Construído em 1938 para abrigar a Estação Júlio Prestes, o imponente edifício da Rua Mauá, número 51, no coração de São Paulo, é por si só uma obra de arte. A fachada monumental e simétrica, marcada por referências neoclássicas, pilastras ornamentais, frontões e arcos, prepara o visitante para o que encontrará dentro. À esquerda de quem atravessa a porta de pé-direito altíssimo está a Sala São Paulo, sede da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp) e palco de concertos do mundo inteiro. À direita, a Secretaria de Cultura do Estado.
Ao subir dois lances pela escada de mármore branco, os corredores com pisos forrados de madeira maciça conduzem ao gabinete da secretária de Cultura, Marília Marton. A formalidade do ambiente — reforçada pelo pesado mobiliário do início do século passado — se desfaz logo na entrada, quando Marília aparece de braços abertos e um largo sorriso.
Mas é dentro da sala que o contraste realmente se revela. O visitante logo percebe a convivência entre passado e modernidade: ao lado da janela, um manequim exibe o figurino de um personagem de anime usado por Marília em um festival de cosplay — é impossível não enxergar na peruca loira que compõe o look a bela cabeleira da secretária. Próxima dali, uma mesa de madeira de lei sustenta uma pilha de bonecos Funko de todos os estilos. Mais adiante, estão expostos chapéus, camisetas, bottons, canecas e outros presentes que ela recebe durante suas andanças pelo Estado.

Formada em Ciências Sociais pela PUC-SP e mestre em Cidades Inteligentes e Sustentáveis pela Universidade Nove de Julho, Marília começou cedo no setor público. Atuou nas prefeituras de São Paulo e São Caetano do Sul, além de ter passado pelas secretarias estaduais de Educação e de Cultura. Desde janeiro de 2023, ocupa a pasta com a determinação de, entre outras metas, desmitificar a ideia de que a cultura é um reduto exclusivo da esquerda. “Essa percepção empurra artistas conservadores para fora do circuito e, ao mesmo tempo, afasta o empresariado de direita do patrocínio”, afirma.
Em quase três anos de mandato, ela acredita que começou a romper esse paradigma. Também soma outros feitos: levar a arte do interior para a capital — e vice-versa —, capacitar uma ampla rede de prestadores de serviços que possam trabalhar na área e projetar internacionalmente os espetáculos paulistas.
Na conversa, fica evidente que discutir a cultura também é discutir o futuro de um país. A arte não é adereço. Mesmo que indiretamente, ela ajuda na formação do caráter, refina a sensibilidade e molda a alma coletiva. Quando esse ecossistema se fragiliza — seja por abandono, por aparelhamento ideológico ou por falta de investimento — o vazio rapidamente se preenche pelo que há de mais raso. Sem acesso à produção cultural de qualidade, sem incentivos aos novos talentos, muitos jovens acabam consumindo apenas manifestações empobrecidas, repetitivas e destituídas de densidade estética. Por isso, Marília acredita que o papel do empresariado é decisivo: patrocinar cultura não é filantropia, é responsabilidade social.
A seguir, os principais trechos da entrevista:
A pauta da cultura foi “sequestrada” pela esquerda? O que isso significa na prática?
Sim. Formou-se um quase monopólio simbólico segundo o qual “cultura é de esquerda”. Isso empurra artistas declaradamente conservadores para fora do circuito e, ao mesmo tempo, afasta o empresariado de direita do patrocínio. O resultado é perverso: quem se assume à direita sofre boicote no meio artístico e não encontra, do outro lado, empresas dispostas a apoiá-lo — embora as leis de incentivo deem às empresas a liberdade de escolher projetos alinhados à sua identidade.
Esse “sequestro ideológico” ainda é forte?
Ainda é. Existe um grupo pequeno, mas barulhento, que tenta pautar o setor como se fosse proprietário dele. Cultura virou, por anos, uma espécie de identificação automática com um lado do espectro político. Isso gera uma narrativa infantil: se você não repete certos mantras, você “não é artista”. É evidente que isso caiu no ridículo — e muita gente, inclusive de esquerda, cansou dessa vigilância moral. Mas o dano existe: artistas conservadores são excluídos, empresas conservadoras têm medo de se aproximar e a produção cultural fica menos plural.
“Quando empresários afinados com valores conservadores se recusam a patrocinar, eles entregam a curadoria do setor cultural ao outro lado”
A direita tem responsabilidade nesse cenário?
