A Venezuela, chamada assim graças aos colonizadores espanhóis que a acharam semelhante à Veneza europeia, sempre foi considerada uma das joias da América Latina. Foi um país que teve, na década de 1950, o primeiro reator nuclear da América Latina, bem como, na década de 1980, era a principal exportadora de telenovelas do mundo e epicentro da indústria musical. Foi também o país que teve a primeira escada rolante da América Latina, ainda de madeira.
Mas, se antes havia um voo direto do Concorde de Caracas a Paris e uma das melhores companhias aéreas do mundo, a Viasa, nas inúmeras vezes que visitei a Venezuela, nas ditaduras Chávez e Maduro, tive que ir até o Panamá para chegar ao país pela recusa das maiores empresas aéreas em aceitar o congelamento do câmbio levado a cabo pelo governo.
O que será da Venezuela depois da captura de Maduro e quais os reflexos para o Brasil? Eu posso responder trazendo ao lume um dos mais antigos chavões: as oportunidades nunca são perdidas; elas simplesmente são achadas por outras pessoas.
Digo isso porque poucas vezes fiquei tão impressionado com uma crise humanitária como a que vi durante a minha última viagem a Caracas, marcada por uma ampla falta de alimentos. Assim que retornei, consultei vários ex-colegas de ministério para fazermos um alerta. O resultado foi uma carta assinada por dez ex-ministros da Agricultura. Parte do texto dizia o seguinte:
“Nos últimos anos, a Venezuela vem sofrendo graves problemas, entre os quais a incapacidade de garantir o abastecimento de alimentos à população, inclusive em função da redução da produção agropecuária. E essa redução se deve a recorrentes erros de políticas econômicas governamentais, hoje estabelecidas para controlar sistemas produtivos em todas as atividades, inclusive no setor rural.”

E terminava com o seguinte parágrafo:
“Essa circunstância que beira a tragédia nacional fez com que lideranças sociais e políticas se pronunciassem por meio de suas instituições para solicitar uma ação humanitária que resgatasse a condição de ingestão alimentar suficiente para o povo venezuelano.”
Na minha visita à Federação dos Criadores da Venezuela, cujo presidente retirou sua família do país devido a ameaças, fui informado de que, naquela época, havia ocorrido uma queda de 70% no consumo de alimentos em relação a 2013 e uma desnutrição infantil sem precedentes. O consumo de carne bovina era de 22 quilos/habitante; atualmente, estima-se algo em torno de 4,5 quilos.
A destituição de Maduro pode gerar inúmeras oportunidades de exportação de produtos agrícolas e de máquinas e implementos do Brasil. Mesmo sob esse regime tirânico, Roraima conseguiu se consolidar como um corredor logístico de alimentos para a Venezuela. Esse posicionamento é fortalecido pela infraestrutura da BR-174 e por acordos tarifários internacionais, como o Acordo de Complementação Econômica nº 69 (ACE 69). O tratado garante a isenção de impostos de importação, apesar das instabilidades diplomáticas recentes que geraram “tarifazos” temporários em julho de 2025.
A Venezuela já foi o sexto maior mercado do Brasil no passado.
Em 2024, as exportações roraimenses somaram US$ 313,9 milhões, evidenciando o papel estratégico do Estado na integração regional e na segurança alimentar venezuelana. Vale ressaltar que os produtos alimentícios lideraram a pauta de exportação do Estado para os vizinhos do Norte. Em 2024, a soja e seus derivados representaram 49% do total exportado, alcançando a marca de US$ 155,3 milhões. Além dos grãos, outros itens essenciais, como extratos de malte, açúcares, margarinas, carnes e legumes, somaram US$ 125,7 milhões no mesmo período.
Isso significa que cerca de 70% das exportações totais de Roraima têm como destino a Venezuela, consolidando o Estado como o maior fornecedor de alimentos via terrestre para o país vizinho. Esse fluxo contínuo é vital tanto para a economia local quanto para o abastecimento da população venezuelana, que enfrenta restrições logísticas severas em seus portos. Além disso, Roraima possui uma localização estratégica que oferece saídas para Caracas e Puerto Ordaz, o que poderia facilitar o escoamento de produtos brasileiros.

Com uma população estimada em 30 milhões de pessoas, o Brasil já é o maior fornecedor de produtos agrícolas e alimentícios para a Venezuela, a maioria dos produtos sendo escoada por Pacaraima-RR. Entre as principais exportações para o território venezuelano estão itens de primeira necessidade, como extrato de malte, açúcar, margarina, derivados de soja, carnes e miudezas.
Para se ter uma ideia do potencial, com tudo o que foi descrito acima, a Venezuela representou apenas 0,24% das exportações brasileiras. Mas lembre-se de que a Venezuela já foi o sexto maior mercado do Brasil no passado. É claro que retomar o comércio será um desafio notável, mas há grandes vantagens comparativas a serem ponderadas: como sermos vizinhos, temos um histórico comercial de longa data e a resposta mais rápida para as demandas dos venezuelanos.
Estamos em uma posição privilegiada para transitar por essa reconstrução da Venezuela. Riscos? Sim, serão muitos: inadimplência, mudanças nas regras, insegurança jurídica, uma situação ainda instável etc. Mas se os brasileiros já comercializavam nos regimes tirânicos do passado, tudo isso reforça que temos know-how para entender o sistema venezuelano de comércio.
Aliás, somos o maior exportador de carne halal do mundo e, ao mesmo tempo, o maior exportador de carne kosher do mundo. Ou seja, o empresário brasileiro soube contornar as rugas desses dois mercados e se tornar o seu principal fornecedor de proteínas animais.
Em uma de minhas viagens àquele país, visitei a Câmara de Comércio de Caracas, e enquanto faziam uma descrição da situação econômica do país, serviram-me um café. Fiquei surpreso quando percebi que não tinha açúcar, um produto hoje raríssimo na Venezuela.
Em um cenário em que sempre buscamos a diversidade dos novos mercados, a Venezuela pode se tornar uma das maiores oportunidades regionais para o agro brasileiro. A vida não oferece promessas nem garantias, apenas possibilidades e oportunidades. E não tenha dúvidas: o curso da história é determinado pelo que as pessoas fazem com suas oportunidades. Essas, se bem aproveitadas, poderão fazer parte de um grande momento para o agro brasileiro. É claro que vai demorar para que a normalidade volte a reinar na Venezuela, mas a comida para o povo será sempre a prioridade máxima.

Antonio Cabrera é veterinário com pós-graduação em produção animal e presidente do Grupo Cabrera, que atua no agronegócio. Foi ministro da Agricultura e Reforma Agrária no governo Fernando Collor e ex-secretário da Agricultura e Abastecimento do Estado de SP durante a gestão Mário Covas. Atualmente, é titular da Sociedade Nacional de Agricultura e membro de várias entidades nacionais e internacionais, além de cônsul honorário da Espanha. Ele está no LinkedIn: Antonio Cabrera
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