Caminhando nesta década pela Berlim oriental, um fenômeno cultural chama a atenção de turistas, movimentando a economia local. Ao contrário de sua metade que ficou sob controle capitalista, os prédios da Berlim comunista são feios, pobres, quadrados, sem adornos. No entanto, internamente, muitas das (hoje) propriedades estão revitalizadas e expandidas, abrigando casas noturnas com música techno, shows de laser e bebidas extravagantes.
O público atual, ironicamente, parece gostar da estética de prédios acaixotados, seguindo o modelo da ditadura comunista dos anos 1950 — ao menos externamente. É o mesmo com o fenômeno Ampelmann, o simpático sinal de pedestres com um chapéu da Berlim Oriental. O bonequinho verde “fofinho” é uma propaganda comunista constante dentro do mundo capitalista.

Em uma cidade que foi literalmente dividida entre capitalismo e comunismo, liberdade e ditadura, vê-se como se dá a sobrevida da ditadura mais genocida da humanidade no século 21: pela estética. Desde a Escola de Frankfurt, principalmente a partir dos anos 1930, o marxismo tem como foco criar uma estética, uma identidade, uma aparência de virtude que esconde montanhas de milhões de mortos. Seja na USP ou em Harvard, no STF ou na GloboNews, não apenas é tolerável: é até chic citar autores marxistas, três décadas após o fim da Guerra Fria.
Mas, nos estertores de 2025, alguns países ainda insistem no canto da sereia com foice e martelo — não apenas na estética, mas no controle de toda a vida, no Estado policial paranóico, no monopartidarismo, no Partido-Estado, na abolição de toda cultura e civilização vistos como concorrentes da planificação comunista. Encabeçados pela China, os países comunistas sobrevivem com força bruta e apreço intelectual, quando não tratados como mera piada.
China maoísta, o regime do qual o STF é “admirador”
Mao Tsé-tung (ou Zedong) tomou o poder em 1949, após uma luta contra o partido nacionalista de Chiang Kai-shek. Em três décadas, Mao tornou-se o maior genocida da humanidade, com medidas que ceifaram mais de 60 milhões de pessoas pela repressão, fome e condições torturantes. Apenas durante a chamada Grande Fome Chinesa, criada pela política do “Salto Adiante”, entre 1958 e 1961, calcula-se entre 20 e 65 milhões de mortos.

Além disso, a China ficou marcada pela Revolução Cultural entre 1966 e 1976, que, além de legar entre 500 mil e 2 milhões de mortes, teve como legado a proibição e perseguição de qualquer pensamento, livro e ensinamento considerado “contra-revolucionário”, “direitista”, “imperialista” ou “colonial”. De Darwin a Einstein, tudo foi proibido, em troca da veneração de Mao como “o sol do mundo”.
A China, no entanto, sofreu um processo adiantado de “capitalização comunista”, que se tornou a matriz do comunismo do século 21. O regime do Partido Comunista Chinês hoje tem muitas empresas gigantescas e faz comércio internacional (apesar do escasso comércio local), operando no mercado financeiro e “investindo” pesadamente na compra de dívidas de países. Tudo isto sem uma mísera privatização.
Esta situação se tornou a maior confusão conceitual política do século 21: alguns passaram a crer que a China do Partido Comunista milagrosamente virou capitalista da noite para o dia. Não se percebe que as tais “empresas” (sempre gigantescas) são controladas por membros do Partido, sem uma única mísera participação popular. Que a censura, o partido único, a perseguição religiosa (inclusive étnica), a vigilância digital, o controle do Estado sobre a privacidade e os bilionários “permitidos” continuam seguindo aquilo que Olavo de Carvalho definia sobre o marxismo: se Karl Marx era um pilantra na promessa de riqueza ao povo, foi um pérfido especialista na dialética do poder e na descrição da conquista e manutenção do poder absoluto. É este o regime que Gilmar Mendes encomiou no STF, confessando que “todos nós [do STF] somos admiradores do regime chinês” [sic]. Não se pode acusar o sr. Gilmar de incongruência.
Esta visão da “China capitalista” ignora, por exemplo, o 20º Encontro do Partido Comunista em outubro de 2025, com loas a Mao Tsé-tung, o comprometimento com os rígidos princípios marxistas na sociedade chinesa e a determinação de obediência irrestrita ao atual ditador, Xi Jinping.