Tem, e grande. O empresariado conservador deixou o terreno cultural completamente abandonado por décadas — e quem abandona, perde. É contraditório defender a liberdade econômica e ignorar justamente o mecanismo que mais garante liberdade de escolha na cultura, que são as leis de incentivo. A direita, muitas vezes, reclama do “monopólio cultural”, mas não patrocina nada, não se responsabiliza por formar público e não constrói ecossistema. Cultura não se equilibra sozinha: ou você participa ou aceita que o outro lado defina tudo.
As leis de incentivo (Rouanet, ProAC, Promac) são mal compreendidas?
Muito. Não é o governo que “dá o dinheiro” ao artista, nem que escolhe o espetáculo que será contemplado. Ele concede uma autorização para que a empresa direcione parte do imposto devido — federal (IR), estadual (ICMS) ou municipal (ISS) — a um projeto aprovado tecnicamente. É a liberdade do patrocinador que vale. Quando empresários afinados com valores conservadores se recusam a patrocinar, eles entregam a curadoria do setor cultural ao outro lado, mesmo havendo inúmeras produções que dialogam com seu público.
Há caminhos concretos para reaproximar esses empresários do setor cultural?
Sim. Aqui na Secretaria criamos a Vitrine de Projetos do ProAC ICMS: o patrocinador entra, filtra por região, linguagem, faixa etária, encontra o projeto, o contato do proponente e fecha direto com ele, sem “intermediários oficiais”. Também fazemos encontros de Fomento CultSP no interior para explicar como patrocinar. Onde houve conversa franca com o empresariado, a captação subiu bastante.
Qual é o impacto econômico real da cultura?
É gigantesco e distribuído. Um circuito de artes cênicas, por exemplo, ativa bilheterias, equipes técnicas, cenografia, figurino, comunicação, logística, hotelaria, restaurantes, aplicativos de mobilidade — um efeito multiplicador notável. Em diversos festivais municipais, o giro econômico chega a bilhões por temporada. Cultura é formação de público e senso crítico, mas também é negócio, emprego e renda.
Você insiste na importância de se “respeitar o público”. O que quer dizer exatamente?
Não discuto “narrativas” — arte é liberdade —, mas lembro aos produtores que um produto cultural é feito para ser consumido por pessoas. Quando a obra despreza deliberadamente o espectador, ela afasta o público e corrói o ecossistema inteiro: a pessoa não sai dizendo “essa peça é ruim”. Sai dizendo “teatro é ruim”. Defendo franqueza na classificação e aviso de conteúdo sensível. A partir disso, o público escolhe onde quer estar.
A Secretaria dialoga bem tanto com a esquerda quanto com a direita?
Dialoga. O governador Tarcísio, quando me convidou para assumir a Secretaria, pediu duas coisas: preservar o que funciona e corrigir o que não entrega. Tivemos liberdade para avaliar programas, orquestras, companhias e equipamentos, com base em eficiência e resultado ao cidadão — não em rótulos. Onde havia gargalo, reformatamos; onde havia excelência, ampliamos.
O governo Tarcísio chegou a sofrer alguma resistência por ser visto por parte da população como um prolongamento do governo Bolsonaro?
No começo, sim. Parte da esquerda radical olha para qualquer nome ligado ao governo como extensão do bolsonarismo. Mas isso se desfaz quando veem o que estamos fazendo: continuidade do que funcionava, correção do que não entregava, ampliação de formação, interiorização, profissionalização e internacionalização. Cultura é diálogo — e eu converso com todos os lados. Resultado concreto desmonta rótulo.

Por que substituir as Oficinas Culturais pelo programa CultSP Pro?
As Oficinas, como foram criadas há muitos anos, deixaram de responder à realidade atual: viraram ações pontuais, muitas vezes concorrendo com centros culturais municipais que já fazem a iniciação nas artes com mais capilaridade. O CultSP Pro nasce para profissionalizar. São cursos de gestão cultural, cinema, mídias, patrimônio e restauro, design, técnicas de palco, visagismo para cena, elétrica cênica etc. É curso com prática real — como módulos de restauro trabalhando em mobiliário histórico do próprio município. Em um ano, a demanda explodiu e os efeitos são concretos na empregabilidade.
Há parcerias com grandes eventos para formar mão de obra local?
