Uma década atrás, um racha no feminismo que vinha aumentando havia mais de uma geração abalou a consciência pública. Primeiro, surgiu uma vertente cada vez mais ruidosa do feminismo “de gênero”. Esta popularizou o vitimismo feminino e culminou no movimento #MeToo de 2017, que foi concebido como uma tentativa de conscientização sobre o assédio sexual. Para muitos dos mesmos ativistas pós-modernos, a categoria “mulher” era meramente uma identidade, e o feminismo, para ser de fato inclusivo, tinha de acolher homens que se identificam como mulheres.
Então vieram as Trans Exclusionary Radical Feminists (TERFs), ou “Feministas Radicais Trans-Excludentes”. Elas lembraram ao mundo que as mulheres possuem corpos sexuados, femininos, que podem menstruar, engravidar e dar à luz — e são, em média, menores e fisicamente mais fracos que os corpos masculinos. Para as TERFs, essas diferenças biológicas tornam vital a defesa dos direitos das mulheres baseados no sexo.
Dez anos depois, quem está vencendo? A decisão da Suprema Corte do Reino Unido de que a definição legal de mulher se baseia no sexo biológico e, do outro lado do Atlântico, a ordem executiva do presidente Trump “defendendo as mulheres do extremismo da ideologia de gênero e restaurando a verdade biológica no governo federal” podem sugerir que as TERFs foram vitoriosas e que a ideologia de gênero foi derrotada. No entanto, ponderar os direitos conquistados e as liberdades perdidas não é algo simples.

Felizmente, dois novos e excelentes livros, Feminism, Defeated (“Feminismo, Derrotado”), de Kate M. Phelan e Feminism Beyond Left and Right (“Feminismo para Além de Esquerda e Direita”) de Holly Lawford-Smith, lançam a luz tão necessária sobre a “questão feminina” atual. O ponto importante que ambos destacam é bem resumido por Phelan: “Gênero é uma condição social, sexo é uma condição natural. Sob nenhuma dessas perspectivas, ‘mulher’ é uma classificação obviamente política”.
O que Lawford-Smith quer dizer é que, à medida que as “feministas de gênero” procuraram expandir a categoria “mulher”, e as “feministas de sexo”, em uma reação necessária, nos trouxeram de volta a um foco pré-político no corpo, a liberdade de atuação das mulheres, como seres autônomos e políticos, foi perdida.
Como resultado, o feminismo, um movimento de cunho político, fundamentalmente preocupado com a libertação das mulheres, foi derrotado. Não porque os homens triunfaram, mas porque os ideólogos de gênero roubaram todo o significado da categoria “mulher”. E, em resposta, seus críticos a trouxeram de volta como uma essência puramente biológica.
Tão central é a “condição de mulher” para o “feminismo” que o próprio rótulo “feminismo trans-inclusivo” deveria ser ridicularizado como um termo que contradiz a si mesmo. Phelan explica que o feminismo trans-inclusivo surge da rejeição da política. “Uma falha política sob a forma de uma recusa em afirmar o valor das mulheres”, ela escreve, “torna-se um sucesso moral sob a forma de um feminismo mais inclusivo”. Este “sucesso moral” depende crucialmente de uma base eleitoral transformada: “Enquanto as feministas da segunda onda respondiam às mulheres no movimento feminista, as feministas pós-estruturalistas respondem aos acadêmicos. Assim, enquanto para as feministas da segunda onda respeito significava a conquista do respeito das mulheres, para as feministas pós-estruturalistas significa a conquista do respeito dos acadêmicos”. A inclusão de mulheres transgênero — isto é, homens — levou o feminismo liberal a se afastar da representação das experiências das mulheres comuns e a se transformar em uma ferramenta da elite cultural.

O que significa defender as mulheres como uma identidade em vez de uma entidade biológica? A interseccionalidade se apropria do senso comum de que ninguém é simplesmente “homem” ou “mulher”, mas também uma série de outras coisas, e a traveste de teoria intelectual. Com as pessoas fragmentadas em grupos cada vez menores, hierarquias podem ser construídas. O vitimismo se torna uma moeda, à medida que os grupos disputam o protagonismo. Mulheres de classe média inventaram todo um novo vocabulário para descrever o sofrimento que suportam, incluindo manspreading, mansplaining e manterrupting. Essas mulheres privilegiadas têm voz, de fato, mas a usam apenas para expressar seu sofrimento. E, ao exigir a inclusão acima de tudo, deixam claro que seu objetivo é um lugar mais elevado dentro da ordem social existente, em vez da libertação das mulheres.
