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Câmera de segurança registra a dupla armada responsável pelo massacre de 15 pessoas em evento de Hanukkah em Sydney | Foto: Reprodução/Redes Sociais
Edição 301

Alertas não faltaram

Como a permissividade de um governo levou ao mais mortal ataque terrorista da história da Austrália

O sangrento atentado terrorista realizado contra a comunidade judaica em Sydney, no momento em que cerca de mil pessoas se reuniam em Bondi Beach para celebrar a festa religiosa de Chanucá, chocou, mas não surpreendeu, os judeus australianos ou do resto do mundo. Nem tampouco o governo de Israel, o qual repetidas vezes alertou o primeiro-ministro Anthony Albanese sobre a consistente ameaça islamista contra a segurança do país.

Compreender as condições que propiciaram este ataque, o pior da história da Austrália, não exige muita reflexão. Segundo o intelectual francês Bernard-Henri Lévy, autor do livro recém-lançado no Brasil A Solidão de Israel, “o terreno já estava preparado para ele. No dia seguinte à invasão do Hamas de 7 de outubro de 2023, antes mesmo da resposta militar de Israel, já havia demonstrações nas ruas de Sydney clamando por ‘enviar os judeus para o gás’ [uma referência aos campos de morte nazistas] e ‘honra aos nossos mártires’ [referindo-se aos terroristas do Hamas mortos em ação]. Em lugar de reflexão e solidariedade ao sofrimento das vítimas, assistimos ao apoio aos agressores em países como a Austrália, a França e os Estados Unidos”.

Ato em Sydney foi marcado por gritos antissemitas pedindo gás para os judeus | Foto: Shutterstock

“Nestes dois últimos anos, multidões clamaram, nas ruas da Austrália, pela aniquilação do único Estado judaico do mundo e por uma guerra global contra os judeus, sem enfrentar nenhuma reação do governo. Nossos monumentos e nossos prédios foram atacados, Israel foi demonizado, libelos modernos de genocídio, apartheid e colonialismo foram propagados impunemente — e nossa comunidade se sentiu exposta e isolada”, descreve Jeremy Leibler, um dos líderes comunitários locais.

Não são as palavras em si que matam, resume Lévy, mas elas levam à ação — como a executada no último domingo por Sajid e Naveed Akram, pai e filho de origem paquistanesa que, segundo fontes de segurança de Israel, viajaram em novembro para as Filipinas para receber treinamento militar. Nem precisariam dele, uma vez que não enfrentaram nenhum desafio na execução de seu objetivo: em um local público e sob a vigilância de apenas dois policiais desarmados, eles precisaram de apenas sete minutos para ferir a tiros mais de 40 pessoas e matar 15, entre elas uma menina de 10 anos e um sobrevivente do Holocausto. Ainda há vítimas internadas em estado grave.

Mortos em ataque durante celebração de Chanucá em Sydney | Foto: Reprodução/Open Source Intel

Campanha mundial de atentados 

Oficiais de segurança de Israel asseguram que a atual onda de atentados a judeus no mundo não é um movimento orgânico. A orientação e a infraestrutura para o ataque na Austrália tiveram origem em Teerã, segundo eles. Uma informação que não deve ter causado surpresa a Albanese. Afinal, em 2024, foi comprovado que o Irã estava por trás de dois ataques realizados em outubro e dezembro daquele ano — a um restaurante judaico em Sydney e a uma sinagoga em Melbourne. Em resposta, o embaixador iraniano foi expulso da Austrália. Nem de longe essa atitude interrompeu o planejamento de outros ataques, como o visto neste domingo. “Segundo oficiais de segurança israelenses, há um esforço global projetado para intensificar a hostilidade e o ódio contra judeus. Essa é uma ação engendrada por Estados e já é sentida há meses nas campanhas de ódio feitas por meio de bots nas mídias sociais”, descreveu Nadav Eyal, analista geopolítico do jornal israelense Yediot Ahronot.

