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Momento em que Ricardo Stuckert percebe que a conversa está sendo registrada e se direciona ao operador de câmera, pedindo que pare de gravar | Foto: Reprodução/SBT
Edição 302

Enquadrando o presidente  

Do ‘Lulinha paz e amor’ ao terceiro mandato, Ricardo Stuckert construiu sua carreira assumindo aos poucos o controle da imagem pública de Lula

No lançamento do canal SBT News, uma cena chamou a atenção. Finalmente livre das amarras da Lei Magnitsky, o ministro Alexandre de Moraes conversava ao pé do ouvido com Luiz Inácio Lula da Silva quando as câmeras se aproximaram. De súbito, uma figura de cabelos escuros à la John Wick e óculos redondos com armação estilo tartaruga se colocou na frente dos dois e, com o braço estendido para frente, sinalizou aos cinegrafistas para que a cena deixasse de ser filmada. A ordem, obedecida prontamente, veio de Ricardo Stuckert. Aos 55 anos, ele é responsável por fotografar o presidente desde o primeiro mandato.

Alçado ao status de secretário do governo em 2023, quando foi inventada a Secretaria de Produção e Divulgação de Conteúdo Audiovisual (Seaud), Stuckert é uma das figuras mais presentes na trajetória de Lula como presidente. E uma presença cara: nos últimos dois anos, custou aos cofres públicos mais de R$ 250 mil, conforme aponta o Portal da Transparência. O salário de R$ 16 mil não entra nessa conta, que considera apenas os recursos pagos por 158 viagens (cerca de uma a cada cinco dias). Também não são contabilizados os “valores sigilosos” — indicados na plataforma, mas inacessíveis à população —, que podem englobar desde despesas logísticas até custos classificados por razões de segurança, e que se tornaram uma marca do atual governo do sigilo. Com todos esses privilégios, Stuckert não é tratado apenas como um fotógrafo. É uma peça vital da engrenagem de comunicação do atual governo.

Sua trajetória, contudo, começou muito antes de virar uma espécie de “escudeiro” da imagem de Lula. “Na família Stuckert, o primeiro brinquedo que a gente ganha é uma máquina fotográfica”, brincou certa vez, em uma entrevista ao portal UOL. A fotografia está na família desde o bisavô. E foi com o pai, Roberto Stuckert, que a coisa tomou forma. Morto em 2021, “Stuckão”, como era chamado o patriarca, foi o fotógrafo oficial de João Batista de Oliveira Figueiredo, o último general a governar o Brasil antes da redemocratização. Foi em 1983, antepenúltimo ano da gestão do militar, que um “Stuckinha” de 13 anos aprendeu a revelar fotos. Como ele mesmo definiu, cresceu acreditando que “a fotografia é mágica”.

Um jornalista que virou assessor de Lula

Apenas cinco anos depois de aprender a revelar retratos, Stuckert já estava nas páginas de grandes publicações. Passou por IstoÉ, Veja e Caras. Foi nesta última em que, em 1993, esbarrou pela primeira vez com Lula, ainda um líder sindicalista do ABC paulista. A ideia de fotografar o futuro presidente veio do próprio Stuckert, que precisou enfrentar a resistência do editor. Afinal, qual seria o sentido de fotografar um metalúrgico para uma revista que publicava na capa a hérnia de disco da Xuxa? O argentino Edgardo Martolio, fundador da Caras, acabou cedendo. Embora nenhuma foto tenha sido publicada, o fotógrafo conheceu Lula pessoalmente.

Em 2002, Stuckert estava na IstoÉ e foi escalado para fotografar os candidatos à Presidência daquele ano. Entre os nomes estavam Anthony Garotinho, Ciro Gomes, José Serra e, claro, Lula. O ensaio com o petista ajudou a solidificar a fantasia de “Lulinha paz e amor”. Uma versão do presidenciável que, depois de perder três eleições, decidiu trocar as camisetas amarrotadas pelos ternos bem cortados e a gritaria socialista por um discurso mais atraente para os empresários. O reencontro também ajudou a solidificar a relação entre Stuckert e o petista. “Ele conquistou o presidente nesse dia”, afirmou Ricardo Kotscho, então assessor de imprensa de Lula, também em entrevista ao UOL. 

Sidônio manteve Stuckert e demitiu a amiga da primeira-dama. Em retaliação, Janja passou a controlar um pouco mais as entradas do fotógrafo no Palácio do Planalto.

Um dos cliques revelou o personagem do político sorridente, algo raro até então. Em outro, ele está brincando com sua cadela fox terrier, Michelle. “O aspecto relaxado tirou a imagem sisuda de outras eleições, que o candidato vinha tentando apagar desde o início da campanha”, avaliaram Amanda Veloso e Luize Meirelles, alunas da Universidade Federal da Bahia, que fizeram seu trabalho de conclusão de curso sobre o atual secretário.

No meio dos ‘lulismos’

Alguns meses depois das fotos, quando Lula se elegeu presidente pela primeira vez, Stuckert foi contratado para cuidar da sua imagem. “Lula deu acesso total: Granja do Torto, Palácio da Alvorada, jogo de futebol ou baralho no fim de semana — e ele sempre com a máquina pendurada no pescoço, até nos dias de folga”, revelou Kotscho. Desde então, é difícil não ver o fotógrafo ao lado do petista.