Tudo o que é necessário para a inclusão nesse feminismo pós-moderno e interseccional é alegar vitimização baseada no gênero. Como escrevi no meu livro de 2017, Women vs Feminism (“Mulheres versus Feminismo”), são as mulheres transgênero — homens que se identificam como mulheres — que podem fazer a maior reivindicação:
“Aqueles que mais sofreram encarnam a condição de mulher de forma mais completa. Mulheres trans têm lutado para conciliar a contradição entre sua identidade de gênero inata e o sexo que lhes foi atribuído ao nascer. Elas então enfrentam um conjunto único de desafios quando são forçadas a confrontar uma sociedade heteronormativa que é generificada com base em um eixo binário rígido. Em razão disso, as mulheres trans sofrem mais do que as mulheres que encontram uma correlação clara entre o gênero com o qual se identificam e o sexo que lhes foi atribuído ao nascer.”
O feminismo de gênero afirma defender as mulheres, mas é a experiência dos homens que se proclama com mais alarde.
Voltemos às TERFs. Quando o feminismo de gênero busca apagar as experiências corporais das mulheres e negar direitos baseados no sexo duramente conquistados, incluindo o direito a espaços de sexo único, torna-se vital reiterar o fato biológico fundamental de que mulheres são fêmeas adultas da espécie humana. Defendido por mulheres brilhantes, ousadas, articuladas e poderosas, de J. K. Rowling a Kellie-Jay Keen, e de Julie Bindel a Helen Joyce, o feminismo crítico de gênero parece remeter aos dias das sufragistas ou, no mínimo, à segunda onda, quando o feminismo era radical, vibrante e corajoso. Mas, ao enfatizar a biologia, o feminismo radical também enfatiza — de forma necessária — a vulnerabilidade das mulheres em comparação com homens fisicamente mais fortes. É por isso que banheiros, vestiários, prisões e centros de apoio a vítimas de estupro se tornam o centro da atenção.

Expressões do feminismo de gênero, como “que amamentam no peito”, “com útero” e “que menstruam”, são ofensivas não apenas porque apagam as designações “mulher” e “menina”, mas também porque reduzem o ser feminino a nada mais do que órgãos e processos do corpo. O problema para as feministas críticas de gênero é que, ao resgatar os termos “mulher” e “menina”, correm o risco de cair na mesma armadilha. Como Phelan coloca:
“Uma vitória trans-inclusiva apagará as mulheres como classe. Mas uma vitória da crítica de gênero, enquanto este tipo de feminismo enfatizar o biológico, substituirá o sonho de liberdade da segunda onda pela segurança. Substituirá a abolição da classe determinada pelo sexo por um refúgio onde uma classe — as mulheres — pode se abrigar da outra — os homens.”
Para que o feminismo seja verdadeiramente libertador, precisa oferecer às mulheres mais do que proteções baseadas no sexo. Precisa acenar com a promessa de liberdade, não apenas de segurança.
O feminismo crítico de gênero sozinho não pode fazer isso porque enfatizar a vulnerabilidade da biologia feminina retira os corpos (tanto femininos quanto masculinos) de todos os contextos sociais, culturais e políticos. A maioria dos homens é de fato maior e mais forte que as mulheres. No entanto, a maioria dos homens não estupra, agride ou mata mulheres. Isso não se deve simplesmente à falta de oportunidade. Deve-se ao fato de as pessoas serem mais do que apenas corpos impelidos por instintos animais. Como Phelan escreve, “essas diferenças sexuais apenas permitem que homens já inclinados a agredir sexualmente mulheres o façam. Na ausência de tal inclinação, essas diferenças não tornam as pessoas do sexo feminino sexualmente vulneráveis”.
Isso não visa a argumentar contra banheiros e vestiários públicos separados por sexo. Em vez disso, visa a defender que tais comodidades básicas sejam um começo, não o fim, de uma discussão sobre os direitos das mulheres. Um feminismo político (em vez de puramente biológico), centrado na libertação das mulheres, pode reconhecer as diferenças anatômicas entre homens e mulheres, sem sacrificar a liberdade das mulheres em nome do imperativo da segurança.
O acesso ao aborto e à pílula anticoncepcional não garante a libertação sexual das mulheres, mas representa uma armadilha.
