A única vez que sofri de bronquite foi logo depois de passar o mês de fevereiro em Calcutá, onde o ar estava tão poluído que me senti sem fôlego mesmo em repouso. Não precisei de mais convencimento de que o meio ambiente é importante para nós e que sua qualidade é motivo legítimo de preocupação.
Mesmo quando os efeitos da poluição são menos dramáticos ou mais sutis, a qualidade de nossas vidas se deteriora, pelo menos em relação ao que poderia ter sido em outras circunstâncias. Enquanto eu crescia em Londres, há mais de 60 anos, a variedade e o número de pássaros nos jardins eram imensamente maiores do que são hoje. Bandos de estorninhos (chamados de “murmuration” em inglês) chegavam a ser tão grandes que cobriam metade do céu que a vista alcançava. Havia sabiás nos jardins, um pássaro antes comum que já não vejo há décadas. Todo o país é afetado: o número de cucos e cotovias diminuiu em dois terços em apenas três ou quatro décadas.
A natureza, como a história, é um manto sem costuras. O declínio dos cucos na Inglaterra é atribuído ao declínio no número de pássaros cujos ninhos eles parasitam ao depositarem seus ovos neles, e isso, por sua vez, é causado pelo declínio no número de insetos dos quais esses pássaros se alimentam, o que tem como causa o uso de pesticidas e a destruição física das árvores e sebes onde eles se reproduzem.
É claro que alguém poderia dizer que isso pouco importa: afinal, quantos de nós estão de fato interessados na vida selvagem ao nosso redor e podem afirmar, sem exagero, que a qualidade de nossas vidas foi profundamente afetada para pior em razão de seu declínio?
O cuco, cujo canto característico já se pôde ouvir até mesmo na Londres suburbana, tem sido de importância cultural para o país. O primeiro poema em inglês que se pôde reconhecer, do século 14, era sobre o cuco. Por muitos anos, as pessoas escreviam para os jornais dizendo que tinham ouvido o primeiro cuco da primavera, como uma espécie de arauto de alívio ou de felicidade ao fim da escuridão do inverno. Elas não fazem mais isso, pois os cucos raramente são ouvidos em lugar algum.
Uma vez que quase tudo pode afetar a saúde, o controle de tudo em nome da saúde é justificado.
As crianças inglesas hoje, pela primeira vez em séculos, crescerão sem qualquer conhecimento ou familiaridade com os cucos. As expressões “o primeiro cuco” ou “um cuco no ninho” (referindo-se a alguém cuja presença é perigosa e traiçoeira) não significarão nada para elas, pois o pássaro lhes será tão estranho quanto, digamos, o tucano ou o casuar. De qualquer forma, elas estarão vidradas em suas telas.
Não devo exagerar. Não posso afirmar que minha vida se tornou infeliz ou sem sentido pelo desaparecimento do cuco, nem que teria sido muito diferente se o cuco ainda fosse tão numeroso quanto antes. Mas uma vida é feita igualmente de coisas pequenas e grandes, e as pequenas perdas se acumulam. Além disso, a redução de insetos em todo o mundo poderia eventualmente ter um efeito econômico desastroso, assim como a de minhocas (nem de longe a minha criatura favorita do ponto de vista estético). Lá se foram os dias em que pensávamos na natureza como um inimigo a ser vencido, subjugado pela força, por assim dizer. A iconografia comunista inicial do progresso, representada por fábricas na paisagem expelindo fumaça, agora nos parece absurda, ou pior do que absurda.
Ainda assim, apesar de tudo isso, sou cético em relação ao ambientalismo como ideologia. Recentemente, por exemplo, uma edição do British Medical Journal (BMJ) foi dedicada amplamente ao “Brasil e a Crise Climática”. Sua capa traz uma imagem estilizada de indígenas felizes na floresta, levando uma vida idílica, com um papagaio colorido voando acima deles, e a mensagem quase subliminar de que os moradores da floresta são bons e os da cidade são ruins, uma variação do mito do bom selvagem.
O BMJ, há muito, transformou-se de uma publicação majoritariamente científica em uma amplamente política, com um tom moral intimidador e tendência ao totalitarismo. Uma vez que quase tudo pode afetar a saúde, o controle de tudo em nome da saúde é justificado, pois quem poderia negar a importância da saúde, a pré-condição de toda a existência humana?
O BMJ (mas também muitas outras publicações do tipo) é completamente desprovido de qualquer senso de ironia, de consciência de que todas as ações humanas e políticas públicas têm consequências não intencionais e imprevisíveis, que a perfeição não é deste mundo, que os desejos humanos se opõem uns aos outros, que o utopismo puritano termina em um tipo especial de inferno, que os benefícios geralmente têm que ser pesados em relação aos danos, e que, uma vez que benefícios e danos muitas vezes não são mensuráveis, decisões muitas vezes terão que ser tomadas em situações nas quais vai ocorrer algum tipo de tragédia.
Um artigo no BMJ, com capa brasileira, exalta o recurso ao Judiciário (em vez do Legislativo) para exigir o controle da poluição, com base no argumento de que a poluição prejudica a saúde e que a saúde é um direito humano garantido por lei. Isso, é claro, abre uma caixa de Pandora que só pode levar a uma ditadura da lei e dos advogados.
Em primeiro lugar, a saúde não pode, de forma alguma, ser um direito humano, pois, nesse caso, a morte seria, em si mesma e em todos os casos, uma violação de um direito humano, o que, no estado atual da mortalidade do homem, é absurdo. Mesmo os cuidados de saúde não podem ser um direito humano, por mais desejáveis que sejam. Ao tornar o que é desejado ou desejável uma questão de direitos humanos, criou-se um pretexto para uma interferência burocrática, política e legal infinita em todos os aspectos da vida.
Tomemos a questão dos cães como animais de estimação como uma ilustração hipotética. O Islã proíbe a criação de cães por mero prazer ou por companhia, pois são considerados ritualmente impuros. Os ambientalistas poderiam facilmente proibir a criação de cães com base no argumento de que sua necessidade de alimentação aumenta o fardo da biosfera, de que emitem gases de efeito estufa e, na maioria dos casos, não desempenham nenhuma função essencial. Assim, os cães passariam de melhores amigos do homem a seus piores inimigos, ao se juntarem às forças que inevitavelmente levarão à extinção da humanidade. Como as boas intenções hipócritas vêm facilmente servir à causa da loucura pelo poder e da tirania!

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Excelente artigo. Esse “negócio de ambientalismo” está virando uma verdadeira paranoia generalizada. No Brasil advém principalmente dos movimentos de Teologia da Libertação, da banda podre da Igreja Católica; e que ainda hoje dominava a formação da grande maioria dos Seminários de Filosofia e Teologia do catolicismo romano. E já pensou nisso? Quase 100.000 (cem mil Missas celebradas) diariamente no país e em quase todas elas os “Padres” defendendo o lulismo e as questões ambientalista? Ave Maria. Jesus Cristo dos Céus. Parabéns pelo excelente artigo. A Revista Oeste é um verdadeiro oásis em meio ao deserto árido dos atuais meios de comunicação social no Brasil.