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Pessoas se curvam às gigantes estátuas no Grande Monumento da Colina Mansu em Pyongyang, com Kim Il-sung (à esquerda) e Kim Jong-il (à direita) | Foto: Bjørn Christian Tørrissen/Wikipédia
Edição 306

A perseguição aos cristãos na Coreia do Norte

O depoimento de uma cristã que teve de se exilar na Coreia do Sul para poder vivenciar sua fé

Aos 12 anos, Kim Sang Hwa (nome fictício) descobriu uma Bíblia em casa. Esse poderia ter sido o começo de uma história comum de conversão ao cristianismo caso a protagonista não vivesse na Coreia do Norte, onde a religião é estritamente proibida desde os anos 1950. Na escola, ensinaram à menina que cristãos eram maus e deveriam ser denunciados ao governo. Diante da descoberta de um exemplar do Livro Sagrado em sua casa, o primeiro ímpeto foi de acusar os pais de traição. Desistiu da denúncia porque sabia que, se a fizesse, jamais veria a família novamente. 

Kim revelou ao pai a descoberta. Conversaram sobre o assunto e ela se tornou mais uma entre os milhares de cristãos clandestinos da Coreia do Norte. Casou-se com um rapaz que havia se convertido graças à pregação do pai dela e fugiram para a Coreia do Sul, onde vivem até hoje. O marido de Kim é pastor.

Em 2025, Kim esteve no Brasil para visitar algumas igrejas evangélicas em São Paulo. Por meio da ONG Portas Abertas, Oeste teve acesso ao depoimento dela, cujo nome real e fotos não podem ser revelados por segurança. Contou sua trajetória e a situação dos cristãos na ditadura comunista de Kim Jong-un. 

A Coreia do Norte lidera a lista anual da Portas Abertas de países com mais perseguição aos cristãos desde 1993, quando a organização criou o ranking. Somente em 2022 a ditadura comunista perdeu, temporariamente, o posto de governo mais opressor, para o Afeganistão. No regime de Kim Jong-un, a única alternativa é praticar a fé secretamente, escondido até dos familiares. O governo fechou as igrejas depois da Guerra da Coreia, no início dos anos 1950. Não é permitido aos norte-coreanos construir nem frequentar templos cristãos.

Igreja cristã mantida pelo regime comunista em Bongsu, Pyongyang, Coreia do Norte | Foto: Jasmine Leung/Shutterstock

Igrejas são proibidas desde a instauração do comunismo 

Desde a divisão do país, os cristãos foram perseguidos e mortos na Coreia do Norte. Os que sobreviveram foram banidos da capital, Pyongyang, e das principais cidades, para localidades remotas sob permanente vigilância de agentes do governo.

Apesar de notícias superficiais sobre as condições de vida na Coreia do Norte circularem mundo afora, a maioria não reflete a verdadeira dimensão das precariedades vividas pela população, entende Kim. Há falta de comida e de condições básicas de saúde, educação e moradia. “Crescemos acreditando que o que vivemos é natural, normal”, diz. “O norte-coreano não tem referência, não tem noção se a interferência de outro país pode ajudar ou ainda atrapalhar mais.”

As quatro igrejas cristãs da Coreia do Norte — uma ortodoxa russa, uma católica romana e duas protestantes — são de fachada e, os membros, atores treinados pelo governo para para encenar cultos solicitados por turistas ou estrangeiros que vivem no país. “A verdadeira igreja na Coreia do Norte é secreta”, destaca Kim. “As sedes de negócios familiares, como serviços e comércio, são usadas para encontros de cristãos e evangelização”, conta. Quando descobertos, os cristãos são mortos ou enviados para campos de trabalhos forçados. Quase nunca saem vivos de lá.”

O Jardim do Éden com a Queda do Homem, c. 1615, por Peter Paul Rubens e Jan Brueghel, o Velho | Foto: Reprodução

O animal mais perigoso do mundo

Viver a fé secretamente pode levar a situações absurdas, como marido e mulher serem cristãos, mas um não saber sobre a fé do outro. “Às vezes, só descobrem quando um dos filhos fala algo relacionado à Bíblia, que o pai ou a mãe ensinou.” Ela própria passou por uma situação inusitada. Kim perguntou ao pai como poderia falar de Jesus aos amigos da escola. “Ele disse para eu orar a Deus e pedir sabedoria sobre isso, e Deus me deu uma estratégia.” Kim aos colegas — de forma individual, por precaução — qual o animal mais perigoso do mundo. “Eles respondiam: o tigre, o leão, o urso, e eu falava da serpente e contava a história de Gênesis, Adão, Eva, a serpente e Jesus.” Quando o colega respondia “a serpente”, ela sabia que estava diante de outro cristão. “Apenas sorríamos tímidos e não falávamos mais sobre aquilo.” 

A perseguição faz com que os cristãos da Coreia do Norte não possam sequer cantar um louvor em voz alta dentro de casa, sob pena de separação da família, prisões, trabalhos forçados, torturas e morte. Segundo relato da Portas Abertas, que mantém casas seguras na fronteira com a Coreia do Norte para acolhimento de migrantes fugitivos do regime, o cotidiano de um cidadão daquele país é marcado por controle governamental, doutrinação política e vigilância constante. Os moradores de cidades como Pyongyang recebem algumas facilidades, por terem histórico de lealdade ao regime.

Mesmo assim, a rotina nos grandes centros é rígida: começa com transmissão de propaganda estatal e inclui reuniões políticas obrigatórias e monitoramento do trabalho em escritórios oficiais e fábricas. Os cidadãos “privilegiados” também participaram de sessões obrigatórias de autocrítica, nas quais são forçados a admitir publicamente seus erros, como o não cumprimento das normas impostas pelo Partido Comunista. Nessas ocasiões, há humilhação pública e denúncia de outros membros do grupo.

Nem a capital escapa da falta de alimentos e da instabilidade do fornecimento de energia elétrica, embora as condições sejam bem piores no campo. A limitação da liberdade individual é a regra. “O que você diz, aonde vai, até mesmo o que assiste ou lê é rigidamente controlado, e expressar a opinião errada pode ter consequências graves”, diz o relato da Portas Abertas.

Liberdade, o diferencial do Ocidente

Durante a visita ao Brasil, Kim comparou o modo de vida norte-coreano ao ocidental. “A liberdade é a principal diferença, liberdade de pensamento, de expressão, religiosa”, afirma. “A cultura também é completamente distinta”.

Além de São Paulo, ela visitou outros Estados do país e encoraja os cristãos brasileiros a aproveitarem a liberdade religiosa da qual dispõem por lei. “É importante valorizar o quanto vocês podem a adorar a Deus, evangelizar livremente. O quanto isso é possível, e até estimulado, no Brasil.”

Foto: Shutterstock

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2 comentários
  1. Erasmo Silvestre da Silva
    Erasmo Silvestre da Silva

    Como pode hoje existir pessoas a favor do socialismo?

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