas forças americanas em 2011 no Paquistão, para onde fugira depois da ocupação — haviam se instalado no Afeganistão, com o apoio do regime fundamentalista do Talibã, logo deposto pelos EUA.

Paquistanês lendo jornais com fotos de Osama Bin Laden, em 15 de maio de 2011 em Abbottabad, Paquistão | Foto: Shutterstock

Apesar de a evacuação americana ter sido um desastre, com a morte de 13 soldados num atentado e a retomada do poder pelo Talibã antes da retirada total das tropas, o Catar conseguiu capitalizar o acordo em seu favor. Também ganhou pontos preciosos junto à Casa Branca e ao Pentágono, ao receber os aviões dos EUA que deixavam o Afeganistão com seus militares para reabastecimento, triagem e descanso do pessoal.

Na visão de diplomatas americanos ouvidos pelo site The Free Press, o Catar teve também um papel importante ao atuar como intermediário em contatos dos EUA com o Irã e o Hezbollah, organização terrorista apoiada pela república islâmica que concentra sua atuação no Líbano. Além disso, os investimentos de mais de US$ 8 bilhões realizados pelo Catar desde 2012 na base aérea americana de Al Udeid, instalada em seu território, contribuíram para reforçar ainda mais suas credenciais em Washington.

Com essas iniciativas, o país acabou obtendo, em 2022, ainda no governo Biden, o almejado status de “aliado preferencial não pertencente à Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte)” dos Estados Unidos. A decisão abriu espaço para o Catar — que já é o 12º maior comprador de equipamento militar dos EUA, com negócios ativos calculados em cerca de US$ 29 bilhões — ampliar as compras de armas americanas. E, em 2024, sem alarde, para evitar contestações da oposição, que questionava os reais pendores do Catar, o governo Biden renovou por mais dez anos a  permanência da base dos EUA no país, a maior do Oriente Médio, levando os laços entre as duas nações a um novo patamar.

O presidente Joe Biden cumprimenta o xeique Tamim Bin Hamad Al-Thani, emir do Catar, no Salão Oval (31/01/2022) | Foto: Casa Branca/Adam Schultz

Para os defensores do Catar no Ocidente, seu retrospecto como mediador de conflitos deve incluir ainda sua recente atuação nas negociações entre Israel e o Hamas. Muitos analistas, no entanto, consideram que o país deveria ter feito mais, muito mais, para viabilizar acordos de cessar-fogo entre as partes e facilitar a liberação dos reféns mantidos pelo grupo palestino na Faixa de Gaza, após os ataques de 7 de outubro de 2023.

“Se eles fossem os supostos ‘intermediários honestos’ que proclamam ser, poderiam ter pressionado o Hamas a libertar logo os reféns e pôr um fim à guerra. Mas não o fizeram”, disse o jornalista e escritor americano Ben Shapiro, em post no X, logo depois do ataque de Israel contra terroristas do Hamas abrigados em Doha, em setembro.

“Na verdade, o Catar falou o tempo todo para o Hamas manter os reféns até conseguir um acordo para se manter como força dominante em Gaza”, afirmou Daniel Rubinstein, ex-assessor do primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, em entrevista à Sky News, do Reino Unido, também em setembro.

“Quartel-general”

O maior problema, na avaliação de seus críticos, é que esse papel de mediador de conflitos, como o de Israel com o Hamas e mesmo dos Estados Unidos com o Talibã — incensado pelo Catar e endossado até pelo governo americano — não tem como ser exercido a contento, pela ligação do país com um dos lados envolvido nas disputas.

Segundo esses críticos, o Catar não é o intermediário isento que alega ser para levar a cabo a tarefa, pelo apoio que dá a grupos terroristas islâmicos e a regimes que dão ou deram guarida a organizações extremistas. Mesmo o abrigo dos escritórios políticos e de lideranças desses grupos no país é visto como um fator que compromete sua atuação nas negociações.

No caso do Talibã, o Catar é acusado de ser o patrono do movimento, que manteve sua base política no país entre 2013 e 2021, quando estava fora do poder no Afeganistão. Também vivem ou viveram no Catar várias lideranças do Hamas, classificado como organização terrorista pelos Estados Unidos e pela União Europeia desde 1997 e 2003, respectivamente, entre outros países.