Em vez de discutir o que vai além da realidade biológica, as feministas críticas de gênero se dividiram em linhas políticas. As chamadas ultras e moderadas se consolidam em torno de diferenças na retórica e nas táticas. Elas discordam sobre com quais grupos trabalhar e quais evitar, e — em uma reviravolta pós-moderna em seu realismo sexual — quais pronomes usar para descrever pessoas transgênero.
A posição aparentemente “moderada” leva, a cada passo, à confusão e a apelos para que a pureza política seja colocada acima da realidade biológica. Sensata em outras ocasiões, Janice Turner, ao escrever em The Times, argumentou: “Usarei pronomes femininos para algumas mulheres trans. Minhas regras são pessoais. Não chamarei de ‘ela’ nenhum homem que cometa uma ofensa sexual ou violenta. Mas aquelas que respeitam as mulheres, como Debbie Hayton, ou aquelas que encontro na vida real, eu respeitarei”.
O primeiro problema disso é que “regras pessoais”, uma vez declaradas em uma coluna de um jornal nacional, tornam-se públicas. Como universalizar uma regra de que os pronomes preferidos de uma pessoa superam a biologia quando essa pessoa é alguém de quem as feministas críticas de gênero moderadas gostam ou, mais precisamente, que aprovam? Parece que a verdadeira lição aqui é que o feminismo é muito bom, mas as lealdades políticas contam mais.
A posição “moderada” da crítica de gênero se inclina para a ideia de que boas feministas também são de esquerda e deveriam desejar se dissociar de mulheres da direita. Este ponto é explorado por Lawford-Smith, que escreve:
“Que a esquerda é dona de grupos minoritários — no sentido de que a esquerda defende com exclusividade os interesses das minorias e, por essa razão, as minorias lhe devem lealdade — parece ser um pressuposto inquestionável de nossa vida política atual.”
Mas, como ela nos lembra, se voltarmos ao feminismo da segunda onda das décadas de 1960 e 1970, descobrimos que “muitas mulheres deixaram a esquerda” — não para se juntar a grupos que se declaram de direita, mas “para buscar a libertação das mulheres; as feministas radicais eram abertamente separatistas”.

Hoje, tanto as feministas trans-inclusivas quanto muitas feministas críticas de gênero ficam esnobes em trabalhar ao lado — ou mesmo próximas — de mulheres que não juram lealdade à esquerda tradicional. Em 2018, o grupo de crítica de gênero Woman’s Place UK anunciou que a feminista incendiária Kellie-Jay Keen (também conhecida como Posie Parker) seria expulsa de sua reunião na Cornualha, “já que nos opomos às suas opiniões declaradas sobre raça e religião”. Cinco anos depois, feministas críticas de gênero emitiram uma declaração antes da turnê de Keen pela Austrália e Nova Zelândia, alegando que “a turnê australiana Standing for Women é patrocinada pela organização de direita Conservative Political Action Coalition/Conference (CPAC), ou ‘Coalizão/Conferência da Ação Política Conservadora’”.
As acusações continuaram: “[Keen] fica feliz em ser entrevistada em canais de mídia de direita… Pessoas de todo o espectro da extrema direita estão cada vez mais comparecendo e falando em seus comícios… [Ela] apoiou Trump na eleição dos EUA”. Isso levanta a questão: se as feministas não podem confiar nas mulheres para decidir sobre uma certa oradora, como podem confiar nas mulheres para determinar o curso de suas próprias vidas? Feministas horrorizadas com notícias de gangues de aliciamento paquistanesas que exploram meninas da classe trabalhadora, ou com agressões sexuais realizadas por imigrantes ilegais, podem ter bons motivos para abandonar a esquerda e olhar para a direita.
Lawford-Smith argumenta que o feminismo “não é um projeto essencialmente esquerdista”. De fato, ela vai além e sugere que, especialmente em relação à libertação das mulheres, os rótulos “esquerda” e “direita” são sem sentido. “Existem apenas duas ‘equipes’ ou ‘tribos’, cada uma com uma coleção variada de questões políticas não relacionadas, e que abandonam algumas questões/bandeiras e adotam outras ao longo do tempo.” Sua solução não é revigorar distinções antigas, mas “começar a falar em termos de ‘tribo da esquerda’ ou ‘time azul’ para deixar claro o que, exatamente, a identificação com um partido político representa hoje em dia”. A lealdade política como membro de gangue significa que “as feministas da esquerda que afirmam estar falando contra as feministas que trabalham com a direita não estão fazendo nada além de sair com seu grupo de amigos e gritar para outro grupo de amigos que não gostam deles”. O fato é que muitas feministas da “tribo da esquerda” preferem argumentar em defesa da inclusão de homens a defender os direitos das mulheres de qualquer maneira.