Xi, aliás, reverteu boa parte das mudanças pela abertura política (para padrões comunistas, claro) que seus antepassados criaram, tendo abolido, inclusive por mortes misteriosas, seus sete principais concorrentes internos.
A política de expansionismo militar e dominância chinesa tem todo o potencial para causar a Terceira Guerra Mundial em seu embate direto com os EUA, substituindo o tradicional palco de guerra entre Europa e Rússia — ainda mais após o fracasso da invasão de Putin à Ucrânia. O cenário é perigoso por dois fatores. O primeiro é que a China possui hoje duas características que o grande estrategista geopolítico John Mearsheimer, professor da Universidade de Chicago, define como poder de um país: uma população imensa aliada à riqueza, ao menos dos dirigentes estatais. Com o domínio chinês sobre setores da economia internacional (a China é dona de boa parte da dívida americana, por exemplo), o confronto se torna mais direto do que na Guerra Fria. Em segundo lugar, o novo cenário de guerra é naval, em regiões de extrema dificuldade técnica e histórico de fracassos ocidentais. Esta circunstância, aliada ao avanço tecnológico militar, tem o potencial de uma hecatombe, nuclear ou não.
A China também tem sido ávida na chamada “política do endividamento”. Desde a crise de 2008, a China investe em países quebrados, como Grécia, Itália, Argentina, Irlanda e, claro, o Brasil. O que parece um beneplácito, quando nenhum investidor se interessa, acaba se tornando uma relação de escravidão: como os países nunca conseguem pagar pelo investimento, acabam cedendo portos, aeroportos, estradas e outras áreas importantes para o Partido Comunista Chinês. A política tem sido aplicada no Brasil sob aplausos de políticos como João Doria, Simone Tebet ou Kátia Abreu, que liberaram investimento chinês para logística, ferrovias, além de entregar boa parte do agronegócio brasileiro para os chineses, favorecendo o lado do totalitarismo no maior conflito bélico que se avizinha.
Se Marx falava que um espectro rondava a Europa, hoje o espectro ronda o mundo inteiro. Mesmo com outros nomes.
Por fim, é sempre tragicômico perceber como Xi Jinping é tratado pela grande mídia — que tanto depende de verbas chinesas para defender o que defende. Xi nunca é chamado de ditador. Porém, como o termo “presidente” deixaria a mentira muito deslavada, o genocida é chamado de “líder”. O dinheiro do totalitarismo compra um certo carinho.
Coreia do Norte não é uma piada
A ditadura da família Kim quase sempre é tratada com humor no Ocidente. Seu estilo bizarro pode ser ridículo, mas os genocidas transformaram em um verdadeiro inferno a vida de um país inteiro.
Caudatários do socialismo juche, aplicado apenas pela Romênia dos Ceaușescu, os Kim acreditam em uma versão ultranacionalista do comunismo, no qual tudo deve ser autossustentável pelo país. Se Ceaușescu era o “menino-problema” de Stalin no século passado, a ditadura dos Kim continua fazendo o papel no século 21, já que a “autossuficiência” norte-coreana apenas faz com que o país seja totalmente dependente do financiamento chinês.
É impossível falar em Coreia do Norte sem cair em algum mistério. O país é tão fechado que nem chineses ou sul-coreanos sabem muito do que acontece fronteira adentro. A Coreia do Norte é basicamente lembrada pelos seus constantes testes nucleares, além de sequestros de japoneses, sul-coreanos e chineses, sendo o tráfico sexual a hipótese mais branda do destino de pessoas que desaparecem.
Após a morte de Kim Il-Jong em 2011, o governo passou para seu filho Kim Jong-un, homem tão misterioso que não se sabe nem a sua idade ao certo.

Um dos melhores relatos sobre a brutalidade recente da Coreia do Norte é o livro Fuga do Campo 14. O relato mostra uma criança nascida num campo de trabalhos forçados por um “crime” de seus avós. Sua mãe foi estuprada por um guarda (prática incentivada pelo governo), que gerou o autor — esta é uma típica “família” norte-coreana. Criado sem relação familiar, disputava comida com sua mãe sob constantes espancamentos. Seu trabalho envolvia até limpar latrinas… com as mãos.