Terroristas do Hamas | Foto: Anas Mohammed/Shutterstock

O comandante do Hamas, Ismail Haniyeh, morto no Irã por Israel em julho de 2024, morava no Catar desde 2017, quando foi eleito presidente do bureau político do grupo. Khaled Mashal, que dirigiu a facção antes de Haniyeh e assumiu interinamente o seu lugar após escapar ileso do ataque realizado por Israel em Doha, é outro que buscou abrigo no país.

Com a Irmandade Muçulmana — considerada o berço de vários grupos terroristas islâmicos, inclusive o Hamas —, cujos tentáculos se espalham hoje não apenas pelo Oriente Médio, mas pelos quatro cantos do planeta, não é diferente.

De acordo com o ex-embaixador de Portugal no Catar, António Tânger Corrêa, o país tem forte identificação estratégica e ideológica com a Irmandade Muçulmana e funciona como “quartel-general” da organização, que é responsável, em sua avaliação, por 90% do terrorismo islâmico sunita. “Eu sei muito bem do que estou falando. Eu morei lá. Eles sonham em fazer um novo califado”, diz Corrêa, em entrevista ao site de notícias conservador Visegrad 24.

O Catar ainda é acusado de servir ou ter servido de base para grandes financiadores privados de organizações terroristas islâmicas que acabaram sancionados pela Secretaria do Tesouro dos Estados Unidos, por meio do Escritório para Controle de Ativos Estrangeiros (Ofac, na sigla em inglês), por suas atividades ilícitas.

A íntima relação do Catar com grupos terroristas como o Hamas e suas lideranças se reflete de forma cristalina em manifestações públicas de autoridades do governo e até da xeica Moza. “O nome Yahya significa ‘aquele que vive’. Pensaram que ele estava morto, mas ele vive”, disse a xeica em publicação no X, ao prestar tributo a Yahya Sinwar, líder do Hamas e principal arquiteto dos ataques de 7 de outubro, morto pelas forças israelenses em Gaza, em 2024. “Como seu homônimo Yahya bin Zakariya (figura religiosa reverenciada pelo islamismo como profeta de Deus e identificada no Novo Testamento como João Batista), ele viverá para sempre e eles terão desaparecido.”

O ministro da Defesa e vice-primeiro-ministro do Catar, Saoud bin Abdulrahman Al Thani, também não faz segredo do apoio incondicional do país ao grupo terrorista palestino. “Nós somos todos Hamas”, disse Al Thani em post publicado em abril no X, logo deletado em razão da reação negativa que gerou, conforme o jornal israelense The Jerusalem Post.

“Ajuda humanitária”

Mais do que abrigar os líderes de grupos terroristas e financiadores privados, porém, o Catar é, ele próprio, acusado de financiá-los — um papel que o emir e seus porta-vozes negam “de pés juntos”. Ainda que não forneça recursos diretamente a essas organizações e tenha tomado medidas legais — sob pressão internacional — para conter o fluxo de capitais direcionado a elas de seu território, o país é acusado de usar subterfúgios de todos os tipos para fazer o dinheiro chegar em suas mãos.

Segundo vários analistas, o repasse de recursos para o Hamas antes dos ataques de 7 de outubro, por exemplo, vinha disfarçado como “ajuda humanitária”. Viabilizado por meio da Qatar Charitable Society (QCS), hoje rebatizada de Qatar Charity, o dinheiro se destinava oficialmente à melhoria da infraestrutura e ao pagamento de salários do funcionalismo público em Gaza, bem como à compra de combustível e de energia elétrica para a região.

No entanto, embora os repasses tenham sido feitos à luz do dia e contado até com aval dos EUA e de Israel, o Hamas é acusado de ter desviado boa parte dos recursos para a construção de túneis para abrigar terroristas do grupo e para a compra de equipamentos militares. Só entre 2018 e 2023, conforme dados oficiais, o Catar repassou US$ 30 milhões por mês para “ajuda humanitária” a Gaza, num total que chegou  a US$ 1,8 bilhão no período.

