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Sobrevoo de Ein Yahav, uma área agrícola no Mar Morto, Israel (28/2/2019) | Foto: Shutterstock
Edição 306

Os judeus e a agricultura brasileira

No pós-guerra, as contribuições de pesquisadores e instituições judaicas revolucionaram a segurança alimentar global

Em 27 de janeiro é celebrado o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto (Shoah). A data faz referência à liberação, pelas tropas soviéticas, do Campo de Concentração e Extermínio Nazista de Auschwitz em 1945. Ela foi definida pela Assembleia Geral das Nações Unidas. Milhões de vidas humanas foram eliminadas pela barbárie nazista. Dentre elas, muitas crianças. Quantos teriam se tornado gênios, artistas, cientistas…?

Malgré tout, sem analisar as razões históricas, étnicas ou religiosas deste fato, até 2025, cerca de 220 pessoas de origem judaica ou com pelo menos um progenitor judeu receberam o Prêmio Nobel. Esse número representa cerca de 20% a 22% de todos os laureados individuais. Algo extraordinário. E essa capacidade criativa e inovadora do mundo judaico alcançou o Brasil.

No pós-guerra, as contribuições de pesquisadores e instituições judaicas para a agricultura, impulsionadas pelas necessidades geográficas de Israel, revolucionaram a segurança alimentar global, através de tecnologias e inovações disruptivas em gestão de recursos naturais e na produtividade vegetal e animal. E isso chegou ao agro brasileiro.

Plantas crescem em estufas agrícolas para o cultivo de especiarias e ervas no deserto de Israel | Foto: Shutterstock

Através da ciência, eles transformaram áreas áridas em terras produtivas pela tecnologia e pelo uso racional de recursos naturais. Hoje, as pesquisas israelenses focam mais em biotecnologia, manejo de água e inteligência artificial aplicada ao campo. Há décadas, essas tecnologias agropecuárias chegaram ao Brasil e ajudaram no crescimento da agricultura nacional.

Israel promoveu uma revolução na irrigação e na gestão da água. Em primeiro lugar, através da Irrigação por Gotejamento (Netafim). Desenvolvida na década de 1960, essa tecnologia pioneira aplica água e nutrientes diretamente na raiz, minimiza desperdício, perdas por evaporação e chega a até 100% de eficiência. É considerada uma das maiores inovações agrícolas do século 20. Na Gestão Hídrica Avançada, Israel é líder na reciclagem de águas residuais (esgoto tratado). Mais de 50% da água utilizada em sua agricultura provém de reuso. Os plásticos e filmes agrícolas inteligentes levaram ao desenvolvimento de coberturas de polietileno especializadas (Ginegar). Elas permitem controlar luz, temperatura, plantas daninhas e otimizam o crescimento em climas adversos e em estufas.

O tomate cereja é uma invenção israelense e é colhido como cachos de uva. Colher tomates cereja individuais é lento, caro e trabalhoso. Pesquisadores israelenses criaram outras variedades de tomates, como super tomates de seca, cultivados mundialmente, com maior durabilidade, sabor, poder nutricional e resistentes a doenças. Eles garantem altos rendimentos, mesmo em condições extremas de seca.

O tomate-cereja foi desenvolvido em Israel em 1973. Na foto, um agricultor israelense cultivando tomates-cereja vermelhos, segurando um cacho nas mãos, em Neguev Ocidental, Israel (6/12/2010) | Foto: Shutterstock

A pesquisa genética israelense criou outras variedades de cultivos resistentes a doenças, pragas e seca, em particular nas frutas cítricas, azeitonas e abacates. O país desenvolveu diversos sistemas de controle biológico de pragas (BioBee), com base em predadores naturais de pragas agrícolas, e reduziu sua dependência de pesticidas químicos.

“Você me deu sua lama e eu te devolvi ouro.” (Charles Baudelaire)

A ciência israelense realizou avanços notáveis na agricultura de precisão e tecnologias associadas (AgTechs, IoT), no uso da inteligência artificial (IA) e monitoramento (Taranis, CropX). O uso de IA, sensores de solo e drones para monitorar plantações e otimizar recursos permite aos agricultores tomarem decisões otimizadas, baseadas em dados e em tempo real. Cresce o uso de tratores e veículos autônomos (Bluewhite), operando sem condutores, para coleta de dados no campo, automação do manejo da terra e dos tratos culturais. Com monitoramento por sensores e melhoramento genético, as vacas em Israel detêm as maiores médias mundiais de produção de leite por animal.

Grande parte dos produtores rurais brasileiros carece de extensão rural e assistência técnica adequada. O modelo israelense de integrar pesquisadores, extensionistas e produtores permitiu ao país multiplicar sua produção agrícola em 16 vezes desde sua independência.

Sistema de irrigação inteligente para agricultura em plantações de milho, em Israel | Foto: Shutterstock

As inovações agropecuárias tornaram Israel autossuficiente e exportador de alimentos. Além da produção, as tecnologias agrícolas também têm sido exportadas para ajudar a combater a escassez de água e alimentos em diversas partes do mundo, incluindo o Brasil.

