Há noites em que um país se deita menor do que acordou. Não por pobreza, não por tragédia natural, não por acaso, mas por escolha. Nesta semana, o Brasil decidiu que não teria opinião sobre o sequestro de crianças. A Assembleia Geral das Nações Unidas votou uma resolução exigindo que a Rússia devolvesse imediatamente todos os meninos e meninas ucranianos retirados à força de suas casas. O Brasil, uma democracia, uma nação que se diz humanista, vergonhosamente, preferiu se abster.
É preciso repetir devagar, para que o sentido se imponha: não é opinião sobre uma guerra, nem análise complexa sobre geopolítica; aqui não se trata de tanques, territórios ou diplomacia. A resolução tratava de crianças arrancadas de suas famílias. Crianças levadas para outro país, rebatizadas, reeducadas, transformadas em cidadãs de um regime que não é o seu. Diante desse fato brutal, o Brasil escolheu o silêncio. Um covarde, insensível e incompreensível silêncio.
A resolução votada na ONU pedia o óbvio: devolução segura das crianças, reunificação familiar, fim das deportações, fim da mudança forçada de cidadania. Não havia truque de linguagem, não havia ambiguidade escondida, não havia cláusula geopolítica secreta. A pergunta era simples: crianças ucranianas sequestradas por forças russas devem voltar para suas famílias? O Brasil respondeu não com um “não”, o que seria terrível, mas com algo igualmente abjeto. Respondeu com nada. Respondeu com um “não me importo”, “tanto faz”, “isso não me interessa”.

A abstenção é o voto de quem não quer tomar partido. Mas há temas em que não tomar partido é tomar partido. Há situações em que o silêncio pesa mais do que a palavra. Quando o assunto é a infância, a neutralidade não é prudência — é deserção. O preço da indiferença, neste caso, nunca é neutro. Ele é pago por inocentes.
Há meses, a primeira-dama dos Estados Unidos, Melania Trump, entrou nesse debate com um gesto raro na política contemporânea: um gesto humanitário, pessoal, sem cálculo eleitoral. Melania enviou uma carta a Vladimir Putin pedindo a devolução das crianças ucranianas. A carta foi entregue por Donald Trump durante o encontro com o líder russo no Alasca em agosto. Nada mais civilizacional do que isso: uma mãe apelando a outro governante em nome de outras mães. Nada mais humano.
A carta de Melania Trump já havia surtido efeito antes mesmo da resolução da ONU. Algumas crianças voltaram para suas famílias — não por discursos inflamados, nem por reuniões de gala, mas por insistência moral. Enquanto o Brasil se abstém, uma primeira-dama age. Enquanto a diplomacia brasileira procura neutralidade, Melania Trump procura famílias. E encontra.

Numa era de discursos vazios, Melania Trump não se escondeu. Foi uma ação concreta e corajosa, feita longe dos holofotes, sem espetáculo, sem arrogância. O contraste com Brasília é inevitável: enquanto uma primeira-dama americana escreve uma carta que devolve crianças às suas mães, a primeira-dama brasileira prefere o palco e o adereço entre selfies, dancinhas, roupas cafonas e performances para lá de vergonhosas — como se a política externa fosse extensão de um camarim ou um feed de rede social. Não há carta, não há gesto, não há pressão. Janja é o retrato da votação do Brasil na ONU.
O Brasil não precisava liderar essa votação. Não precisava comandar coalizões, formular sanções ou redigir resoluções. Bastava estar presente no lado certo. Bastava erguer a voz. Bastava dizer, com a dignidade mínima de uma nação civilizada, que crianças não devem ser sequestradas. Esse ato simples teria custado pouco e rendido tudo.
No mapa moral de 2025, já entrando em 2026, o país se coloca numa zona cinzenta — e essa zona cinzenta terá consequências.
Em vez disso, a diplomacia brasileira se recolheu num casulo habitual: ninguém pode se ofender, todos devem ser agradados, as ditaduras amigas não devem se sentir traídas. Esse instinto, já frágil num mundo normal, torna-se perigoso num mundo em guerra. Nessa abstenção, o Itamaraty não falou em nome do Brasil, falou em nome de uma interpretação provinciana da política externa de Lula: aquela que confunde cautela com covardia e neutralidade com omissão. Apoio apenas àqueles que fazem parte do grupo ideológico das ditaduras amigas. Neutralidade pode ser virtude quando há dúvida. Não quando há crianças sequestradas.

A abstenção na ONU não é um episódio isolado. Ela revela um padrão: o desconforto brasileiro com a defesa de princípios universais quando esses princípios colidem com a ideologia do poder. O governo Lula prefere muitas vezes a retórica antiocidental à defesa da infância. Prefere preservar relações com regimes autoritários a erguer a voz por vítimas indefesas. Prefere posar de “não alinhado” às premissas basilares do Ocidente enquanto se alinha com quem viola direitos. O resultado é uma política externa que se orgulha de neutralidade, mas que raramente é neutra com tiranias. O discurso é de universalismo, mas a prática é de seletividade ideológica. O Brasil de Lula se posiciona não quando deve, mas quando convém.
Há algo profundamente civilizacional em jogo. A proteção da infância é um dos pilares mais antigos da moral ocidental. Não é invenção de tratados modernos; é herança de culturas, religiões, tradições e sacrifícios acumulados ao longo de séculos. Quando uma nação vacila diante desse princípio, vacila diante de si mesma.
Não estamos falando de cálculo diplomático. Estamos falando de uma linha tão clara que qualquer mãe, qualquer pai, qualquer avó compreenderia sem esforço: crianças sequestradas devem voltar para casa. Há temas em que a humanidade precede a geopolítica. Se um governo não consegue erguer a mão para dizer o óbvio, então perdeu a bússola moral. A abstenção, nesse caso, não é prudência: é covardia mascarada de diplomacia.

