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Ilustração: Júlia Xavier/Revista Oeste/Feito por IA
Edição 298

Educação + Prazer

O Google Learn Your Way aposta no ensino individualizado — e divertido

O quanto é antiquado o atual modelo de educação? Vamos voltar a Nippur, na Suméria, cerca de 2500 antes de Cristo. Estamos numa construção precária de tijolos de barro conhecida como E-dub-ba, ou “casa das tabuletas”. 

No chão da E-dub-ba estão os “alunos” — 12 adolescentes entre 8 e 15 anos sentados sobre esteiras. À frente deles permanece o Ummea (“mestre escriba”). Os garotos seguram um pedaço de argila úmida e uma vara curta. Seguindo a instrução do Ummea, eles marcam na argila os sinais correspondentes a um hino à deusa Nisaba. É a única forma que os sumérios têm para transmitir seus conhecimentos à próxima geração — e para o futuro.

Um dos alunos está com dificuldade. Ele não consegue fazer pressão suficiente na argila. O instrutor interrompe a aula e caminha até o garoto. Pressione sua mão para aprender a fazer o sinal correto equivalente à deusa Nisaba. Para completar a “lição”, usa sua vara para bater nas costas do aluno. É uma pancada com força suficiente para ser lembrada no dia seguinte. “Os ouvidos de um menino estão nas suas costas”, diz um provérbio sumério. “Ele só ouve se for espancado.”

Corta para uma sala de aula em Quirinópolis, Goiás, fim de outubro de 2025:

Um retângulo de papel

Claro que muita coisa aconteceu nos mais de 4,5 mil anos que separam a aula de argila em Nippur e a cena em Quirinópolis. Mas, no fundo, pouca coisa mudou. Veja este quadro de Lorenzo de Voltolina da segunda metade do século 14:

Pintura de Lorentius de Voltolina | Foto: Reprodução/Wikimedia Commons

Um professor em posição de autoridade transmite seu conhecimento. Seus alunos escutam passivamente. Alguns, desinteressados, conversam. Outros dormem. O que mudou de verdade de 1370 para cá?

Muita coisa. E ao mesmo tempo muito pouco. Alunos continuam entediados ouvindo o que os professores dizem, lendo os livros que são ordenados que leiam, cumprindo as regras estabelecidas para chegar ao objetivo final do processo: um retângulo de papel chamado “diploma”.

“Aprenda seu caminho”

Felizmente algumas possibilidades revolucionárias para a educação estão aparecendo. Já escrevemos aqui na Oeste sobre a Alpha, a “escola sem professores”. Agora o Google surge com a Learn Your Way, que procura dar ao ensino um toque de independência ao estudante e um ingrediente em falta em todo o processo educacional: prazer.

Vamos então demitir todos os professores do mundo porque se tornaram obsoletos?

“Learn Your Way” significa “aprenda do seu jeito”. Numa leitura mais poética pode significar também “aprenda seu caminho”. A ideia é criar conteúdos personalizados e divertidos. Um dos fatores que tornam a educação ineficiente é que ela é a mesma para todos. Não se importa com o fato de que não existem dois alunos iguais. 

O Learn Your Way começa perguntando ao aluno em que grau ele estuda e qual seu interesse pessoal. O exemplo abaixo, simplificado, ensina as famosas leis de Isaac Newton. 

Na coluna da esquerda temos um aluno do 2º ano do ensino médio, com cerca de 16 anos e que gosta de basquete. Na coluna da direita, um aluno do 5º ano do ensino fundamental, com 10 anos e que gosta de pintura. A explicação para cada um é completamente diferente e adaptada ao grau de maturidade do aluno. 

Para o aluno que gosta de basquete, as leis de Newton são explicadas por meio dos efeitos da bola e da movimentação na quadra. Para o que gosta de arte, a física mostra a ação de um pincel na tela e o mecanismo de um spray de tinta.

Ilustração: Reprodução/Google Learn Your Way

O curso não é apenas lido. Pode ser automaticamente transformado em slides didáticos ou numa narração, para quem prefere ouvir a aula. Cada lição também gera um mapa mental para que o estudante possa ter uma ideia do “grande quadro” — e não se limitar à página que o professor tradicional mandaria estudar. 

O Google fez uma pesquisa entre alunos de 15 a 18 anos moradores da área de Chicago. De maneira geral, estudantes que usaram o Learn Your Way tiveram desempenho melhor do que os que usaram o método tradicional. 

As ordens do Ummea

“O Learn Your Way representa mais do que apenas mais uma ferramenta educacional com IA — é uma reformulação fundamental de como os livros didáticos podem funcionar na era digital”, avaliou o site Tech Buzz, especializado em inovação tecnológica. “Com resultados comprovados que mostram uma melhoria de 11% nas taxas de retenção e o respaldo da infraestrutura avançada de IA do Google, essa pode ser a inovação que finalmente tornará o aprendizado personalizado escalável para salas de aula em todo o mundo”.

Vamos então demitir todos os professores do mundo porque se tornaram obsoletos? O Google deixa claro que o Learn Your Way é um instrumento de modernização e otimização do ensino e não a escola em si.

O Brasil precisa entender que seu sistema de ensino está caminhando para a falência. Pior ainda: em muitos casos virou uma máquina de doutrinação política, atuando dentro de uma engrenagem sindical totalmente anacrônica para as necessidades do país neste início de século 21.

Se o Brasil quiser evoluir, precisa adotar os novos instrumentos à base de inteligência artificial, que ensinam o aluno a aprender, e não apenas a obedecer ordens. Ou jamais nos livraremos da sombra de um Ummea, dentro de um sistema tão velho como a própria Suméria. 

Ilustração: Júlia Xavier/Revista Oeste/Feito por IA

dagomirmarquezi.com
@dagomirmarquezi

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3 comentários
  1. Renato Perim
    Renato Perim

    Um dos maiores entraves ao desenvolvimento do brasil são seus professores, por quem eu nutro um profundo desprezo. São seres irracionais e amorais, não servem pra nada a não ser atrapalhar o crescimento das pessoas. As raras exceções confirmam a regra do que eu disse.

  2. José Sergio do Amaral Mello Filho
    José Sergio do Amaral Mello Filho

    Parabéns, Dagomir. Edição após Edição, seus artigos são ótimos

    1. Dagomir Marquezi

      Obrigado pela gentileza, José Sergio! Vocês merecem o melhor.

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