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A Europa enfrenta nova alta de casos de gripe aviária, enquanto o Brasil segue livre da doença graças ao elevado padrão sanitário da sua avicultura | Foto: Shutterstock
Edição 298

Europa: reservatório de gripe aviária

O alto padrão tecnológico e sanitário da avicultura brasileira é um modelo para o mundo

Neste final de ano, a Europa assiste impotente à recrudescência da gripe aviária e seus impactos na produção de carne e ovos. Um número elevado de casos está a ocorrer na fauna selvagem, em criações domésticas e comerciais. As causas são ecológicas e tecnológicas. Enquanto a epidemia avança na Europa, o Brasil, maior exportador de carne de frango, segue reconhecido sem casos de gripe aviária em sua produção. O alto padrão tecnológico e sanitário da avicultura brasileira é um modelo para o mundo.

No outono, com redução das temperaturas e da duração dos dias, aves migram da Europa Central e Setentrional em direção ao Mediterrâneo e à África. Grous, gansos, cisnes, gaivotas, patos e marrecos selvagens trazem na bagagem o vírus ativo da gripe aviária. Essas aves têm papel chave na distribuição do vírus. A Europa teme repetir 2022: dezenas de milhões de aves abatidas e milhares de casos de infecção.

Essa epidemia já dura anos na Europa. Tornou-se endêmica, apesar dos meios e recursos de biossegurança adotados. O momento preocupa dado o aumento da circulação ativa do vírus altamente patogênico nas aves migratórias. Mais de 1,1 mil casos foram identificados em 26 países, entre agosto e novembro de 2025, com uma concentração na Alemanha, França e Reino Unido, além de Polônia, Áustria, Espanha e Itália.

Milhares de aves selvagens morreram nos corredores migratórios. O vírus sobrevive, endêmico, em populações de aves locais, não migratórias. Globalmente, o vírus já foi detectado em cerca de 500 espécies de aves. Na Europa, a fauna, migratória ou residente, se tornou o grande reservatório do vírus da gripe aviária. Como eliminá-lo? Um desafio ecológico.

A fauna europeia tornou-se o principal reservatório do vírus da gripe aviária, um desafio ecológico que dificulta o controle da doença | Foto: Shutterstock

O risco de introdução do vírus nas criações comerciais segue elevado, sobretudo nos sistemas de criação orgânica ou ecológica de frangos em espaços abertos, ao ar livre, e nas pequenas criações domésticas. A situação piorou bastante na Alemanha: uma centena de focos de infecção e mais de 1,5 milhão de aves mortas ou abatidas. Na Áustria, já são centenas de milhares. A França foi classificada como de risco elevado desde 22 de outubro. O mesmo ocorreu com a Espanha.

As autoridades decretaram medidas reforçadas de biossegurança. Agora é obrigatório confinar em ambientes fechados quaisquer aves de criação (frangos, patos, gansos, angolas, perus, codornas e faisões). No Brasil, a localização e o isolamento físico dos aviários, o controle rigoroso dos acessos e os conceitos de segurança sanitária aplicados às edificações e à produção seguem padrões rígidos e homogêneos há muito tempo.

A Europa proibiu fornecer água para aviários proveniente de lagos e rios, onde possam existir aves selvagens, potencialmente contaminadas. Esse tipo de captação de água é frequente na Alemanha, Suíça, França e outros países nas criações de suínos e aves. A questão da água não tem como ser resolvida em semanas ou meses. Nisso, há uma diferença enorme com os aviários brasileiros. Aqui, a maioria é abastecida por poços artesianos.

Muitos criadouros de aves na Europa são heranças de práticas seculares, como o pastejo de patos e gansos em bosques nativos etc. Agora, está proibida a manutenção de patos e gansos junto a outras aves domésticas (sic). A presença de aves em feiras, concursos, exposições e eventos do mundo rural, mesmo culturais, também é totalmente proibida.

Por decisão da Comissão Europeia, os pombos-correio estão mantidos em confinamento. Está proibido organizar competições, apesar dos pedidos de colombófilos, criadores e adestradores de pombos-correio. Regras sobre o transporte de insumos e da produção animal também foram reforçadas.

Países afetados pela gripe aviária em vários continentes recorrem ao Brasil para repor seus plantéis de poedeiras e frangos de corte.

Essas medidas atingem diretamente os custos e a operação de sistemas de criação orgânicos ou biológicos a céu aberto, a criação para autoconsumo e a dedicada à produção de ovos e carne para venda direta ao consumidor. Elas comprometem certificações de origem de frangos, como o Label Rouge, a Volaille de Bresse e de Gascogne quando deixam de pastejar ao ar livre. Está proibida a presença de aves cativas, de canários a papagaios, em estabelecimentos de produção (sic). São medidas aplicadas no Brasil há décadas. Aqui, empregados de aviários não podem ter aves em sua residência. Até acertos, como o fornecimento gratuito de carne de frango e ovos, são feitos com moradores nas redondezas de aviários, em troca da ausência absoluta de criação ou presença de aves domésticas.

