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Edição 300

Nau sem rumo

Num país em que 45% da população de idade ativa vive de benefícios sociais pagos pelos impostos tirados de todos, crescimento é impossível. Eram R$ 90 bilhões de benefícios em 2019; agora são R$ 285 bilhões

Agora vai a plenário a redução da jornada de trabalho, depois de aprovada na Comissão de Constituição e Justiça. É uma mudança no art. 7º da Constituição, que estabelece um máximo de 44 horas semanais. Se aprovada, já reduz para 40 horas e depois vai tirando uma hora de trabalho por ano, até 36 horas. O autor da proposta, senador Paulo Paim, alega que gera benefícios ao setor produtivo ao reduzir a dependência de horas extras. E la nave va. Assim navega o Brasil em direção ao naufrágio. Em vésperas de eleições, os legisladores sentem-se inclinados a se mostrarem bonzinhos com a maioria dos eleitores, que são assalariados e cumpridores de horas de trabalho. Contrariam as bases da economia, compostas de natureza, capital, tecnologia e… trabalho. Nada se produz sem trabalho. E não há almoço grátis, como lembrou Milton Friedman, mas poderia ter sido dito pelo Conselheiro Acácio.

Senador Paulo Paim (PT-RS) na Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa (CDH) do Senado Federal (2/12/2024) | Foto: Geraldo Magela/Agência Senado

O PIB do terceiro trimestre fechou positivo em 0,1%. Um seja, nada. E deu positivo por causa do pré-sal e seu petróleo e gás.  A indústria de manufaturados encolheu, o comércio perdeu fôlego — a 25 de Março em São Paulo e o Saara no Rio, mostram isso. Até o agro, que sustenta o balanço de pagamentos, ficou apenas com menos de meio por cento positivo. Nenhuma pandemia, nenhuma guerra; apenas o óbvio: só o trabalho produz riqueza. Num país em que 45% da população de idade ativa vive de benefícios sociais pagos pelos impostos tirados de todos, crescimento é impossível. Eram R$ 90 bilhões de benefícios em 2019; agora são R$ 285 bilhões. Em 13 Estados — Norte e Nordeste — o número de beneficiários é maior que o de assalariados, e falta mão de obra para a atividade econômica de emprego intensivo. Muito óbvio: o PIB parou porque estão empatados a renda e o gasto.  A poupança, em novembro, diminuiu em quase R$ 3 bilhões. Com eleições no ano que vem, o gasto aumenta. 

Leio os títulos dos jornais: “Freio no crescimento”, “Economia perde o fôlego”  — até parece a explicação do recuo de Gilmar na liminar da exclusividade do PGR.

Como o presidente quer se candidatar à reeleição, o populismo está em campanha e todos vão pagar. Pagam os que geram riqueza, emprego e impostos, e os que se beneficiam disso, porque já não cai maná há mais de 3 mil anos. Mas só se paga enquanto houver geração de riqueza. Já se podem dispensar em breve 4 horas de trabalho — vale dizer, reduzir imediatamente à promulgação da emenda, quase 10% da força de trabalho. Reduzir 10% da produção, no agro, na indústria, no comércio, nos serviços. Um décimo do faturamento, da renda, dos impostos, que tal? Repito o óbvio: só o trabalho gera riqueza — para sustentar governos e seus populismos. Populismo e contas públicas não fecham jamais. Demagogia não gera investimento nem produtividade; ao contrário. Sem crescer, não há riqueza a distribuir. Distribuir sem ter é naufrágio a ver. Na base, a conta de energia sobe mais que a inflação. 

Lula durante a 14ª Conferência Nacional de Assistência Social, no Centro de Convenções Ulysses Guimarães, em Brasília, DF (8/12/2025) | Foto: Ricardo Stuckert/PR

E o desequilíbrio cada vez maior das contas públicas gera mais ginástica contábil para fingir que ainda há o arcabouço. O Banco Central, que agora é autônomo e não é trouxa nem ingênuo, mantém a Selic alta, porque tem obrigação de proteger a moeda e o crédito, atacados pelos déficits que geram dívidas que pagam juros. Nos Estados Unidos, a taxa base caiu 0,25%. O governo está no timão da nave sem bússola, que quer emergir o já afundado Correios, que no governo anterior navegava a todo vapor. O bolsa-mídia produz aplauso por aumento de beneficiários do Bolsa Família; em tempos de jornalismo, se festeja quando há diminuição dos que recebem o benefício, porque o melhor programa social é o emprego. 

E o populismo vai inchar ainda mais em ano eleitoral; a nave pesada demais vai para o fundo. O arcabouço só existe em declarações do ministro. Como se não bastasse, há o custo Brasil, calculado em R$ 1,7 trilhão por ano, conforme estudo e pesquisa CNI/Nexus. Impostos, energia cara, infraestrutura ruim, burocracia, tempo perdido — 1.506 horas por ano — para calcular e pagar tributos. Tira competitividade, investimento, inovação. É o atraso. Economia tenta andar com freio puxado. E todos pagam imposto para o governo posar de beneficente e trocar presentes pelo voto da reeleição. Não é sequer um amigo oculto… Será que estão percebendo que isso é crime pela Lei Eleitoral?

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Mesmo superado pelo contrato do Master, o bolsa-mídia faz milagres com os fatos. Leio os títulos dos jornais: “Freio no crescimento”, “Economia perde o fôlego”  — até parece a explicação do recuo de Gilmar na liminar da exclusividade do PGR. Títulos enganadores, porque fazem pressupor que estamos em crescimento e fôlego. Meninos, eu vi o que é crescimento. Cobrindo economia no Jornal do Brasil, eu acompanhei, no que agora chamam de anos de chumbo, os anos dourados do PIB brasileiro. Em 1973, crescemos 14%. Nunca a China conseguiu isso. A média de crescimento em quatro anos foi de 11,2% ao ano. Milagre econômico, chamaram. Milagre, nada. Foi produto de entusiasmo, otimismo, confiança na estabilidade jurídica e política. Ingredientes essenciais para o desenvolvimento, que hoje não encontramos. E lá vamos nós, com mais um título de filme: A Nau dos Insensatos.

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5 comentários
  1. Odilon de Loyola e Silva Filho
    Odilon de Loyola e Silva Filho

    O preço do voto está inflacionado. E, cada vez mais precisam ser comprados

  2. Osmar Martins Silvestre
    Osmar Martins Silvestre

    Redução da jornada, aberração eleitoreira gestada por um membro de um partido político que consegue ser pior que o PT. Quanto a Paulo Paim, esse já teve muitos melhores dias, mas há muito tempo. Não mais.

  3. Teresa Guzzo
    Teresa Guzzo

    Realmente mestre,apenas o trabalho gera riqueza. O atual governo pensa diferente, aposta em benefícios e na ignorância da população.

  4. Edson Carlos de Almeida
    Edson Carlos de Almeida

    Nau a deriva , e o capitão não sabe os pontos cardeais .

  5. Edson Carlos de Almeida
    Edson Carlos de Almeida

    Nau a deriva , e o capitão não sabe nem quais sãos os pontos cardeais .

Os ministros do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, Dias Toffoli e Alexandre de Moraes, durante sessão da Corte | Foto: Nelson Jr./SCO/STF Anterior:
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