Recentemente, a Coreia do Norte voltou ao noticiário pelo constante suporte militar à Rússia contra a Ucrânia — e infame crueldade suicida de seus soldados.
Cuba, o socialismo tropical congelado no tempo
A ilha que virou uma versão tropical do comunismo do gélido bloco russo, Cuba simplesmente parou no tempo desde a Revolução Cubana em 1959. Quase 70 anos depois, a música, a culinária, a tecnologia e a cultura cubanas permanecem congeladas na década de 50. É quase impossível até mesmo citar um escritor cubano relevante, além dos louvaminheiros de sempre.
Cuba já foi protagonista da maior crise geopolítica do mundo desde a Crise de Julho de 1914, que gerou a Primeira Guerra Mundial. Tratou-se da Crise dos Mísseis, de outubro de 1962. Fidel Castro mantinha Cuba como um país relevante, basicamente transformando a ilha em um entreposto militar russo a uma hora e 20 minutos de voo comercial da Flórida. Durante uma crise entre John Kennedy e Kruschev, Fidel quase forçou a destruição nuclear do planeta.
Hoje, Cuba é um país esquecido até mesmo pela esquerda, que já desgastou a desculpa da miséria cubana no embargo americano — uma confissão do fracasso da ausência de livre comércio. Ninguém nem se lembra mais do nome do ditador atual do país, depois da renúncia de Raúl Castro, já que, fiel à cartilha comunista, o país é herdado hereditariamente pela mesma família. A propósito, o nome do atual ditador cubano é Miguel Díaz-Canel.

Cuba tem uma história relevante para o Brasil devido ao Foro de São Paulo, criado por Lula e Fidel Castro em 1990. José Dirceu, por exemplo, foi treinado pela inteligência cubana. Boa parte das empresas corruptas envolvidas no Mensalão e no Petrolão tocava obras em Cuba com dinheiro brasileiro. A arquitetura geopolítica latino-americana, com o Brasil petista financiando ditaduras enquanto posa de “bastião da democracia” internacionalmente, foi o modelo implantado pelo Foro de São Paulo para “criar na América Latina o que haviam perdido no Leste Europeu”, segundo sua própria cartilha.
Cuba vive de mistifórios, como a sua suposta medicina de excelência. Esta lenga-lenga foi repetida por décadas no Brasil, até Dilma Rousseff implementar o programa Mais Médicos, em outubro de 2013, em resposta aos protestos de rua daquele ano. Os médicos cubanos que passaram a atuar no Brasil, deixando mais de 70% do seu salário para os ditadores, cometiam erros crassos, com conhecimento muitas vezes inferior ao de enfermeiros. Enterrado o desvario nos cofres controlados pelo PT, restou nunca mais falar de Cuba.
Cuba segue esquecida até pela esquerda, a não ser para vender camiseta do Che Guevara para jovem que não sabe da sua fama de apenas atirar em alvos amarrados. E, caso o leitor já tenha esquecido o nome do ditador atual, é Miguel Díaz-Canel.
Eu também já esqueci.

A cara do socialismo do século 21
Foi na Venezuela que se cunhou a expressão “socialismo do século 21”, com um misto de esperança tardia, vanglória autoritária ou ameaça descarada. Se Cuba é o socialismo congelado no tempo, e a China, o socialismo tecnocrático de partido-empresa, a Venezuela tornou-se o laboratório mais didático — e trágico — das consequências de um socialismo plenamente moldado no século 21. A Venezuela, que possuía uma das maiores reservas de petróleo do mundo e já foi o país mais rico do continente, foi deliberadamente destruída por um projeto ideológico iniciado por Hugo Chávez e aprofundado por seu sucessor, Nicolás Maduro, que conseguiram transformar em uma gigantesca favela um parque industrial construído sobre uma única — embora cara — commodity: o petróleo.
Em nome da “justiça social”, o regime estatizou empresas, destruiu o setor produtivo, aparelhou as Forças Armadas e o Judiciário, eliminou a imprensa livre e transformou eleições em rituais controlados. O roteiro é assustador para o Brasil, porque o aparelhamento das instituições seguiu um ritmo que estamos plagiando descaradamente. Inclusive com um “presidente” fantoche, e o poder de fato vindo da alta cúpula do Judiciário — a juíza da Suprema Corte Caryslia Beatriz Rodríguez, por exemplo, já sofreu a sanção Magnitsky do Departamento do Tesouro americano.