O voto do Brasil será lido e divulgado. Em Kiev, como abandono. Em Moscou, como cumplicidade. Em Washington e em Bruxelas, como confirmação de que o Brasil já não é confiável como parceiro no mundo livre. No mapa moral de 2025, já entrando em 2026, o país se coloca numa zona cinzenta — e essa zona cinzenta terá consequências.
Uma pergunta inevitável emerge: por que essa abstenção? A resposta não está no texto da resolução. Está na psicologia do poder. O governo Lula tem uma profunda dificuldade em se posicionar contra regimes que compartilham, ainda que indiretamente, elementos da narrativa antiocidente que o presidente admira desde a juventude. Não se trata de apoiar Moscou explicitamente, isso seria desastroso. Trata-se de evitar desgastar um amigo estratégico. Trata-se de proteger um mapa mental em que a Rússia não é vilã, mas contrapeso ao “imperialismo” americano.
Essa leitura pode interessar a certos setores ideológicos. Não interessa à realidade. A realidade é esta: a Rússia sequestrou crianças. Acima de qualquer retórica, esse fato exige resposta clara. O Brasil escolheu a ambiguidade.

O episódio, contudo, tem uma dimensão mais profunda. Ele revela o tipo de liderança que o mundo espera — e o tipo de liderança que o Brasil decidiu oferecer. Liderança não é apenas discurso inflamado, nem bravata ideológica. Liderança é presença moral. Em certos momentos, basta dizer o que é certo. O Brasil não disse.
Em termos concretos, a abstenção brasileira não alterou o resultado. A resolução foi aprovada e as crianças ucranianas, em algum grau, terão mais chance de voltar para casa. Mas o voto brasileiro, ou a falta dele, registrou algo que ficará marcado nos anais globais: o país decidiu se encolher. E na política internacional, um país que se encolhe demais acaba desaparecendo.
O destino de uma nação se mede nos momentos em que ela poderia ter defendido os inocentes. Nesta semana, o Brasil falhou.
Há um preço invisível que se paga quando se renuncia à própria voz e à defesa do que é correto. Talvez o que mais impressione seja a dissonância entre a imagem que o Brasil quer projetar — a de uma nação pacífica, generosa, aberta — e o gesto concreto de recusar apoio à reunificação de famílias. Não há propaganda, por mais elaborada, que consiga esconder a contradição. Por isso a abstenção é vergonhosa. Ela não é apenas erro diplomático; é erro ético. Não é apenas falha estratégica; é falha civilizacional.
Enquanto isso, do outro lado do hemisfério, uma primeira-dama age. Não em nome de seu marido, não em nome de um partido, mas em nome de princípios. Melania Trump mostrou que ainda é possível separar humanidade de cálculo. Ao enviar uma carta a Putin, mostrou que o poder pode ser usado para o bem. O resultado, modesto mas imenso, está registrado: algumas crianças voltaram para suas famílias. Cada criança reunida com sua mãe vale mais do que todos os discursos da ONU.

O contraste final é doloroso: uma mulher que não exerce cargo público conseguiu mais pelo destino dessas crianças do que o governo brasileiro. Ela fez o que pôde. O Brasil fez o que quis — e o que quis foi nada. Não é a Rússia que diminui o Brasil. É o próprio Brasil, quando confunde covardia com diplomacia.
A história, essa juíza sem pressa, registrará o episódio. Não haverá manchetes no futuro com a lista dos países que se abstiveram. Não haverá relatórios internacionais sobre os ausentes. Mas haverá crianças crescidas longe de suas mães. Haverá jovens que não saberão seu nome original, nem sua língua, nem sua história.
E haverá o registro frio, imparcial, inexorável: o Brasil esteve presente — e escolheu o silêncio.
O destino de uma nação se mede nos momentos em que ela poderia ter defendido os inocentes. Nesta semana, o Brasil falhou. E não há discurso que apague essa vergonha.
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Excelente e corajoso artigo feito pela também excelente e exímia jornalista Ana Paula Henkel. O nosso governo carece de se posicionar melhor e corajosamente no cenário mundial.
Precisamos melhorar o nível de instrução de grande parte do povo brasileiro e isso o governo atual não quer.
A pequenez da diplomacia brasileira é diretamente proporcional ao atual governo…
Lamentável@
Parabéns pela matéria, Ana Paula!
Lula alinhado com o eixo do mal vai continuar colocando o país do lado errado da história e despeito do que esperam os brasileiros de bem.
Terrivelmente estúpida essa decisao tomada pelo Brasil, omissão. Realmente esse desgoverno nao cultua nada. Familia p eles é o pior inimigo. Desgraças a nossa frente virão a galope com esse desgoverno corrupto mentiroso e sem alma. Desesperador
O Lula só condena Israel e se omite diante das barbaridades da Russia na Crimeia e Ucrania