publicidade
Presidente venezuelano Nicolás Maduro | Foto: Reprodução/Redes Sociais
Edição 304

Carta ao Leitor — Edição 304

A tentativa de desliquidação do Banco Master e o 8 de janeiro de 2023 estão entre os destaques desta edição

“O socialismo é a filosofia do fracasso, o credo da ignorância e o evangelho da inveja.” 
(Winston Churchill)

Quem vê as imagens de venezuelanos revirando lixo em busca de comida ou caminhando quilômetros para cruzar a fronteira brasileira não imagina que aquele país já esteve entre os mais ricos do mundo. Assim batizada pelos colonizadores espanhóis que nela viram semelhanças com Veneza, a nação do século 20 teve um dos primeiros reatores nucleares da América Latina, figurou entre os raros destinos fora da Europa atendidos pelo avião supersônico Concorde, além de exibir modernas universidades, infraestrutura urbana sofisticada e uma classe média em franca ascensão. 

Esse era o cenário quando, em 1999, Hugo Chávez elegeu-se presidente e começou a montagem de um regime ditatorial que batizou de “socialismo bolivariano”. E então a “Venezuela Saudita”, denominação derivada das imensas jazidas de petróleo, começou a descer a ladeira da falência econômica, política e social. A partir de 2013, sob o comando de Nicolás Maduro, a degradação se acelerou. Liberdades foram suprimidas por um Estado repressivo, ao mesmo tempo em que o desemprego, a miséria e o medo de quem divergia do governo se espalhavam.

Como mostra a reportagem de Carlo Cauti, a crescente aproximação do regime com a China, a Rússia e o Irã foi a gota d’água. Este ano mal começara quando Nicolás Maduro foi capturado por forças especiais dos Estados Unidos e levado à Justiça norte-americana. Ali, responderá a acusações de profundo envolvimento com o narcotráfico.

É cedo para saber se esse episódio será o encerramento de uma era lastimável e o começo do renascimento da nação próspera do século 20. De todo modo, como enfatiza Ana Paula Henkel na reportagem de capa, a ação norte-americana em Caracas restabelece uma verdade elementar da política internacional que o mundo tentou esquecer: “ordem não nasce do consenso; nasce da capacidade de impor limites quando o consenso fracassa”. A captura do agora ex-ditador envia um recado claro: “o Hemisfério Ocidental não está disponível para a consolidação estrutural de potências rivais fundadas em ideologias autoritárias que tratam a liberdade como obstáculo e o Estado como fim”.  

Com a aposentadoria de Maduro, avalia Gustavo Segré, o mapa político latino-americano entra em um processo profundo de reconfiguração — ainda mais sensível em um ano de eleições presidenciais na Colômbia e no Brasil. Durante muito tempo, a Venezuela foi um dos sustentáculos do Foro de São Paulo. Agora, esse pilar ameaça ruir e levar junto vários governos de esquerda.

A mesma esquerda que corre a condenar a ação norte-americana como “imperialista”. Depoimentos reunidos por Rachel Díaz mostram, porém, que quem viveu sob a ditadura de Maduro comemora a possibilidade real de libertação do país. 

Para quem ainda duvidava dos relatos sobre as atrocidades do regime, um relatório da ONU — analisado por Artur Piva — desnuda a barbárie: poucos meses depois de Maduro assumir o poder, cemitérios receberam dezenas de corpos de opositores assassinados por agentes da repressão. Os sobreviventes foram presos e submetidos a violência física e psicológica. A descrição de alguns desses atos precisou ser amenizada na reportagem.

O novo cenário venezuelano também pode abrir oportunidades econômicas para o Brasil, observa Antonio Cabrera. O curso da história, lembra ele, é determinado pelo que as pessoas fazem com suas oportunidades — e, se bem aproveitadas, essas poderão representar um momento relevante para o agronegócio brasileiro.

Enquanto a Venezuela ocupa o centro do noticiário internacional, o Brasil segue mergulhado em suas próprias deformações institucionais. Três anos depois das manifestações do 8 de janeiro, centenas de inocentes continuam presos sem ter os direitos básicos respeitados ou tratamento adequado de saúde. Como relatam Sarah Peres e Eliziário Goulart Rocha, o STF enxergou em cidadãos comuns reunidos para protestar autores de um golpe de Estado inexistente. Na busca por punições mais do que exemplares, o Supremo produziu mais uma aberração jurídica: a prisão com requinte de crueldade.

O ano mal começou e o ministro Alexandre de Moraes já voltou ao centro das atenções, escreve Rodrigo Constantino. “Suas decisões se mostram cada vez mais absurdas e abusivas, numa sequência bizarra de tirar o fôlego.” É como se o ministro, “a cada escândalo que torna sua situação mais delicada, dobrasse a aposta para peitar tudo e todos”.

Outro que tem se destacado é Dias Toffoli. Seu nome surge no enredo que pode levar à desliquidação do Banco Master e transformar mais um escândalo em pizza — episódio no qual, como enfatiza Alexandre Garcia, o que assusta é a promiscuidade: “como se misturam os interesses e se vendem e compram pessoas como se fossem passes de jogador de futebol”. Foi de Toffoli, recorda Eugênio Esber, a decisão de criar a monstruosidade jurídica conhecida como Inquérito 4.781, pedra fundamental da ditadura do STF.

Anos depois, em maio de 2024, Toffoli anulou todos os processos da Lava Jato contra Marcelo Odebrecht. A explicação: teriam sido violados os direitos ao contraditório e à ampla defesa. Um argumento que, revisitado hoje, soa patético diante dos abusos cometidos pelo próprio Supremo contra os réus do 8 de janeiro.

Boa Leitura,

Branca Nunes

Diretora de Redação

Obs.: Não deixe de assistir, neste link, ao documentário de Oeste Anistia, as histórias não contadas, dirigido por Marina Helena

Capa da Revista Oeste, edição 304. O presidente venezuelano Nicolás Maduro, capturado, é escoltado em direção ao Tribunal Federal Daniel Patrick Moynihan, em Manhattan, para sua primeira audiência perante o tribunal, onde enfrentará acusações federais americanas, incluindo narcoterrorismo, conspiração, tráfico de drogas, lavagem de dinheiro e outros crimes. Nova York, EUA, em 5 de janeiro de 2026 | Foto: Reuters/Adam Gray

Leia mais sobre:

6 comentários
  1. Marcio Cruz
    Marcio Cruz

    Lula crítica a captura do ditador Maduro, como quebra da soberania venezuelana. E quando ele mandou invadir o espaço aéreo do Peru para libertar a ex primeira dama, acusada por corrupção? Não houve quebra da soberania do Peru?
    Hipocrita, crítica a ação americana, mas nunca criticou as invasões russas para anexar territórios da Crimeia e Ucrânia…

  2. Erasmo Silvestre da Silva
    Erasmo Silvestre da Silva

    Eu só estou é essas pessoas que numa época dessa da Internet e a IA não enxerga esse paradoxo de ladrão comunista terrorista narcotraficante assassinos torturadores que estão no poder se passar em defensor da democracia

Nicolás Maduro, capturado, é escoltado até o Tribunal Federal Daniel Patrick Moynihan, em Manhattan, para sua primeira audiência perante o tribunal, onde enfrentará acusações federais americanas, incluindo narcoterrorismo, conspiração, tráfico de drogas, lavagem de dinheiro e outros crimes. Nova York, EUA, em 5 de janeiro de 2026 | Foto: Reuters/Adam Gray Anterior:
O retorno do limite
Próximo:
A ditadura sem ditador
publicidade