A afirmação se comprova em campo. Nos últimos meses, uma sequência de ataques semelhantes ao realizado em Sydney foi perpetrada por aparentes “lobos solitários” contra judeus em diferentes partes do mundo. Em Washington, por exemplo, um casal de funcionários da embaixada israelense foi morto a tiros em frente ao museu judaico da cidade. Também o ataque à sinagoga de Manchester, na Inglaterra, resultou em duas vítimas. Este é um fenômeno mundial. Segundo o Antisemitic Research Center (ARC), 548 incidentes antissemitas foram registrados em um único mês, em novembro de 2025.

“Há uma doença que se instalou e provocou uma febre que não irá embora. Este  tema não é ligado a uma questão criminal ou a pessoas socialmente desajustadas: é resultado de uma ideologia profunda e antiga, a qual as autoridades australianas — e muitas outras pelo mundo — não compreendem. Não sabem o que a motiva, não sabem como pará-la e não entendem a ameaça que impõe à ordem em seus países”, resume o historiador israelense Haviv Rettig Gur.

Comunidade desprotegida

A comunidade judaica australiana, formada por aproximadamente 117 mil pessoas, tem características peculiares. De maioria secular, conta com o maior número per capita de sobreviventes do Holocausto. Isso explica-se por sua distância da Europa e de seu histórico de tolerância. Estas características são similares na comunidade judaica no Brasil.

“Esse governo não nos protegeu. Falhou com nossa comunidade”, critica a advogada e líder religiosa Nomi Kaltmann. Segundo ela, não apenas os judeus, mas toda a sociedade australiana está chocada com o ataque, o segundo pior massacre já ocorrido no país, mas o primeiro motivado por ódio racial. “O primeiro, há mais de 30 anos, em Port Arthur, mexeu profundamente com o país e fez com que o governo mudasse completamente sua política em relação ao porte de armas. Caso o primeiro-ministro não adote agora uma política de ‘tolerância zero’ às manifestações de antissemitismo, não haverá futuro para uma comunidade judaica neste país.”

Comunidade judaica se reúne em luto depois do massacre em Bondi Beach | Foto: Hollie Adams/Reuters

Políticas duras são um tema que o governo australiano conhece bem. Segundo Kaltmann, basta lembrar do intenso lockdown implementado no país nos anos da epidemia de covid-19 — as fronteiras da Austrália permaneceram fechadas por mais de dois anos — e também das mudanças na política de imigração, copiada como exemplo pelo mundo.

Resta saber se o atual governo estará disposto a mudar de direção. Na mídia, um editorial do jornal local Financial Review criticou duramente a posição de Albanese: “Em vez de se tornar hipervigilante em relação às virulentas demonstrações de racismo, a prioridade do Partido Trabalhista permaneceu indulgente com eleitores muçulmanos”.

Tsunami de antissemitismo

A Austrália é um bom exemplo de país que sentiu o impacto não de uma onda, mas de um verdadeiro tsunami de antissemitismo, escondido por trás do disfarce de reação ao sofrimento palestino. Isso foi rapidamente percebido pela comunidade judaica local, uma vez que as primeiras manifestações contra Israel e judeus no país surgiram no dia 8 de outubro de 2023, ou seja, semanas antes da resposta militar israelense.

Demonstrações semanais pró-Palestina e pró-Hamas, com a participação de dezenas de milhares de pessoas, tomaram as ruas das principais cidades australianas com uma sincronia nada natural. “É impossível acreditar que essa onda tenha se formado organicamente. Eventos assim custam uma fortuna. Não sei de onde vem o dinheiro ou a organização, só sei que essa não é a Austrália que eu conheço”, afirma Jeremy Leibler.

“O processo que vemos acontecer na França e na Inglaterra chegou à Austrália. O antissemitismo, que se fortaleceu nos últimos anos, agora mostrou seus dentes.”

O cotidiano da comunidade judaica local, pouco acostumada a incidentes antissemitas, transformou-se em um pesadelo nesses últimos dois anos, segundo um relatório publicado no dia 3 de dezembro de 2025 pelo Executive Council of Australian Jewry (ECAJ).

Em uma ascensão sem precedentes na história do país, que registrou 342 incidentes entre 2013 e 2023, o relatório apontou mais de 2 mil agressões a judeus em um único ano, 2024. Os ataques tiveram diferentes níveis de gravidade, variando de e-mails e grafites ameaçadores, carros incendiados, negócios vandalizados até a total destruição da sinagoga Hadass Israel, em Melbourne, após ter sido atingida por uma bomba.