Recentemente, uma série de documentos encontrados pelas forças de Israel em Gaza mostrou que o dinheiro do Catar era fundamental para a sobrevivência e a atuação do Hamas. De acordo com uma reportagem veiculada em junho pelo Canal 12, uma emissora de TV israelense, os documentos — classificados pelo Catar como “fabricados” — mostram que o então líder do politburo do grupo, Ismail Haniyeh, disse ao ministro das Relações Exteriores do país, Mohammed bin Hamad Al Thani, que os recursos enviados para Gaza eram “a principal artéria” do Hamas.

armas israel hamas terroristas | Israel encontra túneis de profundidade significativa que pertencia a terroristas do Hamas | Foto: Divulgação/Forças de Defesa de Israel (IDF)
Israel encontra túneis de grande profundidade que pertenciam ao Hamas | Foto: Divulgação/Forças de Defesa de Israel (IDF)

Em 2021, ainda conforme a reportagem do Canal 12, Haniyeh falou para o então líder da facção no território, Yahia Sinwar, que o emir do Catar tinha aceitado fornecer apoio financeiro para os “esforços de resistência” do grupo. “Ele concordou, em princípio, em fornecer a assistência discretamente, porque não quer que ninguém saiba”, afirmou Haniyeh, segundo os documentos mencionados pela emissora israelense.

Apesar de a acusação de que o Catar usa sua entidade filantrópica para viabilizar o repasse de recursos a grupos terroristas ter ressurgido durante a guerra entre Israel e o Hamas, ela não é de hoje. Em 2001, um ex-integrante da Al-Qaeda que se tornou informante do governo dos EUA já havia admitido isso, durante o julgamento, em Nova York, de quatro terroristas do grupo envolvidos nos atentados às embaixadas americanas no Quênia e na Tanzânia, em 1998.

No julgamento, encerrado um mês antes dos ataques contra as Torres Gêmeas, também realizados pela Al-Qaeda, ele revelou, de acordo com o noticiário, que Osama bin Laden havia lhe confidenciado que os repasses feitos pelo Catar por meio da QSC eram uma das principais fontes de recursos da organização. Ele afirmou também em seu depoimento que bin Laden lhe contara que havia usado US$ 20 mil recebidos da entidade na tentativa de assassinato do então presidente do Egito, Hosni Mubarak, realizada em Adis Abeba, na Etiópia, em 1995.

Neste capítulo, pesam ainda contra o Catar acusações de uso de outros expedientes tortuosos para viabilizar seu apoio aos grupos terroristas. Em 2015, quando um integrante da família real do Catar foi sequestrado no Iraque, o país pagou milhões de dólares para sua liberação, gerando acusações de que foi tudo uma grande armação para permitir a transferência do dinheiro para o Hezbollah e para o Irã. Em outra operação do gênero, ocorrida em 2013, o Catar também pagou uma soma elevada para libertar reféns sequestrados pela Al-Qaeda na Síria, sendo acusado na ocasião de apoiar o terrorismo sob a roupagem da diplomacia.

“De um lado, o Catar conseguiu, aparentemente sem ser notado, tornar-se um patrocinador do terror islâmico e, de outro, servir como mediador sério entre os terroristas e as elites ocidentais”, afirma o blogueiro israelense Naftali Hirschl, fundador da ZWW, organização que mantém uma base global de dados dos “inimigos de Israel”. “Doha acredita que esse equilíbrio terrorista/aliado está protegido, porque o país tem a maior base militar americana do Oriente Médio”, diz Michael Pregent, do Instituto Hudson.

Embargo no golfo

Embora faça parte do mundo islâmico, o Catar enfrenta de alguns de seus vizinhos no Oriente Médio as mesmas acusações sofridas no Ocidente, por sua aproximação com o Irã e por seu suporte à Irmandade Muçulmana, cujos aliados apoiaram a derrubada dos governos do Egito, da Tunísia, da Líbia e do Iêmen, durante a Primavera Árabe.

Bandeira da Irmandade Muçulmana | Foto: Wikimedia Commons

Em 2017, a Arábia Saudita, os Emirados Árabes e o Bahrein, além do Egito, chegaram a romper relações diplomáticas com o Catar por causa disso. A medida foi seguida de um embargo aéreo, marítimo e terrestre que afetou a economia e a segurança do país, visto como uma ameaça à estabilidade regional. O bloqueio só foi suspenso e as relações diplomáticas com o Catar normalizadas em 2021, com a assinatura de um acordo que teve a participação dos EUA e do Kuwait.

“O Catar abriga e protege terroristas. Isto é inaceitável. Existe uma lista de financiadores do terrorismo que vivem no Catar”, disse na época o ministro das Relações Exteriores da Arábia Saudita, Adel al-Jubeir, que continua no cargo, numa entrevista resgatada recentemente por internautas e sites de notícias que acabou viralizando nas redes. “O Catar usa suas plataformas de mídia para espalhar ódio.”

