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Ilustração: Júlia Xavier/Revista Oeste/Feito por IA
Edição 307

Como construir sua própria internet

As plataformas dominantes não estão aprimorando a sua experiência. Só você pode fazer isso

A internet que você usa diariamente — rolagem infinita, feeds algorítmicos entregando conteúdo que você não pediu, lixo gerado por IA entupindo os resultados de busca — não é a única internet disponível, é apenas a mais fácil de acessar. As plataformas dominantes priorizam a distribuição das informações a fim de ampliar sua fatia e valor de mercado. Eles não estão aprimorando a sua experiência. Só você pode fazer isso.

Cada ato individual de autodeterminação na internet se agrega a algo maior — uma resistência à demarcação corporativa do espaço digital. Pense nisso como uma escada. Cada degrau representa um nível diferente de envolvimento na forma como você consome, organiza e cria seu próprio espaço na internet. Você não precisa subir todos os degraus, mas saber que eles existem amplia as possibilidades. E cada passo que você dá o afasta das garras dos algoritmos corporativos e o leva a uma experiência de internet que você pode aproveitar para seus próprios interesses e necessidades.

Ilustração: Júlia Xavier/Revista Oeste/Feito por IA

Nível 1: Consumo Consciente

O feed algorítmico — aquela rolagem infinita de conteúdo escolhido por plataformas que priorizam o engajamento acima de tudo — é opcional. Você pode desativá-lo. Qualquer um dos passos a seguir poderá restabelecer a sua atenção como um recurso finito, que de fato é, em vez de deixá-la se tornar uma commodity que as plataformas obtêm por meio de um design sofisticado.

Consciência: a primeira coisa que você pode fazer é conhecer seu ponto de partida. Assim como a saúde física pode ser entendida por meio de dados vitais de nutrição e condicionamento físico, você pode monitorar seus “sinais vitais da internet”. Quantas vezes por dia você pega seu celular? Quanto tempo você passa nas redes sociais? O americano médio verifica seu telefone 186 vezes ao dia e passa 2 horas e 16 minutos nas redes sociais. Você pode verificar seus próprios números no Tempo de Uso (iOS) ou Bem-Estar Digital (Android). Se esse tipo de rastreamento específico parecer muito intimidador, você pode começar simplesmente se informando. Obras como Minimalismo Digital, de Cal Newport, e Invisible Rulers, de Renée DiResta, ou o trabalho de Tristan Harris sobre design ético, são bons pontos de partida.

Escape do algoritmo — saia das grandes redes sociais: é difícil. Plataformas sociais como Facebook, Instagram, Snapchat e X são onde você passou anos cultivando conexões e seguindo ativamente pessoas.

Escape dos algoritmos dentro das grandes redes sociais: essas mesmas plataformas oferecem opções menos impulsionadas por algoritmos. Algumas oferecem visualização cronológica se você explorar as configurações. Ou você pode fazer questão de interagir apenas com listas de contas pré-selecionadas, como os Stories de seus amigos, e não interagir com o Feed. Você pode configurar seu aplicativo do Facebook para abrir diretamente em Grupos ou no Marketplace específicos, em vez do feed de notícias geral. Ou assinar canais de transmissão no Instagram, onde você recebe mensagens diretas de criadores que você gosta, embora você precise verificar quais criadores que você já segue possuem esses espaços semiprivados.

A verdadeira chave é evitar a dinâmica de consumo de reels como “um poço sem fundo”, onde você começa a assistir um vídeo vertical e rapidamente se perde numa espiral sem fim, onde uma navegação inocente se transforma em um longo bloco de consumo passivo semelhante à TV.

Ilustração: Shutterstock

Nível 2: Curadoria Ativa

Uma vez que você tenha estabelecido algum controle sobre o que chega até você, o próximo passo é construir ativamente o que você quer ver. Isso significa passar da defesa (bloquear o que você não quer) para o ataque (determinar as fontes de informação em que você confia). Fazer isso cria sinais de demanda para a internet que você deseja. Toda assinatura, todo comentário intencional, todo criador de conteúdo que você apoia diz ao mercado o que é valioso. Você não está apenas consumindo de forma diferente — você está financiando e ampliando alternativas — tanto dentro do “mercado algorítmico” da plataforma quanto, num âmbito macro, o grande mercado de todos os produtos digitais.

Assinaturas de newsletters: Praticamente tudo o que você encontra na internet social, você pode encontrar por meio de newsletters — de curadores de notícias como o Tangle ou o NextDraft, de Dave Pell, a catalisadores como Hunter Harris, sobre cultura, ou Anne Helen Petersen, sobre vida intencional. Existem agregadores de notícias locais, profissionais, esportivas. Ao assinar, você está optando, com sua atenção (e às vezes com seu dinheiro), por uma economia de criadores sustentável. Você está pedindo um conteúdo finito para consumo, não uma rolagem infinita.