Sinagoga em Melbourne foi atingida por uma bomba em meio à onda recorde de agressões | Foto: Reprodução/X

A comunidade judaica não se calou e buscou os órgãos de segurança que, no entanto, não responderam à altura. Protestos anti-Israel foram permitidos às portas de suas instituições, manifestantes violentos se aproximaram livremente de pessoas, residências e entidades sem nenhuma contenção policial.

Um dia após o atentado em Bondi Beach, Alex Ryvchin, CEO do Executive Council of Australian Jews, verbalizava o pessimismo de sua comunidade em relação ao seu futuro no país. “Os maus ganharam: vieram a esse evento para matar judeus e tiveram grande sucesso. A forma como vivemos neste país durante vários séculos foi destruída e nunca mais será a mesma. Esse atentado acabou com qualquer sensação de paz e pertencimento que poderíamos ter.”

O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, manifestou-se em entrevista à TV pouco depois do atentado. “No último dia 17 de agosto, enviei uma carta para o primeiro-ministro alertando que sua política estava promovendo o antissemitismo na Austrália e encorajando o ódio aos judeus. Deixei claro que ele estava permitindo que esse câncer se espalhasse. Hoje estamos vendo o resultado.” Albanese declarou que não aceita a crítica e não vê correlação entre o atentado e sua política, que incluiu o reconhecimento do Estado Palestino enquanto o Hamas ainda tinha em seu poder quase 50 reféns israelenses.

Impunidade e deterioração

Jonathan Conricus, membro sênior do think tank americano Foundation for Defense of Democracies, pensa bem diferente de Albanese. “O governo australiano defendeu o ‘direito de expressão’ mesmo que ele representasse o assédio aos judeus. Nenhum crime contra eles foi solucionado. Nem uma única pessoa foi levada à justiça por grafitar ‘morte aos judeus’ ou lançar excrementos em sinagogas. Isso não é liberdade, mas a permissão para criar uma atmosfera de violência.”

Em Israel, o ministro da Imigração e Integração, Ofir Soter, que visitou a Austrália no mês passado, disse que era evidente a sensação de deterioração na relação entre o governo local e sua comunidade judaica. “O processo que vemos acontecer na França e na Inglaterra chegou à Austrália. O antissemitismo, que se fortaleceu nos últimos anos, agora mostrou seus dentes.”

Essas agudas exibições de violência típicas do movimento jihadista islâmico, consideradas por Israel como um movimento global único, ainda passam por baixo do radar na maior parte das nações ocidentais. Conricus explica esse fenômeno com uma analogia. “É como se colocassem um grupo de cegos para identificar um elefante. Cada um toca uma parte do animal e, assim, eles não conseguem formar a imagem completa do que têm à sua frente.”

Segundo ele, muitos líderes ocidentais optaram por usar vendas para não enxergar o monstro que se avizinha. “É preciso ouvir o que os islamistas estão dizendo. Acreditar naquilo que pregam em suas mesquitas todas as sextas-feiras. Eles falam com muita clareza: o objetivo é controlar os países ocidentais. E essas forças estão crescendo.”

O Ocidente tem um trabalho e tanto pela frente.

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3 comentários
  1. Valesca Frois Nassif
    Valesca Frois Nassif

    Um sentimento execrável , o anti-semitismo, que não teria se expandido dessa maneira se tivesse sido reprimido adequadamente. Me solidarizo totalmente com o heróico e admirável povo judeu.

  2. Teresa Guzzo
    Teresa Guzzo

    Obrigada pelo excelente e lúcido artigo Miriam Sanger. A guerra islâmica e seus atentados estão presentes em muitos países ocidentais.O antissemitismo que traz em sua essência o ódio aos judeus, é incompreensível ao olhar de muitos, mas há anos está presente, apesar de todo horror e sofrimento desse povo que sempre lutou apenas pelo seu direito de existir e expressar sua crença. Sim vários paises permitiram a entrada do terror,viram o que estava ocorrendo e fecharam seus olhos.

  3. Themis Regina França Koteck
    Themis Regina França Koteck

    Excelnte artigo. O antissemitismo se alastra aos olhos e braços indiferentes de muitos governos , pelo mundo afora.

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