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Edição 307

Eleições, raios e trovões

Não tem nada mais perigoso que povo na rua? Tem: povo na rua em movimento

— Você viu a tragédia do raio?

— Terrível.

— Muita irresponsabilidade.

— Irresponsabilidade? De quem?

— Dos que colocaram as pessoas expostas ao raio.

— Você acha que elas foram colocadas lá?

— De certa forma, sim.

— Pra você foi uma armadilha, então.

— Não diria uma armadilha.

— O que você diria?

— Uma arapuca.

— Sincronizaram com o raio?

— O céu estava carregado e as pessoas estavam ao ar livre. Desfecho previsível.

— Como evitar um desfecho assim?

— Fique em casa.

— Já ouvi isso em algum lugar.

— Ensinamento de um velho sábio chinês.

— Em casa, o raio não pega.

— Nem o raio, nem o vírus, nem o clamor popular.

— Clamor popular?

— É. O ajuntamento de gente pra expressar alguma coisa. Assim começou o fascismo.

— Reunião de pessoas na rua é fascismo?

— Nos dias de hoje, quase sempre.

— Que perigo.

— Pois é. O raio foi um aviso.

— Aviso? Os raios agora trabalham pela democracia?

— A natureza dá os seus sinais.

— Sinal de quê?

— De que povo na rua é perigoso.

— Não tem nada mais perigoso que povo na rua?

— Tem: povo na rua em movimento.

— O certo então é ficar em casa parado.

— Ficar em casa parado vendo as notícias que ignoram o povo em movimento.

— Isso faz bem?

— Se faz bem? Isso é a salvação!

— Os canais que não mostram o povo na rua estão salvando a democracia?

— Exatamente. Estão protegendo as pessoas da coisa mais nociva que a história já inventou.

— O que é?

— A realidade.

— Qual é o perigo da realidade?

— É desmentir as versões que criamos com tanto cuidado na imprensa.

— A imprensa está acima da realidade?

— Não. A imprensa cura a realidade das suas imperfeições.

— Como assim?

— Vou te dar um exemplo. O Wagner Moura se promove como um guerreiro contra a ditadura, certo?

— Certo.

— Pois bem. Só que o herói da democracia dele é o Lula, aliado da ditadura chavista e fã do controle chinês das comunicações, além de ter estado no centro de um dos maiores…

— Eu sei quem é o Lula. Pode prosseguir.

— OK. É porque estamos trabalhando em novas versões, então hoje a gente nunca sabe quem sabe o que de quem.

— Complexo, isso.

— Complexidade é uma das coisas mais belas da vida.

— Especialmente quando é pra confundir os outros.

— Exato. Tenho horror à simplicidade. Pra mim, é outro nome para ignorância.

— Faz sentido. Prossiga.

— Bem, então é isso: o Wagner jamais ficaria bem na foto se não fizéssemos a harmonização facial da realidade. Talvez alguém pudesse até ver promiscuidade naquela sanha palaciana dele.

— Que bom que ficou tudo bem.

— É cedo pra dizer que ficou tudo bem.

— Quando será possível dizer que ficou tudo bem?

— Quando ganharmos o Oscar.

— De melhor filme?

— Não. De Efeitos Eleitorais.

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