Feeds RSS: Para aqueles menos familiarizados, o RSS (Really Simple Syndication, ou “Distribuição Realmente Simples”) permite que você assine diretamente websites, blogs e fontes de notícias, recebendo atualizações em ordem cronológica, em vez de geradas pelo algoritmo. Ferramentas como Feedly ou Inoreader agregam esses feeds em interfaces legíveis — muito parecidas com uma caixa de entrada de e-mail. Você pode construir um feed de fontes de notícias locais, blogs de nicho e jornalistas independentes — um jornal personalizado que se atualiza ao longo do dia sem que ninguém mais ponha o dedo na balança.

Comente intencionalmente: o refrão “comentar para o algoritmo” repetido por criadores da Geração Z não é brincadeira — é estratégia. O engajamento genuíno (não apenas curtidas, mas comentários que geram conversa) ajuda a dar visibilidade ao conteúdo para outras pessoas que possam valorizá-lo — e de volta para você. Cada ação que você toma, desde ignorar até se demorar no conteúdo, causa impacto. Mas nada gera mais impacto do que comentar. Você não está apenas consumindo; está participando ativamente na decisão do que é amplificado. Se você está experimentando o Threads e acha que é uma cidade fantasma, você precisa começar a comentar para treinar seu algoritmo. Se você acha que o LinkedIn empurra notícias profissionais excessivamente banais e de autopromoção, tente focar nos comentários e discussões encadeadas sobre questões profissionais que você realmente quer ver preenchendo seu feed — mesmo com conexões mais superficiais.

Nível 3: Construindo Alternativas

O nível mais alto envolve a participação em infraestruturas projetadas especificamente para resistir à demarcação corporativa. Isso não exige competência técnica — apenas a disposição para experimentar plataformas organizadas em torno de princípios diferentes que, de fato, levam um pouco mais de tempo para configurar ou entender.

Logo da plataforma Reddit | Foto: Shutterstock

Engaje-se em redes menores: eu checo com prazer o Swarm (antigo Foursquare) e me mantenho atualizado com os aproximadamente 40 amigos meus que ainda estão lá. Isso se encaixa no meu círculo social de millennial mais velho; existem outras plataformas para outros perfis de grupos. A galera da Geração Z ainda está se reunindo no BeReal. Pessoas com interesse em fotografia parecem estar realmente migrando para o Retro. Você nem precisa entrar em uma “rede social” — junte-se a servidores do Discord em torno de interesses específicos. Siga subreddits, os fóruns ou as comunidades de nicho do Reddit. Participe de fóruns ou wikis especializados. Por meio de meus filhos, aprendi a navegar em fóruns e wikis de Pokémon e anime para me manter atualizado com os interesses deles. Para mim, sou ativo em diversos fóruns de música e tenho destinos preferidos para melhorias domésticas e moda masculina. Esses espaços operam em escala humana, onde a reputação e a reciprocidade importam. São também onde você encontrará pessoas realizando os trabalhos mais interessantes com especialização em áreas específicas.

O efeito agregado

Foto: Shutterstock

Nenhum desses atos individuais é revolucionário. Assinar uma newsletter, entrar em um servidor do Discord, monitorar seu tempo de tela — são pequenas decisões pessoais sobre como você gasta seu tempo online. Mas é assim que a mudança estrutural acontece na internet. O mercado é impulsionado pelas tendências agregadas de suas microações individuais.

As plataformas que dominam sua vida digital hoje venceram por meio do efeito rede. Cada novo usuário tornava a plataforma mais valiosa para todos os outros, criando um círculo de feedback que, eventualmente, parecia inescapável. A mesma mecânica funciona ao contrário. Cada pessoa que opta por RSS em vez de feeds algorítmicos, cada criador que constrói uma audiência por meio de canais próprios em vez de plataformas alugadas, cada comunidade que se forma em torno de protocolos compartilhados em vez de silos corporativos — potencializa essas escolhas. O que começa como sua internet pessoal gradualmente se torna uma internet alternativa viável, à qual outros veem valor em aderir.

Isso já está começando. O Mastodon passou de 300 mil usuários ativos mensais em outubro de 2022 para mais de 2 milhões em dezembro de 2022, impulsionado em grande parte por decisões individuais de deixar o Twitter/X. O Substack hospeda mais de 50 mil publicações que ganham dinheiro com assinaturas. A próxima onda de empresas de mídia já está construindo dessa forma, com propósito.

Perfectly Imperfect é uma newsletter badalada do centro de Nova York que também opera um aplicativo social de feed lento com uma estética de design do MySpace. Dave Jorgenson ficou conhecido como o “cara do TikTok do Washington Post” e, cinco meses após sua independência, tem uma presença maior no YouTube do que o Post, e ele está igualmente focado na conversa interativa com sua audiência via newsletter.

A demarcação corporativa da internet aconteceu gradualmente, plataforma por plataforma, à medida que fomos trocando conveniência por controle. A reconquista do espaço digital acontecerá da mesma forma — individual e progressivamente, mas se agregando a algo substancial. A cada ato de consumo consciente, damos passos para construir uma internet centrada no ser humano.


Justin Bank trabalhou como editor nos jornais The Washington Post e The New York Times. É cofundador do Independent Journalism Atlas.

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