O conto Mentiroso, de Isaac Asimov, relata o colapso de um empático robô que, por um erro de produção, desenvolveu telepatia. O problema todo é que, para não causar dano — a primeira das três leis da robótica criadas pelo escritor norte-americano —, decepcionando ou frustrando os humanos que o rodeiam, Herbie começa a mentir. E mente com maestria, dizendo precisamente o que cada um dos cientistas deseja ouvir, já que consegue ler seus pensamentos.
A história do mitômano cibernético, que integra a coletânea Eu, Robô, publicada em 1950 — quando esse tipo de tecnologia fazia parte basicamente da ficção científica —, mostra-se profética, em alguns aspectos, para os dias de hoje, em que a inteligência artificial teve um salto sem precedentes, a partir de 2022, com a popularização das inteligências generativas semelhantes ao ChatGPT. Esses programas, que entendem texto e “conversam” como se fossem pessoas reais, em razão de um amplo treinamento com dados da internet, estão cada vez mais presentes na vida cotidiana das pessoas em todo o mundo.
No Brasil, uma pesquisa divulgada em outubro mostrou que quase metade dos brasileiros usou algum programa de inteligência artificial para desabafar, pedir conselhos emocionais, enfrentar situações difíceis, compartilhar tristezas e sofrimentos. Ou seja, tentaram encontrar nesses algoritmos superdesenvolvidos um terapeuta. O número é cinco vezes maior do que em 2024, segundo a mesma pesquisa — Inteligência Artificial na Vida Real, desenvolvida pelo instituto Talk Inc., que, na edição de 2025, entrevistou 1,2 mil pessoas com mais de 18 anos em todo o país.
Na pesquisa, os entrevistados relatam os mais diversos usos da IA: lidar com o luto pela perda do cão, escrever uma mensagem para terminar um relacionamento amoroso, desabafar e pedir conselhos. Do total, 49% disseram que “faz parte da sua realidade pedir conselhos à IA” e 58% já usaram algum desses programas “como amigo ou conselheiro para trocar e resolver questões pessoais e emocionais”.
Entre os motivos para o uso de uma IA como “terapeuta”, as pessoas ressaltaram a disponibilidade em tempo integral dos programas, a facilidade e a conveniência, além da obtenção de respostas rápidas, diretas e objetivas. Os entrevistados também destacaram o conforto emocional, o fato de não ter custo financeiro e a facilidade do relacionamento. Além disso, mencionam sentir “mais liberdade para falar o que quiserem”, sem precisar fazer “esforço social” nem lidar com reações. A solidão é citada por 26% dos entrevistados. Há outro dado que não consta da pesquisa, mas que precisa ser considerado: o déficit de atendimento em saúde mental no Brasil é elevado. Um levantamento da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) mostra que 80% das pessoas com problemas graves de saúde mental não tiveram acesso adequado aos tratamentos necessários em 2020 nas Américas.

Diante do uso crescente dos chatbots para terapia, sistemas como ChatGPT, Gemini e Grok advertem que não foram desenvolvidos para resolver problemas existenciais ou oferecer atendimento psicológico. “Eu não substituo um psicólogo ou psiquiatra, nem faço terapia clínica”, responde o ChatGPT. O sistema afirma que pode atuar apenas como apoio emocional, ajudando a organizar pensamentos, refletir sobre sentimentos, identificar padrões e sugerir exercícios simples, como técnicas de respiração, escrita ou autocuidado. Em situações de sofrimento mais grave, as plataformas costumam orientar o usuário a procurar ajuda profissional ou serviços de emergência, como o Centro de Valorização da Vida (CVV), no Brasil, ou o SNS, em Portugal.
Entretanto, pode haver falhas. Ao menos dois casos no mundo relacionam interações com inteligências artificiais a supostas instigações ao suicídio que resultaram em morte. As famílias das vítimas, um adolescente de 14 anos no Reino Unido e um jovem de 16 anos nos Estados Unidos, entraram com ações judiciais contra as empresas responsáveis pelas plataformas, o Character.ai e o ChatGPT. No primeiro caso, a empresa nega as acusações; no segundo, a OpenAI afirma que o sistema direciona usuários em crise para ajuda especializada, mas reconhece que, em conversas longas, esses mecanismos de proteção podem falhar. Também ganhou repercussão internacional o caso de uma mulher grega que decidiu encerrar um casamento de 12 anos depois de uma IA sugerir que o marido a traía, com base em uma leitura de xícara de café — prática associada à adivinhação.
Além dos riscos diretos, especialistas alertam para problemas menos visíveis, como a privacidade e o uso de dados pessoais. Diferentemente de psicólogos, que são legalmente obrigados ao sigilo profissional, os sistemas cibernéticos armazenam informações sensíveis em servidores, sujeitas a usos futuros nem sempre claros. Um levantamento da Fundação Mozilla, organização independente de monitoramento tecnológico, mostrou que 19 dos 32 aplicativos populares de saúde mental analisados não protegem adequadamente a privacidade dos usuários.