Não se pode esquecer o caráter único e sistêmico do genocídio praticado contra os judeus pelo nazismo. Recordar, discutir e aprender sobre o Holocausto é fundamental para uma melhor compreensão do passado. E para aumentar a conscientização sobre as formas contemporâneas de antissemitismo, xenofobia e ódio. A Shoah mostra como antissemitismo e ódio criam condições propícias à perda de direitos fundamentais, ao desrespeito do devido processo legal, à invenção de crimes e delitos inexistentes na legislação…, como denuncia-se no Brasil sobre o atual comportamento de alguns juízes das mais altas cortes.

Sobre o Holocausto, vive-se hoje a transição da era das testemunhas para a era da história. Com o desaparecimento dos últimos sobreviventes dos campos de concentração nazistas, o desafio é transmitir suas experiências e, ao mesmo tempo, ampliar as pesquisas e o trabalho histórico, a contextualização e a educação empática, sem cair no sensacionalismo ou em comparações inapropriadas, como realizadas recentemente por autoridades brasileiras. Ou pior, na retirada do Brasil da Aliança Internacional para a Memória do Holocausto, em julho de 2025.

Judeus aprisionados no campo de concentração de Buchenwald, Alemanha | Foto: Shutterstock

Diante de “fatos alternativos” e negacionismo, embebidos de antissemitismo, até em universidades norte-americanas, é crucial recorrer a fatos históricos para combater a desinformação, enfatizar a análise crítica e a necessária compreensão das causas e consequências da Shoah.

Quando reflito sobre a tragédia da Shoah, ocorrida há 80 anos, e vejo a contribuição dos cientistas e da pesquisa agropecuária israelense ao desenvolvimento da agricultura no mundo e no Brasil, me vem à lembrança um trecho de um poema de Charles Baudelaire no livro Les Fleurs du Mal (As Flores do Mal):

Tu m’as donné ta boue et j’en ai fait de l’or.
(“Você me deu sua lama e eu te devolvi ouro.”)

Recipientes hidropônicos com mudas de morango em estufa. Tecnologia hidropônica israelense para o cultivo de morangos | Foto: Shutterstock

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7 comentários
  1. DONIZETE LOURENCO
    DONIZETE LOURENCO

    Doutor Evaristo nos brindando com seus conhecimentos hostóricos.
    É alvissareiro saber que mais de 200 cientistas de origem judaica conquistaram o prêmio Nobel.
    O Brasil não tem nenhum e o que chegou mais próximo foi César Lattes, fídico cutibano, codescobridor do méson-π, descoberta que levou à concessão do Prêmio Nobel de Física de 1950 a Cecil Frank Powell, líder da pesquisa.
    Aqui mesmo na Oeste li recentemente uim artigo sobre o Hospital Israelita Albert Einstein que ocupa a 22º lugar em eficiência no mundo.
    Apesar das escolhas erradas dos terroristas que ocupam o poder no Brasil, temos que agradecer aos judeus pela sua enorme contribuição em tantas áreas da ciência.

  2. Alice Helena Rosante Garcia
    Alice Helena Rosante Garcia

    Na area medica a contribuiçao dos judeus é imensuravel !!! Devemos muito a eles
    Ver esse desgoverno inaceitavel pregar o antisemitismo chega a doer
    Temos q lutar contra isso e ensinar a nova geraçao a respeitar a memoria desse povo que renasce das cinzas sempre !

  3. Letícia Mammana
    Letícia Mammana

    Escolas inglesas estão ignorando o Dia Internacional em Memória do Holocausto. Transformá-lo em algo sobre Gaza é pior, conforme artigo publicado no The Telegraph em 22 de janeiro de 2026 por Nicole Lampert. Muito adequado o artigo do Dr. Evaristo. Aqui, o antissemitismo da esquerda e do atual Governo, assusta.

  4. Fabio Reiff Biraghi
    Fabio Reiff Biraghi

    O Rabino Henry Sobel, em um artigo intitulado ” JESUS E O JUDAÍSMO “, esclarece muito sobre o antissemitismo, que é injustificado. Judeus são pacíficos, sempre tentaram fazer ouvidos moucos às injustiças e perseguições e contribuiram, como cita Evaristo de Miranda, para o desenvolvimento da humanidade, não só na agricultura,mas em todos os campos da ciência.
    Infelizmente temos um governo do lado errado da história que induz os incautos e sem conhecimento a acreditar que os JUDEUS são problema.
    Muito alegraria, a todos se o BRASIL tivesse a quantidade de NOBEIS que eles tem.
    NÃO TEMOS NEM UM.

  5. João Carlos de Souza Carvalho
    João Carlos de Souza Carvalho

    Sou engenheiro agrônomo fitossanitarista , sempre serei grato aos israelenses pelo curso de micro irrigação e gotejamento que eles me proporcionaram ! Um povo inteligente , democrata e corajoso que tem de ser valorizado ! Amo Israel e seus habitantes !

  6. Themis Regina França Koteck
    Themis Regina França Koteck

    Enorme admiração pelo povo judeu !
    Brasil só sai perdendo com um governo e sobretudo com um presidente declaradamente antissemita .

  7. Daniel BG
    Daniel BG

    O ódio aumenta no mundo. Apesar dessa linda notícia, existe um cálculo que mede a possibilidade de uma guerra nuclear. Para se ter idéia, na época da guerra fria o tempo era de 9 minutos. Hoje está em 2 minutos.

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