A velha imprensa passou os últimos anos em transe voluntário. A realidade paralela mostrava um Supremo Tribunal Federal integrado por heróis em missão de salvar a democracia. Na Liga da Justiça à brasileira, Alexandre de Moraes era um Superman com semblante de Lex Luthor, Flávio Dino um Batman devorador de rocamboles e Cármen Lúcia a Mulher-Maravilha sempre pronta a combater 213 milhões de pequenos tiranos. Agora a mesma imprensa admite que o STF cometeu excessos, mas por uma boa causa — “derrotar o bolsonarismo” — e pleiteia o retorno à normalidade. Finge ignorar que o gênio não voltará à garrafa. Ou, na definição em dilmês castiço, que “a pasta de dente não voltará para dentro do dentifrício”.

Enquanto a mídia “tradicional” nada via de errado onde tudo de errado havia, Oeste enxergava e seguirá enxergando as coisas como as coisas são. Ao longo das primeiras 300 edições da revista, o STF foi tema de dezenas de reportagens, volume compatível com o poder onipresente e onipotente autoconcedido pela Corte. A reportagem de capa da edição 16, “O ódio ilegal e o ódio do bem”, por exemplo, foi direto ao ponto ao mostrar que, se todos são iguais diante da lei, alguns são mais iguais: “Contra o STF, dá cadeia. Contra Bolsonaro, é democracia”, afirmava o texto. A edição seguinte escancarou a “Pauta proibida” com uma singela questão: “Por que a imprensa e as instituições silenciam diante da denúncia que envolve o ministro Toffoli e a Odebrecht?” A edição 19 foi ainda mais clara: “O Supremo desrespeita o regime democrático e cria no Brasil o crime político.”

“Com novo ministro e sob a presidência de Luiz Fux, o STF pode mudar?”, perguntou Oeste na edição 31 sob a chamada “Para onde vai o Supremo”. A liderança de Fux era, de fato, auspiciosa, mas, como se constatou depois, o Supremo não mudou. A revista questionou, 17 edições adiante (48): “O STF pode tudo?” Os sinais de extrapolação de poder se acentuavam: “Prisão arbitrária de deputado dá sinais de que o Supremo atua cada vez mais além de suas competências constitucionais”. A reportagem de capa da 53 deixou claro quem mandava no pedaço: “O dono do STF”. E explicou: “Numa demonstração de demência jurídica, o Supremo favorece Lula mais uma vez ao declarar a parcialidade de Sergio Moro”. Enquanto livrava Lula e seus amigos, o Supremo era implacável com as vozes discordantes, como registrou “O preso político” (86). “O STF transformou o deputado Daniel Silveira num perseguido do regime judiciário.”

A edição de nº 100 expôs sem rodeios: “Eles querem o tumulto”. E deu nome às togas: “Barroso, Fachin e Alexandre comandam no STF o mais feroz partido de oposição a Bolsonaro.” Àquela altura, já estava claro, para quem queria ver, que o Supremo tinha lado. Mais do que isso, queria levar o país para o lado togado da força. “O TSE quer pensar por você”, alertou a edição 105. “A partir de agosto, o TSE terá como presidente o ministro Alexandre de Moraes, que está usando abertamente as fake news para interferir na campanha eleitoral.” O STF incorporava com crescente convicção o papel de “O partido da toga” (108). “Ministros do Supremo Tribunal Federal deixam clara a ofensiva contra a reeleição do presidente Bolsonaro.”

O embate estava apenas começando. Tratava-se de uma “Ditadura disfarçada” (112). “O STF abandonou sua função essencial de árbitro da Constituição e passou a agir, segundo alega, como intérprete, legislador e executor do que considera serem ‘os desejos da sociedade’. Isso se chama ditadura.” À luz do dia e aos olhos da sociedade — menos da velha imprensa, que fazia questão de se proteger da realidade — crescia “A árvore envenenada do STF”. “O inquérito ilegal de Alexandre de Moraes contamina as decisões da Justiça, suprime direitos e agride a democracia”, definia a reportagem de capa da edição 116. Ao estampar a manchete “Uma eleição sob suspeita”, a edição 122 alertou: “A atuação do ministro Alexandre de Moraes e dos seus colegas de STF lança cada vez mais dúvidas sobre sua imparcialidade nas eleições presidenciais.” Na edição 130, chegamos a “O golpe branco do Supremo”. Estava claro: “O STF acha que, para salvar a democracia, tem de agir como se chefiasse uma ditadura — elimina leis, direitos e liberdades para impor sua vontade ao Brasil.” O Supremo estava, em poucas palavras, “Fora da lei” (138).

Oeste publicou também várias reportagens contando o drama dos réus dos inquéritos do 8 de janeiro, personagens que a imprensa velha fazia questão de ignorar. “Os 900 esquecidos de Brasília” (151), “Liberdade Algemada” (154) e “A verdade começa a aparecer” (161) foram algumas das capas sobre o tema. A inclemência em relação aos acusados de uma tentativa de golpe que não houve era mais um indício de uma “Ditadura em construção” (162), um verdadeiro “Estado Policial” (163) comandado por Alexandre de Moraes, “O Supremo” (164). “A negação da Justiça” (182) confirmou-se quando, “No julgamento de três participantes do 8 de janeiro, a maioria do STF ignorou a Constituição e os códigos legais do Brasil.” Então veio “O primeiro cadáver” (192). “O Supremo Tribunal Federal tirou, um a um, todos os direitos dos presos envolvidos no tumulto do dia 8 de janeiro. No caso de Cleriston Pereira da Cunha, acabou por lhe tirar o direito à vida.”

