— Você viu a tragédia do raio?
— Terrível.
— Muita irresponsabilidade.
— Irresponsabilidade? De quem?
— Dos que colocaram as pessoas expostas ao raio.
— Você acha que elas foram colocadas lá?
— De certa forma, sim.
— Pra você foi uma armadilha, então.
— Não diria uma armadilha.
— O que você diria?
— Uma arapuca.
— Sincronizaram com o raio?
— O céu estava carregado e as pessoas estavam ao ar livre. Desfecho previsível.
— Como evitar um desfecho assim?
— Fique em casa.
— Já ouvi isso em algum lugar.
— Ensinamento de um velho sábio chinês.
— Em casa, o raio não pega.
— Nem o raio, nem o vírus, nem o clamor popular.
— Clamor popular?
— É. O ajuntamento de gente pra expressar alguma coisa. Assim começou o fascismo.
— Reunião de pessoas na rua é fascismo?
— Nos dias de hoje, quase sempre.
— Que perigo.
— Pois é. O raio foi um aviso.
— Aviso? Os raios agora trabalham pela democracia?
— A natureza dá os seus sinais.
— Sinal de quê?
— De que povo na rua é perigoso.
— Não tem nada mais perigoso que povo na rua?
— Tem: povo na rua em movimento.
— O certo então é ficar em casa parado.
— Ficar em casa parado vendo as notícias que ignoram o povo em movimento.
— Isso faz bem?
— Se faz bem? Isso é a salvação!
— Os canais que não mostram o povo na rua estão salvando a democracia?
— Exatamente. Estão protegendo as pessoas da coisa mais nociva que a história já inventou.
— O que é?
— A realidade.
— Qual é o perigo da realidade?
— É desmentir as versões que criamos com tanto cuidado na imprensa.
— A imprensa está acima da realidade?
— Não. A imprensa cura a realidade das suas imperfeições.
— Como assim?
— Vou te dar um exemplo. O Wagner Moura se promove como um guerreiro contra a ditadura, certo?
— Certo.
— Pois bem. Só que o herói da democracia dele é o Lula, aliado da ditadura chavista e fã do controle chinês das comunicações, além de ter estado no centro de um dos maiores…
— Eu sei quem é o Lula. Pode prosseguir.
— OK. É porque estamos trabalhando em novas versões, então hoje a gente nunca sabe quem sabe o que de quem.
— Complexo, isso.
— Complexidade é uma das coisas mais belas da vida.
— Especialmente quando é pra confundir os outros.
— Exato. Tenho horror à simplicidade. Pra mim, é outro nome para ignorância.
— Faz sentido. Prossiga.
— Bem, então é isso: o Wagner jamais ficaria bem na foto se não fizéssemos a harmonização facial da realidade. Talvez alguém pudesse até ver promiscuidade naquela sanha palaciana dele.
— Que bom que ficou tudo bem.
— É cedo pra dizer que ficou tudo bem.
— Quando será possível dizer que ficou tudo bem?
— Quando ganharmos o Oscar.
— De melhor filme?
— Não. De Efeitos Eleitorais.
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Bom demais, Guilherme.
Como sempre Fuiza sensacional.