A segurança é superestimada se vem à custa da liberdade de atuação das mulheres.
Enquanto isso, muitas TERFs que estão mais abertamente alinhadas com a direita política, como as autodenominadas “feministas reacionárias”, como Mary Harrington e Louise Perry, veem as mulheres da mesma forma que veem os homens: como entidades físicas impelidas por instintos biológicos. O problema que confronta o feminismo, argumentam, é que o impulso das mulheres em direção ao feminino e ao maternal, nas últimas décadas, foi negado na urgência de proclamar os ganhos do feminismo liberal. De acordo com essa visão, o acesso ao aborto e à pílula anticoncepcional não garante a libertação sexual das mulheres, mas representa uma armadilha. Elas veem a capacidade das mulheres de controlar seus próprios corpos como mais benéfica aos homens do que às mulheres; as mulheres estão sempre disponíveis para fazer sexo, mas não são protegidas como esposas e mães. A solução de Harrington é “re-primitivizar a sexualidade”, limitando o acesso ao aborto e à contracepção, reforçando assim o vínculo entre sexo e bebês e atando homens e mulheres a relacionamentos e à vida familiar.
A excelente crítica de Phelan atinge o cerne de como a posição feminista reacionária desafia a liberdade de atuação das mulheres. A ideia de que apenas bebês potenciais se interpõem entre homens e mulheres que se envolvem em sexo casual sugere que as mulheres são incapazes de dizer “não” ao sexo sem ter uma transformação de vida como desculpa aceitável. Também sugere que o instinto das mulheres é dizer “não” e que elas não têm prazer no sexo sem consequências. Como Phelan deixa claro, “Perry e Harrington dão a submissão sexual das mulheres aos homens… como certa” e, como resultado, “pressupõem a impossibilidade da soberania feminina”.
A oposição ao aborto, e até mesmo à pílula anticoncepcional, nega às mulheres o controle sobre seus próprios corpos e, portanto, a capacidade de intervir no mundo como cidadãs plenas. O aborto é necessário para que a autonomia adulta das mulheres seja significativa, para que as mulheres ajam como seres em seu próprio direito, e não apenas como potenciais incubadoras de bebês. Como Ann Furedi argumenta em The Moral Case for Abortion (“A Justificativa Moral para o Aborto”), impedir uma mulher de fazer sua própria escolha de continuar ou interromper sua gravidez é minar a autonomia, integridade e a liberdade de atuação que são a essência de sua humanidade.

Neste momento, as mulheres estão presas. Temos um feminismo interseccional e pós-moderno que enfatiza a opressão das mulheres, mas não consegue defender a exclusão de homens dos espaços femininos. Temos um feminismo radical trans-excludente de esquerda que pretende defender os direitos das mulheres baseados no sexo, mas é reticente em proteger meninas vulneráveis de imigrantes ou gangues de aliciamento. E temos um feminismo radical de direita que defende a segurança das mulheres, mas não sua liberdade: as mulheres são fisicamente protegidas, mas lhes são negados os direitos reprodutivos necessários para existirem como parceiras iguais aos homens.
As mulheres têm uma dívida de gratidão às TERFs por resgatarem a realidade biológica do elitismo das feministas de gênero. Como Phelan coloca, quando confrontadas com “uma escolha não entre refúgio e o mundo, mas entre refúgio e nenhum refúgio, devemos lutar pelo refúgio”. Mas ela não para por aí, e nem a batalha pelos direitos das mulheres deve parar. “Não devemos esquecer que refúgio não é o mundo”, acrescenta Phelan. Eu iria além. A segurança é superestimada se vem à custa da liberdade de atuação das mulheres. Precisamos de um movimento que reconheça não apenas os corpos femininos, mas também a autonomia corporal das mulheres, e que lute não apenas para que as mulheres sejam mais bem protegidas, mas também para que existam como iguais aos homens no quesito moral. Independentemente do grupo que esteja vencendo a batalha pelo feminismo, ainda não são as mulheres.
Joanna Williams é colunista da Spiked e autora de How Woke Won. Ela é pesquisadora visitante do Mathias Corvinus Collegium (MCC), de Budapeste.
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O homem é homem e a mulher é mulher que é diferente biologicamente do homem e marx e gramicismo não tem nada a ver com isso
Brilhante. Um excelente resumo do estado da arte do feminismo.