No ano seguinte, com o fim do segundo mandato do presidente se aproximando, Stuckert foi contratado pelo Instituto Lula. A relação com a entidade rendeu uma das poucas polêmicas que envolveram seu nome. O fotógrafo foi citado em uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que investigou a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) em 2016. Nos documentos, que citam uma reportagem da Folha de S. Paulo, foi revelado que Stuckert recebia um salário de R$ 35 mil da CBF, enquanto trabalhava para Lula.

Presidente Luiz Inácio Lula da Silva recebe quadro do Presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, com fotos dos dois presidentes, em 2010 | Foto: Ricardo Stuckert

O ex-deputado federal Hélio Leite, do extinto Democratas, tentou convocar o fotógrafo para entender as relações entre Lula e a suposta “máfia do futebol” que operava dentro da CBF. O pedido não avançou. Segundo a Folha, a contratação de Stuckert resultou de um acordo entre o petista e o ex-chefe da confederação, Ricardo Teixeira. Todos os envolvidos negaram e a CPI acabou descartada e arquivada.

Secretário Stuckert, o dono da senha

Outro trabalho de Stuckert, além da passagem pelo Instituto Lula nos idos de 2010, foi a criação e o gerenciamento do Instagram de Lula, que hoje tem mais de 12 milhões de seguidores — e rendeu uma queda de braço com a primeira-dama Janja no ano passado. Segundo a revista Piauí, “Stuckinha” é o único que tem a senha para acessar o Insta do Lula. Ele foi o responsável por alimentar as redes sociais do político quando ele estava preso em Curitiba. A lealdade do fotógrafo é tanta que ele até se mudou para a capital paranaense (decisão que, segundo o próprio, gerou questionamentos de amigos).

Diante dessa fidelidade canina, é evidente que Lula levou o fotógrafo de volta a Brasília quando foi eleito pela terceira vez. Na cerimônia de posse, enquanto corria ao lado do veículo oficial de Lula, Stuckert controlava um drone e usava mais de uma câmera em espaço de segundos. A cena fez com que virasse meme e até fantasia de carnaval. 

Stuckert na cerimônia de posse | Foto: Reprodução/F5News

Contudo, a imagem do presidente logo se tornou um desafio ainda maior do que em outros momentos para o fotógrafo. Desde 2023, Lula falou sobre a quantidade de “gente negra” no Rio Grande do Sul, sobre mulheres que não dependem do pai “para comprar batom e calcinha” e até sobre quem usa muleta. “O Stuckert não quer que eu ande de andador; ele já falou: ‘Não vou filmar você de andador’”, disse o presidente em setembro de 2023, depois de uma cirurgia no quadril. Essas gafes, além de gerar desgastes diplomáticos e sociais, refletiram-se diretamente nos dados da mais recente pesquisa AtlasIntel/Bloomberg. Ela aponta que Lula chega a 2026 com uma desaprovação superior à aprovação.

Mas antes de chegar a esse ponto, o setor de comunicação do governo tentou conter a crise, o que quase custou o emprego de Stuckert. Ele iniciou seus trabalhos na Seaud sob o comando de Paulo Pimenta, então ministro-chefe da Secretaria de Comunicação Social (Secom). Contudo, o trabalho da pasta foi considerado insatisfatório. Então veio Sidônio Palmeira, em janeiro deste ano. O marqueteiro, que ajudou Lula a ser eleito, assumiu a pasta e promoveu movimentações imediatas — entre elas, demitiu José Chrispiniano, assessor de imprensa de confiança do presidente. A medida foi surpreendente nos bastidores, pois, ao compor seu secretariado para o terceiro mandato, Lula pediu a Pimenta que cuidasse dos “seus meninos”, Stuckert e Chrispiniano.

Lula e o ministro Sidônio Palmeira, durante a nomeação de André Basbaum (esquerda), ex-Globo, para presidir a empresa pública EBC | Foto: Ricardo Stuckert/PR
Lula e o ministro Sidônio Palmeira, durante a nomeação de André Basbaum (esquerda), ex-Globo, para presidir a empresa pública EBC | Foto: Ricardo Stuckert/PR

Ninguém consegue tirar o fotógrafo do Instagram. Janja pediu ao próprio presidente para assumir o perfil com a assessora Brunna Rosa. Sidônio manteve Stuckert e demitiu a amiga da primeira-dama. Em retaliação, Janja passou a controlar um pouco mais as entradas do fotógrafo no Palácio do Planalto.

Mesmo assim, ele segue presente em todas as viagens do presidente, nacionais e internacionais. “Enquanto ele for político, tem que ter alguém para registrar isso”, afirmou em uma entrevista ao Diário do Centro do Mundo. Na ocasião, Stuckert comparou o presidente a um filme em cinco partes. Seja qual for o próximo capítulo, a única certeza é a de que Stuckert estará lá. Seja fotografando Lula. Seja — como no evento do SBT — impedindo que ele seja fotografado.

Ricardo Stuckert, o fotógrafo de Lula | Foto: Divulgação

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