Numa agricultura altamente subsidiada como a da Europa, ajudas financeiras aos avicultores foram anunciadas pelos governos de vários países, face aos aumentos nos custos de produção e às perdas por abates sanitários. Este ano, o preço dos ovos voa cada vez mais alto na Europa: República Checa (+38,6%), Eslováquia (+30,9%), Portugal (+30,4%), Letônia (+18,9%), Hungria (+18,2%), Espanha e Polônia (+18%). Cresce a necessidade de importar maior quantidade de carne de frango do Brasil, fornecedor seguro e competitivo, com ou sem Acordo Mercosul-UE.

No mundo, entre janeiro e novembro de 2025, cerca de 3 mil casos foram detectados em 72 países. Além da Europa, eles se concentraram na América do Norte e Ásia, em particular no Japão. A situação na Austrália preocupa.

Casos de gripe aviária no mundo entre janeiro e novembro de 2025 | Fonte: ABPA

No Brasil, entre janeiro e novembro de 2025, foram confirmados 185 casos de gripe aviária, sendo 172 na fauna silvestre. Outros 12 ocorreram em criações domésticas e apenas um caso, o primeiro e único, em uma granja comercial no município de Montenegro (RS), ocorrido em 16 de maio.

Diante da notificação à Organização Mundial de Saúde Animal (OMSA) realizada pelo Brasil, cerca de 60 países restringiram a importação de carne de frango, em graus diversos: uns estenderam sua restrição ao conjunto do país, como fez a China. Outros ao Rio Grande do Sul, outros ao município de Montenegro e outros ainda, a um raio em volta do foco detectado.

Graças aos dispositivos existentes, sob coordenação da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) e do Ministério da Agricultura, o foco foi rápido e totalmente superado. O Brasil se declarou livre da gripe aviária em 18 de junho de 2025, após esperar 28 dias sem novos casos em granjas comerciais. O prazo começou a contar a partir de 22 de maio, após a desinfecção do foco inicial da doença em Montenegro (RS).

Com a rápida erradicação da enfermidade e o esclarecimento às autoridades internacionais foi célere a retomada do status de país livre da gripe aviária. As autoridades brasileiras tiveram êxito nos esforços diplomáticos para restabelecer o fluxo comercial com mercados suspensos. A China demorou quase seis meses até retomar as importações de aves.

Até maio, mês da ocorrência do primeiro caso de gripe aviária, a China era a maior importadora de carne de frango do Brasil. Entre janeiro e maio, importou 228 mil toneladas (10,4% do total exportado até então) e gerou uma receita de US$ 546 milhões. Com a retomada das compras pela China em novembro, o volume total das exportações de carne de frango em 2025 talvez supere 2024, apesar do episódio da gripe aviária.

No mercado interno, após alguma turbulência no abastecimento de ovos, o consumo de frangos vai bem, graças à produtividade, ao profissionalismo e à industrialização de toda a cadeia. Em 1970, um salário-mínimo comprava 41 quilos de frango. Hoje, compra mais de 140 quilos. O salário não aumentou tanto. O frango está mais barato e acessível. Em 1970, o consumo médio de frango era de 3 kg/habitante/ano. Em 2024, foi de 46 quilos/habitante/ano.

Dado o excelente status sanitário da avicultura nacional, países afetados pela gripe aviária em vários continentes recorrem ao Brasil para repor seus plantéis de poedeiras e frangos de corte. O país exporta quantidades cada vez maiores de material genético avícola (pintos de um dia e ovos férteis), com alto valor agregado, em todo o mundo, até para a União Europeia.

Por aqui, o consumo interno de aves cresce no período natalino. O setor da avicultura oferece aos consumidores opções de aves para todos os bolsos: do peru ao chester e bruster natalinos. Estes últimos são duas linhagens de frangos especiais, geneticamente selecionados para concentrar cerca de 70% de carnes suculentas em peito e coxas. Seu processo de criação é mais longo. A dieta balanceada resulta em um animal maior (3,5 quilos a 4,2 quilos).

O agronegócio brasileiro é produtivo e competitivo em seu conjunto. De todos os seus setores, a avicultura é talvez um dos mais tecnológicos, modernos e sustentáveis do planeta. Diante da gripe aviária, ela é exemplo e modelo de segurança do alimento para muitos países. É preciso conhecer e reconhecer esse trabalho cotidiano do setor avícola, da indústria e da logística associada. Graças à avicultura, 56 bilhões de ovos e 15 milhões de toneladas de carnes de aves, proteínas de qualidade, chegam à mesa de brasileiros e consumidores no mundo. E ninguém dá um pio.

A avicultura brasileira, uma das mais modernas e seguras do mundo, garante bilhões de ovos e milhões de toneladas de carne de aves sem registros de gripe aviária | Foto: Shutterstock

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