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Ilustração: Shutterstock
Edição 304

Esculhambaram o suborno

"O máximo que eu consigo transgredir é passar um pano pra você tentar se desenrolar. Receber por isso já é demais pra mim"

— Quanto você quer pra falar bem de mim nas redes sociais?

— Nada. Eu falo de graça.

— De graça?? Como assim?

— Ué, eu gosto de você. Te admiro. Te elogiar é uma coisa natural pra mim.

— Mas é que eu tô com uns probleminhas…

— Que probleminhas?

— Andei fazendo umas coisas que não são muito certas.

— O que são essas coisas não muito certas?

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— São coisas erradas.

— Bom, pelo menos você tem consciência do erro. Já é um começo.

— É que o erro, no caso, é mais que um erro.

— Mais?

— Não. Muito mais.

— E o que você fez que é muito mais que um erro? Alguma coisa que não tem conserto?

— Até tem. Por isso estou te procurando.

— Então vamos lá. Como eu posso te ajudar?

— Espalhando por aí que estou sendo perseguido.

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— Você está sendo perseguido?

— Não.

— Então, não entendi.

— Não é pra entender. É pra decorar.

— Só consigo decorar o que eu entendo.

— Aí você me complica.

— Bom… Lamento.

— Nunca vi decoreba depender de inteligência.

— É, não é muito comum.

— E se eu dobrar o cachê?

— Que cachê? Não falamos de cachê nenhum.

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— Porque você fugiu. Mas eu vou insistir.

— Bom, vamos voltar ao ponto. Você estava dizendo que está sendo perseguido…

— Eu não estou sendo perseguido.

— Tá confuso, isso. Acho que não vou conseguir entender, nem decorar.

— Calma. Você consegue. Vamos por partes.

— Pois não.

— Por partes, não. Vai demorar. Melhor de uma vez só.

— Quer que eu te deixe a sós com você pra facilitar a decisão?

— Não precisa. Tá decidido.

— Que bom.

— A situação é a seguinte: eu cometi uma fraude.

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— …

— Não vai falar nada?

— Ué? Você não disse que ia dizer tudo de uma vez? Estou esperando. Era só isso?

— Não. Eu cometi uma fraude e todo mundo vai ficar sabendo.

— Tá. E onde eu entro?

— Eu quero que, quando o escândalo estoure, todos achem que eu estou sendo perseguido.

— Pra passar de infrator a vítima.

— Exatamente. Você pegou rápido.

— Não foi tão difícil. Tá todo mundo fazendo isso.

— É, né? Bom… Lamento não ser original.

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— Imagina. Originalidade não é tudo na vida.

— Mas então: você topa?

— Topo.

— Poxa! Muito obrigado! Pode deixar que o cachê vai ser gordo.

— Esquece. Não quero cachê.

— Como assim?? Você vai ser meu cúmplice a troco de nada?

— O máximo que eu consigo transgredir é passar um pano pra você tentar se desenrolar. Receber por isso já é demais pra mim.

— Então não vai dar.

— Por quê?

— Eu não confio em quem não aceita suborno.

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2 comentários
  1. Gladimir Aguzzi de Oliveira
    Gladimir Aguzzi de Oliveira

    O humor sarcástico dói em todos os lados. Sempre. Parabéns.

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