O resultado do experimento do “socialismo do século 21” foi a maior diáspora da história recente do continente: mais de 7 milhões de venezuelanos fugiram do país, não por guerra civil, mas por fome, colapso econômico e repressão política. Quando Bolsonaro assumiu o governo, o Estado de Roraima passava por uma grave crise pelo alto influxo de venezuelanos fugindo do socialismo.
Nos últimos anos, a Venezuela deixou de ser apenas uma ditadura falida para se tornar um Estado mafioso, sustentado por narcotráfico, mineração ilegal, alianças com Irã, Rússia e China e redes de lavagem de dinheiro espalhadas pelo mundo. Além do petróleo, a grande commodity venezuelana é o escoamento do tráfico de drogas do continente para o Oriente Médio e a Eurásia. A retórica “anti-imperialista” serve apenas para encobrir um regime que sobrevive pela força, pelo terror e pela dependência externa. A recente intensificação do cerco econômico, diplomático — e também militar — liderado por Donald Trump, incluindo sanções mais duras e uma escalada de pressões militares indiretas, expôs novamente o engodo venezuelano: sem petróleo vendido livremente, sem crédito internacional e sem propaganda externa, o socialismo bolivariano revela-se apenas aquilo que sempre foi — uma ditadura pobre, violenta e sustentada por cúmplices ideológicos no exterior. Sem surpresa, o discurso dos defensores da ditadura é exatamente o de que são “defensores da democracia”.
Vietnã e Laos, os asiáticos que se renovaram
Se a Rússia passou pela Perestroika, o Vietnã passou pelo Đổi Mới (“renovação”), em 1986. O Partido percebeu que estava à bancarrota e precisava de uma resposta. Hoje, é um parceiro comercial estratégico dos EUA na Ásia, o que colocou o Vietnã na mira do tarifaço de Trump.
O Vietnã é um grande produtor de manufaturados eletrônicos. Pode não ser um criador de tecnologia, mas suas linhas de produção com mão de obra semi-escrava são muito mais baratas do que as chinesas. Muitos dos nossos eletrônicos passam pelo Vietnã antes de chegar à 25 de Março.
O Laos, silencioso, tem sua natureza a seu favor: o país é tão agrário que poucos se importam com o regime político dominante. Mesmo assim, toda a infraestrutura necessária é de investimento chinês. O Laos também sofreu tarifas significativas de Trump, por ficar na Rota da Seda para o projeto chinês.
O comunismo, infelizmente, não acabou
Uma crença ousada e destemida marcou os últimos 30 anos: a do fim da história. O economista Francis Fukuyama propôs o conceito em seu livro de 1992: seguindo a filosofia de Hegel em sua vertente anti-marxista, Fukuyama acreditava que a fase dialética da história mundial havia acabado com a Guerra Fria, e então todos os países iriam se converter à democracia liberal de molde americano, que seria o paraíso na Terra, a perfeição dos sistemas políticos. Bastaria usar órgãos como a Otan para derrubar ditaduras e expandir a democracia capitalista, pois nada mais havia a ser pensado em termos de ciência política.
É difícil observar o século 21 sem perceber a tragédia legada pelos caudatários de tal doutrina — da qual a família Bush é apenas a mais famosa. O comunismo se reinventou, aprendeu a transformar ministérios em empresas transnacionais gigantescas, controlar as pessoas por tecnologia e exportar sistemas de crédito social, além de impedir críticas ao regime.
Karl Marx já chamava o seu jornal de “Organ der Demokratie” (Órgão da Democracia), mostrando que comunistas sempre acreditaram em uma forma de democracia “popular” — ou seja, na qual as eleições são controladas por uma única mentalidade permitida, o objetivo final é a planificação social, o controle absoluto e a abolição de todas as outras “consciências de classe”. Se Marx falava que um espectro rondava a Europa, hoje o espectro ronda o mundo inteiro. Mesmo com outros nomes.
E ainda tem admiradores entre os mais poderosos do Brasil.
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