Mesmo o sucesso do plano de paz para o Oriente Médio, proposto recentemente por Trump e aprovado pelos países árabes, pela Turquia e por Israel, tem sido colocado em xeque pela Arábia Saudita, pelos Emirados Árabes e pelo Bahrein, em razão do papel atribuído ao Catar na sua implementação e de sua ligação com o Hamas.

Segundo o jornal israelense Hayom, os rivais sunitas do país alertaram a Casa Branca de que os mediadores do Catar, ao lado dos representantes da Turquia e do Egito, estavam sendo “lenientes” com o Hamas, permitindo que o grupo descumprisse os compromissos de depor as armas e de entregar rapidamente todos os reféns a Israel, incluindo os mortos.

Uma autoridade saudita ouvida em off pelo jornal afirmou que o protagonismo do Catar no plano de paz “vai minar os esforços para a desradicalização” regional e que o país “tentará garantir que o Hamas permaneça em cena e retorne ao poder num futuro não muito distante”. “Enquanto o Hamas mantiver as armas, não vamos mais nos envolver no processo de paz”, disseram representantes dos três países ao governo americano, conforme a reportagem do Hayom.

Anticlímax

Diante de tudo isso, o que chama a atenção dos analistas é como o Catar tem conseguido escapar de forma relativamente ilesa até agora de retaliações pesadas do Ocidente. Há muitos questionamentos sobre os métodos usados pelo país para ganhar influência, conter danos à sua imagem e conquistar aliados para suas narrativas.

O presidente Donald J. Trump e o emir do Catar, Tamin bin Hamad Al Thani, conversam com repórteres durante reunião na terça-feira, 9 de julho de 2019, no Salão Oval da Casa Branca | Foto: Casa Branca/Shealah Craighead

Até o governo americano, em geral mais rigoroso em relação a esses temas, tem evitado penalizar o Catar diretamente, concentrando suas sanções em grupos e indivíduos que estão baseados no país. Ao contrário do que os Estados Unidos fizeram com o Hamas, há quase 30 anos, e apesar das pressões políticas internas, eles também não incluíram até hoje a Irmandade Muçulmana em seu índex de grupos terroristas.

Dias atrás, Trump até emitiu um decreto para iniciar o processo de classificação de certos capítulos da Irmandade Muçulmana como organizações terroristas. Ele incluiu na lista suas bases no Egito, no Líbano e na Jordânia, mas deixou de fora as ramificações do Catar e da Turquia, que também abriga lideranças do movimento, para desapontamento dos que defendem sanções mais amplas contra o grupo e seus patrocinadores.

“Foi um anticlímax. Eu digo isso como alguém que sempre apoiou e  sempre vai apoiar o presidente Trump e seu sucesso”, afirmou em publicação no X a jornalista e ativista americana Laura Loomer, que é uma das vozes mais críticas às atuações do Catar e da Irmandade Muçulmana nos EUA. “Este é só mais um exemplo da influência que o Catar e a Irmandade Muçulmana têm em nosso país.”

Em 2017, em seu primeiro mandato, durante o embargo imposto ao Catar por seus rivais no Golfo, o próprio Trump chegou a afirmar que o país bancava o terrorismo e que isso tinha de acabar. “O Catar, infelizmente, tem sido um financiador do terrorismo em altíssimo nível. Nós temos de parar o financiamento do terrorismo”, disse Trump. Mas, no atual mandato, apesar do apoio que tem dado a Israel no conflito com o Hamas, ele baixou o tom e se aproximou do Catar, realçando seu papel diplomático como mediador de conflitos internacionais.

Quando Israel lançou o ataque contra líderes do Hamas em Doha, Trump não apenas se apressou em condenar a operação e em ficar ao lado do Catar, ao menos publicamente. Ele também assinou um decreto garantindo apoio americano ao país em caso de ataques ao seu território e à sua infraestrutura, passando a considerá-los como uma ameaça à paz e à própria segurança dos EUA.

*A reportagem continua na próxima edição de Oeste

Leia também “O lado sinistro do Catar (parte 2)” e “O lado sinistro do Catar (parte 3)”

Leia mais sobre:

0 comentários
Nenhum comentário para este artigo, seja o primeiro.
Anterior:
Mendonça Filho: “O Estado se mostrou passivo no combate ao crime organizado”
Próximo:
O sequestro do Holocausto
publicidade