publicidade
Debora Bloch como Odete Roitman | Foto: Reprodução/TV Globo
Edição 300

Vale Tudo – O retorno

A sequência final da novela trouxe uma cena de propaganda do governo Lula

Uma boa síntese do ano de 2025 no Brasil foi o remake de Vale Tudo. Para se ter uma ideia, a sequência final da novela trouxe uma cena de propaganda do governo Lula, mal dissimulada num diálogo entre personagens. Ou seja: valeu tudo mesmo.

Em 1988, Gilberto Braga escreveu a trama cáustica, no limite da razão cínica, sobre aquele Brasil que tinha despencado da esperança em Tancredo Neves para a ruína da era Sarney. Era a teledramaturgia fustigando o poder e suas emanações caóticas. No remake de 2025, a escolha foi afagar o poder — e embelezar o caos.

Talvez tenha sido uma opção de metalinguagem: em lugar de uma obra retratando o cinismo na sociedade, a própria obra já era cínica. Chega de intermediários.

Brasil, mostra tua cara — pedia Cazuza, na canção que virou trilha da novela na voz de Gal Costa. Qual é o teu negócio? O nome do seu sócio? O país era sacudido nos versos do jovem compositor, cuja vida seria interrompida pela Aids dois anos depois. Cazuza e Gilberto Braga falavam do mal-estar brasileiro — quando a ideia de nação trazida pela redemocratização naufragava na desilusão yuppie, onde todo mundo desconfiava de todo mundo até prova em contrário. Um vale-tudo.

A cena final da novela tinha um editorial tosco sobre as maravilhas do lulismo.

Odete Roitman era a burguesa ardilosa e sem escrúpulos, imortalizada por Beatriz Segall. Quase quatro décadas depois, Débora Bloch interpretou uma Odete Roitman “de direita” — seguindo o incontornável oportunismo da “polarização”. Só que a moral da história em 2025 — moral com muitas aspas — era apresentar a gangorra do bem e do mal com o regime petista do lado virtuoso. Aí já entramos no terreno da ficção científica.

Odete Roitman era a burguesa ardilosa e sem escrúpulos, imortalizada por Beatriz Segall. Quase quatro décadas depois, Débora Bloch interpretou uma Odete Roitman “de direita” | Foto: Reprodução/TV Globo

A Odete Roitman de 2025 chegou a sair do personagem para se engajar em campanha de mais imposto “contra os ricos” — uma conversa fiada do governo para continuar aumentando a carga tributária em ritmo recorde. Difícil imaginar Beatriz Segall fazendo “contraponto” à sua vilã milionária numa campanha por elevação do IOF. Até passeata no Shopping Leblon os justiceiros de folhetim fizeram. Pobre Gilberto Braga.

O vale-tudo de 2025 teve também o herdeiro do Itaú Walter Salles Jr. aderindo a essa mesma campanha cenográfica — com requintes de má dramaturgia: a sede mais cara do banco na Faria Lima tinha sido invadida por “ativistas sociais” e o cineasta-banqueiro aderiu publicamente à “causa”. Nem novela mexicana dos anos 60 seria capaz de tal façanha.

Se a cena final da novela tinha um editorial tosco sobre as maravilhas do lulismo, Waltinho fez sua parte no cinema. Usou seu filme sobre o assassinato de Rubens Paiva pela ditadura militar para dizer ao mundo que a eleição de Lula em 2022 foi a volta à democracia. Valeu tudo ou não valeu?

Leia também “O ano do desengano”

Leia mais sobre:

9 comentários
  1. Plínio de Assis Tavares Junior
    Plínio de Assis Tavares Junior

    Mas não é assim nos países comunistas ? Idolatram o ditador,estátuas por todo lado e cada movimento de esportes ou artes são para elevar ao máximo a ideologia. Depois da queda ,tudo recomeça. A Globo vai aderir ao primeiro que derrubar Lula.Lembrem da época do regime militar.

  2. Vanessa Días da Silva
    Vanessa Días da Silva

    A TV virou puxadinho do governo. Estamos exatamente como a URSS. Só serve para desinformar

  3. Leonardo de Almeida Queiroz
    Leonardo de Almeida Queiroz

    Nao é mais dramaturgia, tudo virou merchandising, e pra vender um produto podre, o governo Lula.

  4. DONIZETE LOURENCO
    DONIZETE LOURENCO

    Fiuza sempre cirúrgico.
    Antigamente a arte retratava o cotidiano e suas virtudes e problemas.
    Hoje a “arte” da esquerda tenta e às vezes consegue contemplar os desejos da elite de manter sua principal célula que é o PT no topo do poder para continuar desfrutando das benesses do Estado sustentado pelo trabalhador comum e todos os pagadores de impostos.

  5. Paulo Roberto Pazinatto
    Paulo Roberto Pazinatto

    Não assisto estas novelas planfetárias, mas se de ver este pequeno trecho publicado na reportagem, deu nojo !

  6. Ana Rubia Andrade Costa Pinto
    Ana Rubia Andrade Costa Pinto

    O pior é querer comparar Beatriz segall uma estrela atriz de vdd com uma medíocre Débora bloc que veio da da tvpirata. Coitado do Gilberto Braga.

  7. Emilio Sani
    Emilio Sani

    VALEU TUDO, e infelizmente ainda parece que vai valer muito mais, vorcaro pra todos

Anterior:
A foto do regime
Próximo:
A aposta de Bolsonaro
publicidade