Sob olhares complacentes e ouvidos moucos da mídia, “O STF acelera sua ofensiva contra a liberdade em geral — e contra a liberdade de imprensa em particular. Tenta, agora, impor a censura prévia através do medo” na reportagem “Silêncio” (194); “impõe uma miragem ao Brasil criando um novo regime: a democracia que não existe” (196); aplica “A mentira do Golpe” (199). A edição 200 retratou “A justiça morta”, sobre a aniquilação da Lava Jato, menos de dez anos depois do começo da operação que parecia destinada a mudar o Brasil. E mudou até a situação ser desmudada.
Como aconteceu algumas vezes ao longo deste processo, a edição 230, “Xeque” refletia esperança mais uma vez. “Assim como a jogada do xadrez que ameaça o rei, reportagens publicadas pela Folha de S. Paulo que escancaram as ilegalidades cometidas por Alexandre de Moraes podem encurtar uma das eras mais obscuras do Judiciário brasileiro. Mas, como a edição seguinte (231) confirmou em “A fonte do mal”, “O STF deu a si próprio o poder ilegal de substituir as leis do país pelas convicções, os interesses ou os desejos dos ministros. A partir daí, como os frutos da árvore contaminada, tudo o que decide é ilegal.”
O número de capas que, de alguma forma, envolveram o Supremo ao longo das primeiras 300 edições da revista é ainda maior.
Com a publicação de “O golpe do golpe” (257), Oeste afirmou: “A denúncia da PGR é mais um capítulo da encenação judicial contra Jair Bolsonaro. Fica clara, mais uma vez, a verdadeira crise do consórcio Lula-STF: a ausência de provas para sustentar a farsa do ‘golpe”.” Já a constatação de que “Não há mais lei” (258) levou ao pedido de “Anistia Já” (260) como “única forma de livrar o Brasil da situação sórdida criada pelo Supremo — a de um país-escroque na violação dos direitos humanos”. A condenação de Débora Rodrigues dos Santos a 14 anos de prisão por ter cometido “O crime do batom” (262) foi mais uma ocasião em que se viu “A cara do Supremo” (265). “Vergonha” (266) foi a forma de qualificar o que veio a seguir: “A sessão do STF que tornou réus os seis supostos membros do suposto ‘Núcleo Dois’ do suposto golpe é algo que nem as piores ditaduras brasileiras tiveram estômago para colocar em prática. Os ministros fazem questão de esfregar na cara do público que no Supremo não adianta falar em lei, porque ‘quem manda nisto é a gente’”.

Tudo isto acontecendo e a imprensa velha permanecia bravamente calada. Em “Tirania acuada” (280), o enquadramento de Alexandre de Moraes na Lei Magnitsky fez o mundo saber do que acontecia nos tristes trópicos. Moraes foi novamente o tema em “O golpe do golpe (282), com a revelação de conversas entre seus assessores implodindo “a narrativa de que houve no Brasil uma tentativa de ruptura institucional”. Tudo isso sempre esteve claro para quem queria ver. O número de capas que, de alguma forma, envolveram o Supremo ao longo das primeiras 300 edições da revista é ainda maior, aqui temos uma amostra bem representativa. Oeste sempre viu, relatou e alertou, enquanto a maioria dos veículos de comunicação se calava. Agora, fazem uma mea culpa pela metade.
Leia também “A miragem democrática”




FOMOS AVISADOS PELO NAIYBE BUKELE, PRESIDENTE DE EL SALVADOR. ” Se você não destituir os juízes corruptos, você não consegue consertar o país. Eles formarão um cartel — uma ditadura judicial — e barrarão todas as reformas, protegendo o sistema corrupto que os colocou no poder”, escreveu o presidente de El Salvador em suas redes sociais.”
As capas da Oeste contam a história deste triste país destes últimos tempos. Mereceria um livro impresso, com todas imagens dessas capas, e um breve resumo da notícias de cada semana. Seria um livro que compraria para relembrar o calvário e, quem sabe, uma futura redenção.
A imprensa tradicional sempre fez uma leitura errada do STF. Nunca se debruçou de fato pela trajetória profissional desses indicados para ocupar o mais alto cargo de um tribunal. As sabatinas dos indicados, nunca passaram de obviedades.Teve ministro que entrou mentindo no currículo,tem ministro reprovado por duas vezes no ingresso para magistratura, as nomeações são apenas políticas e assim são aprovados facilmente, sem problema algum.Hoje chegamos a indignação geral de uma corte tiranica e ditadora.
Excelente recapitulação do registro que vai mostrar a história dessa ditadura do stf no futuro, quandi estivermos livre desse regime totalitário4
Parabéns Eliziário Goulart Rocha pelo trabalho maravilhoso em esmiuçar a revista Oeste , do ´primeiro ao último número para analisar tudo de mal feito que vem sendo feito pelo stf – mínúsculo – ou seria itf – ÍNFIMO TRIBUNAL FEDERAL. Este trabalho mereceria ir para todas as faculdades de Direito para serem estudados em todos os anos do curso. E estudos com mais afinco nas universidade estaduais e federais . Agradeço seu trabalho. Seria importante que , no futuro, se fizesse o mesmo novamente.
Eliziario, que bela retrospectiva. São 300 números digitais fantasticos. Imagine se os futuros livros de história política do Brasil troussesem essa compilação. Os fatos permanecem.
Oeste compara-se a João Batista: “A Voz que clama no deserto”. É, com certeza, o único órgão de imprensa que, diuturnamente, chama a atenção do s brasileiros para as calamidades e atrocidades perpetradas pelos ministros dos su´premo tribunal federal. Eles, que têm no presidente da república o grande poste da democracia que criaram e defendem a todo custo !!! E o que certamente vai acontecer, em algum momento, de novo, é ter a cabeça decepada para agradar a alguma salomé.