— Quanto você quer pra falar bem de mim nas redes sociais?
— Nada. Eu falo de graça.
— De graça?? Como assim?
— Ué, eu gosto de você. Te admiro. Te elogiar é uma coisa natural pra mim.
— Mas é que eu tô com uns probleminhas…
— Que probleminhas?
— Andei fazendo umas coisas que não são muito certas.
— O que são essas coisas não muito certas?

— São coisas erradas.
— Bom, pelo menos você tem consciência do erro. Já é um começo.
— É que o erro, no caso, é mais que um erro.
— Mais?
— Não. Muito mais.
— E o que você fez que é muito mais que um erro? Alguma coisa que não tem conserto?
— Até tem. Por isso estou te procurando.
— Então vamos lá. Como eu posso te ajudar?
— Espalhando por aí que estou sendo perseguido.

— Você está sendo perseguido?
— Não.
— Então, não entendi.
— Não é pra entender. É pra decorar.
— Só consigo decorar o que eu entendo.
— Aí você me complica.
— Bom… Lamento.
— Nunca vi decoreba depender de inteligência.
— É, não é muito comum.
— E se eu dobrar o cachê?
— Que cachê? Não falamos de cachê nenhum.

— Porque você fugiu. Mas eu vou insistir.
— Bom, vamos voltar ao ponto. Você estava dizendo que está sendo perseguido…
— Eu não estou sendo perseguido.
— Tá confuso, isso. Acho que não vou conseguir entender, nem decorar.
— Calma. Você consegue. Vamos por partes.
— Pois não.
— Por partes, não. Vai demorar. Melhor de uma vez só.
— Quer que eu te deixe a sós com você pra facilitar a decisão?
— Não precisa. Tá decidido.
— Que bom.
— A situação é a seguinte: eu cometi uma fraude.

— …
— Não vai falar nada?
— Ué? Você não disse que ia dizer tudo de uma vez? Estou esperando. Era só isso?
— Não. Eu cometi uma fraude e todo mundo vai ficar sabendo.
— Tá. E onde eu entro?
— Eu quero que, quando o escândalo estoure, todos achem que eu estou sendo perseguido.
— Pra passar de infrator a vítima.
— Exatamente. Você pegou rápido.
— Não foi tão difícil. Tá todo mundo fazendo isso.
— É, né? Bom… Lamento não ser original.

— Imagina. Originalidade não é tudo na vida.
— Mas então: você topa?
— Topo.
— Poxa! Muito obrigado! Pode deixar que o cachê vai ser gordo.
— Esquece. Não quero cachê.
— Como assim?? Você vai ser meu cúmplice a troco de nada?
— O máximo que eu consigo transgredir é passar um pano pra você tentar se desenrolar. Receber por isso já é demais pra mim.
— Então não vai dar.
— Por quê?
— Eu não confio em quem não aceita suborno.
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Excelente, como sempre!
O humor sarcástico dói em todos os lados. Sempre. Parabéns.