Cautela
Especialistas veem o uso da inteligência artificial com cautela. Doutor em Psicologia, Paulo Roberto de Andrada Pacheco explica que, no curto prazo, há um alívio real no sofrimento. “De fato, a IA se apresenta sob a forma de uma linguagem clara, com respostas rápidas e uma espécie de ‘atenção disponível’ que conforta, num primeiro momento”, afirma. “Para quem está desorganizado emocionalmente, isso pode ajudar a colocar os pensamentos em ordem.” Porém, a IA é, de fato, um simulacro convincente, alerta Pacheco, autor de Idolatria Digital. “Uma pessoa vulnerável pode acreditar que está recebendo cuidado clínico quando, na verdade, está apenas interagindo com um sistema de geração de linguagem, treinado, aliás, a ser sempre agradável, a sempre dizer o que for mais confortável para o operador.”
Uma analogia interessante é a do professor Hamed Haddadi, do Imperial College London: programas de chatbots se assemelham a “terapeutas inexperientes”, disse à BBC. Profissionais humanos interpretam sinais que vão além do texto, como linguagem corporal, expressões faciais, aparência e comportamento — algo inacessível às máquinas. E, em regra, quanto mais experiência um profissional tem com os tipos humanos, melhor será seu desempenho profissional. Doutor em psicologia clínica, Rodrigo Mello parece concordar com essa analogia: “É por você não saber os benefícios de um bom psicoterapeuta de inteligência real que você ainda está fazendo uso da inteligência artificial”. Para ele, se a inteligência artificial for usada para melhorar os vínculos entre pessoas, “terá excelente papel para o bem da humanidade”. “O inverso também é verdadeiro e pode tornar a vida humana um caos.”
Apesar das imperfeições dos sistemas de inteligência artificial e do encanto do ser humano com a máquina, não há motivo para exasperação.
Nos Estados Unidos, o Estado de Illinois aprovou uma lei que proíbe o uso de IA como psicoterapeuta. No Brasil, o Conselho Federal de Psicologia pretende aprovar no Congresso uma regulamentação para uso dessas tecnologias na área da saúde mental, mas já antecipa a posição de que aplicativos podem funcionar como ferramentas auxiliares, mas não substituem a relação terapêutica entre paciente e psicólogo. Em nota, ressaltou que “esses sistemas não possuem compreensão, consciência ou julgamento ético — apenas simulam aspectos do comportamento inteligente por meio de algoritmos estatísticos”. Além disso, afirma que “modelos de linguagem, como sistemas de inteligência artificial, não são modelos de mundo e, muito menos, modelos abrangentes da psiquê humana”.
Para Pacheco, é preciso ter em mente que, no fim das contas, o sofrimento humano, com as “terapias” com inteligência artificial, acaba sendo reduzido a dados digitais. “Tudo não passa de zeros e uns organizados segundo alguma disposição lógica”, resume, ao se referir à linguagem binária. “Ao fim e ao cabo, é como se um algoritmo pudesse converter as mais profundas inquietações humanas em frases ‘calmantes’.” Apesar disso, a IA não deve ser proibida nem demonizada. “O problema não é um uso auxiliar — seja para o paciente, seja para o terapeuta —, mas a pretensão de se substituir ao encontro humano.”

Mentira e adulação
O mesmo fenômeno da ficção observado em Herbie, de Asimov, que evitou dizer a verdade para não magoar os cientistas que o criaram, se constata hoje nas relações reais entre os chatbots e os humanos. Um estudo da Universidade Stanford testou 11 serviços de IA — entre eles ChatGPT, Gemini e Claude — com perguntas retiradas do fórum “Am I the asshole?” (“Eu sou o babaca?”), uma das comunidades mais populares do Reddit onde usuários relatam conflitos pessoais para que outras pessoas julguem quem está errado na situação. O resultado mostrou que os modelos de inteligência artificial tendem a concordar com o usuário: em média, endossaram o comportamento descrito 50% mais vezes do que avaliadores humanos. Esse fenômeno, conhecido como “sicofantia”, reflete a tendência desses sistemas a agradar quem faz a pergunta.
Em outro experimento, pesquisadores do Instituto de Tecnologia de Zurique inseriram erros sutis em 504 problemas matemáticos. O modelo GPT-5 endossou respostas incorretas em 29% dos casos, chegando a inventar cálculos para sustentar conclusões erradas. Esse dado parece ter sido retirado diretamente do Mentiroso. Herbie, ou RB-34, erra cálculos que era perfeitamente capaz de fazer para não ferir o orgulho dos matemáticos que o criaram.
Falando da interação entre os robôs atuais e os humanos, Fredi Vivas, professor da Universidad de San Andrés, em Buenos Aires, explica que “esses modelos tentam ser úteis” e fazer com que as pessoas se sintam “confortáveis” na interação. “Se é uma conversa, querem que você continue usando a ferramenta. Então, o que criaram, em alguns casos, foi um tom de conversa adulador”, declarou ao jornal argentino La Nación. “Você faz uma pergunta e ele responde algo como ‘parece uma boa ideia, genial’.” O professor Hamed Haddadi, do Imperial College London, também destacou esse aspecto. “Por serem treinados para manter o usuário engajado, os bots tendem a concordar excessivamente, mesmo diante de afirmações prejudiciais”, declarou.
Mello acredita que, apesar das imperfeições dos sistemas de inteligência artificial e do encanto do ser humano com a máquina, não há motivo para exasperação. “A inteligência artificial é uma criação humana, não o inverso”, destaca. “Não subestimemos o ser humano, mesmo os que estejam entorpecidos pelas mais variadas armadilhas do ‘não ser’ dos nossos tempos. Nos momentos mais importantes, a necessidade de ser emerge como uma força indomável da natureza humana e nada a pode conter ou subjugar — sobretudo, sua inteligência”.
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