A indicação de ministros ao Supremo Tribunal Federal (STF) segue um roteiro simples desde 1988: o presidente da República escolhe um nome. O Senado, depois de uma sabatina quase sempre protocolar, o confirma. É um rito que combina formalidade constitucional com um acordo tácito entre os Poderes. Em 2025, contudo, essa liturgia foi rasgada.
A indicação de Jorge Messias para a vaga de Luís Roberto Barroso, que se aposentou em 18 de outubro, desencadeou uma crise sem precedentes entre o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Pela primeira vez em décadas, a Casa Alta deixou de ser avalista quase automática da escolha do Executivo.

O desentendimento começou no instante em que o governo anunciou publicamente a indicação sem antes avisar o presidente do Senado. Em 20 de novembro, o Diário Oficial da União trouxe o nome de Messias como escolhido por Lula para ocupar a cadeira deixada por Barroso. Alcolumbre soube da decisão pela imprensa. Não houve telefonema nem conversa reservada. Em Brasília, esse tipo de quebra de liturgia é interpretado como afronta direta.
Havia ainda outro fator: Alcolumbre tinha um preferido para a vaga aberta na Corte — o senador Rodrigo Pacheco (PSD-MG), aliado próximo e nome visto com simpatia pelos ministros Flávio Dino, Gilmar Mendes e Alexandre de Moraes. A escolha por Messias atropelou essa articulação, de modo que frustrou um arranjo que unia o comando do Senado e as lideranças do STF.

Guerra pública
Se o erro inicial foi a falta de aviso, o equívoco seguinte foi a tentativa de explicar o mal-estar. Interlocutores do governo, em conversas reservadas com jornalistas, passaram a sugerir que Alcolumbre estaria criando obstáculos à indicação porque buscava cargos e emendas. Era a velha acusação de fisiologismo, lançada justamente contra quem controla a pauta do Senado.
Além dessa narrativa, setores do governo insinuaram que Alcolumbre temia futuras investigações no STF. O senador já teve dois inquéritos arquivados sobre supostos crimes eleitorais cometidos na campanha de 2014 — acusações que não resultaram em ação penal. Para o Senado, o Planalto estava reabrindo velhas suspeitas apenas para pressionar a aprovação de Messias.
O conflito, até então restrito a bastidores, passou ao terreno das ofensas públicas. No último domingo, 30, Alcolumbre rompeu o silêncio. Em nota, acusou o governo de espalhar ilações ofensivas, rejeitou a narrativa de troca de cargos e afirmou que as acusações do Executivo eram ofensivas ao Legislativo.
Depois da escalada do confronto, o Planalto percebeu a dimensão do problema. A ministra de Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, tentou desmentir as acusações contra Alcolumbre e negar que o governo tivesse lançado insinuações de fisiologismo. Mas o gesto chegou tarde. O estrago estava feito.
Nos bastidores, o PT acusou o presidente do Senado de acelerar deliberadamente a sabatina, reduzindo o tempo de articulação do governo para consolidar os votos de Messias. Com dificuldades para reunir maioria na CCJ, o Planalto deixou de enviar a mensagem presidencial ao Senado, manobra que impediu o agendamento da sabatina.
Sem recuar, Alcolumbre inflamou a crise que se instalara em Brasília. E fez algo ainda mais significativo: esclareceu que a mensagem presidencial — documento que oficializa a indicação e permite ao Senado marcar a sabatina — não havia sido enviada pelo Planalto.
Nesta semana, o embate atingiu o ápice. Alcolumbre cancelou a sabatina, marcada para 10 de dezembro. A justificativa: sem mensagem presidencial, não há rito a cumprir. Em comunicado enviado aos senadores, classificou a omissão do Executivo como grave e afirmou que o governo petista está tentando interferir no cronograma do Senado. “O PT não seguiu o rito previsto pelas regras da Casa, mas, por outro lado, há a má vontade de Alcolumbre, que preferia Rodrigo Pacheco no STF”, resume Alessandro Chiarottino, mestre em Direito Constitucional pela Universidade de São Paulo.
É a primeira vez, desde a redemocratização, que a sabatina de um indicado ao STF foi cancelada por descumprimento de um procedimento formal. A liturgia, que o governo havia ignorado na largada, passou a ser usada pelo Senado como instrumento de contenção política.
Cenário desfavorável a Messias
Na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado, por onde toda indicação ao STF precisa passar antes de seguir ao plenário, Messias soma dez votos favoráveis e dez contrários. Ele precisa de 14 votos para ser aprovado na comissão. No plenário, o desafio é ainda maior. São necessários 41 votos, maioria absoluta dos 80 senadores, e o cenário não favorece o indicado: o PSD, partido de Rodrigo Pacheco, está dividido. O União Brasil, legenda de Alcolumbre, mantém distância. Já a oposição está consolidada contra e senadores independentes se irritaram com as insinuações dos petistas. Em resumo, Messias não tem margem de segurança. O indicado ao STF corre o risco de se tornar o primeiro candidato a ser rejeitado pelo Senado na história do país — algo que não ocorreu nem mesmo nos períodos de maior instabilidade política.
Alcolumbre não está defendendo liturgias nem reivindicando prerrogativas – está aumentando o custo para o governo, à espera de contrapartidas.
“A decisão de cancelar a sabatina favorece o Planalto”, afirma Luan Sperandio, analista político e diretor de operações do Ranking dos Políticos. “Messias ganhou tempo para a etapa informal mais relevante, a conversa direta com os senadores. É o ‘beija-mão’ da política. Sem prazo definido, o indicado por Lula poderá continuar esse trabalho com mais calma, reduzir resistências e construir votos.”
Ciente do cenário adverso, Messias intensificou as visitas aos gabinetes dos senadores. Nas últimas semanas, conversou com Lucas Barreto (PSD-AP), Sérgio Petecão (PSD-AC), Eliziane Gama (PSD-MA) e Eduardo Braga (MDB-AM). Juntos, esses partidos somam 25 senadores — mais de 60% do total necessário para aprová-lo.
“Em plenário, há um pequeno risco de a oposição espernear”, observa Antônio Flávio Testa, doutor em sociologia pela Universidade de Brasília (UnB), ao comentar a possibilidade de o advogado-geral da União ser rejeitado pelo Senado. “Quem conhece Lula e Alcolumbre sabe que chegarão a um acordo. Lula vai entregar parte do que Alcolumbre quer e vai impor Messias.”
A crise provocada pela indicação de Messias escancarou um velho modus operandi da política brasileira. Alcolumbre não está defendendo liturgias nem reivindicando prerrogativas – está aumentando o custo para o governo, à espera de contrapartidas. Lula, por sua vez, tenta evitar uma derrota vexatória e medir até onde pode ceder. Quando o impasse terminar, o recado permanecerá: quem quiser nomear um ministro do STF precisa negociar. E o preço subiu.
Leia também “O tribunal do PT”




Eles são tão ladrões, tão comunistas, são tirânicos, tão narcotraficantes, tão tudo que não presta como homens públicos que batem cabeça entre si
Duas opções de igual teor. Lama ou barro, dá na mesma. Mais uma herança maldita do molusco.
Ou seja, o Brasil que presta e tem vergonha na cara que se lasque. É uma trambicagem entre o ex-presidiário descondenado e um “senador” eleito por um estado nanico e miserável. QUE NOJO dessa gentalha.
Parabéns Edilson Salgueiro, mais uma vez com um artigo brilhante. Expõe a indignação da grande maioria dos brasileiros.