Sim. Fizemos com a Liga das Escolas de Samba no Carnaval (operações, montagem, atendimento), e com o Tomorrowland em Itu, qualificando gente da região. A ideia é ampliar o repertório profissional de quem já trabalha — um eletricista pode aprender elétrica de teatro, a maquiadora, com visagismo cênico — sem abandonar sua base. Isso aumenta a renda e fixa conhecimento.
Como levar a cultura do interior para a capital — e vice-versa?
Com mapeamento e vitrine. O Revelando São Paulo tem cinco edições anuais (Barretos, Iguape, São José dos Campos, Presidente Prudente e a capital) e destaca tradições locais — da queima do alho à folia de reis —, reunindo dezenas de cidades por etapa. Na capital, fomos ao Parque do Trote para ganhar escala e permitir que o paulistano experimentasse a cultura caipira, sertaneja e caiçara do Estado.
A qualificação de grupos do interior também entrou na agenda?
Entrou. Mantemos programas como o de qualificação em dança (iniciado pelo dançarino e coreógrafo Ismael Ivo e hoje segue com a professora Cássia Navas) e damos tutoria para coletivos de teatro e escolas de dança via a São Paulo Escola de Teatro e a São Paulo Companhia de Dança. O objetivo é equilibrar condições entre capital e interior: nove meses de orientação, da dramaturgia à produção, para que grupos regionais atinjam padrão profissional.
“Qualidade significa execução responsável e respeito ao público, não policiamento de conteúdo. Uma obra pode desconfortar, provocar, desafiar crenças, mas precisa comunicar a que veio”
São Paulo chegou ao Fringe de Edimburgo, considerado o maior festival de artes do mundo. O que aconteceu lá?
Foi um salto de visibilidade. Levamos seis espetáculos, realizamos showcase e uma companhia de São José dos Campos recebeu cinco estrelas em cinco jornais diferentes, esgotando ingressos no meio da temporada. Houve repercussão em veículos como o Guardian e cobertura ampla — teatro imersivo, dança, circo. Internacionalizar abre mercado, gera turnês e novos negócios.
A senhora acha que falta um guia para divulgar a programação dos eventos culturais da cidade?
Criamos o Agenda Viva SP, um guia digital para todo o Estado, com inteligência artificial que aprende as preferências e geolocaliza o usuário. Produtores inserem os dados e o sistema atualiza automaticamente (estreia e temporada). Toda a programação da Secretaria está lá, e estimulamos prefeituras e companhias a incluir seus eventos.

A inteligência artificial está ajudando ou atrapalhando a criação artística?
Depende muito do uso. Em editais, vemos textos idênticos. Isso porque perguntas pobres geram respostas pobres. Se o repertório do proponente é mediano, a IA devolve medianidade. Mas como ferramenta de apoio, organização e descoberta, é muito útil (como no Agenda Viva SP). Na criação artística, ela já está aí — a questão é formar autores críticos que a empreguem como meio, não como muleta.
Como anda a relação com o Ministério da Cultura?
É republicana, mas há divergências técnicas. O Brasil é heterogêneo. Acredito que políticas nacionais devam ser diretrizes, não camisas de força. Em pontos de cultura e cotas da PNAB (Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura), as regras não consideram a proporcionalidade regional. Por exemplo: determinar a obrigatoriedade de 10% para povos originários não reflete a realidade paulista — e às vezes nem há projetos suficientes para cumprir os percentuais. Talvez fosse mais proveitoso pegar o valor correspondente a 10% e criar um edital exclusivo para esses povos. Mas a lei não permite, ela é engessada.
O que significa exigir qualidade sem cair em censura?
Qualidade significa execução responsável e respeito ao público — clareza de proposta, domínio do ofício, boas práticas de produção —, não policiamento de conteúdo. Uma obra pode desconfortar, provocar, desafiar crenças, mas precisa comunicar a que veio. O artista tem liberdade de interpretar, inclusive papéis que contrariam suas crenças, e a plateia tem liberdade de escolher, com informação clara.
Como integrar cultura e educação sem criar disputa por recursos?
As duas áreas são complementares. O projeto Guri nas escolas é prova viva de que a integração funciona. Em vez de “tirar” recursos, a cultura potencializa a aprendizagem e a convivência. Parcerias com a Secretaria de Educação têm avançado porque há clareza de missão e objetivos comuns. O discurso de disputa orçamentária é um falso dilema.
Se pudesse fazer um pedido direto ao setor empresarial, qual seria?
Informem-se e entrem no jogo. Escolham projetos coerentes com seus princípios — tem muita coisa excelente, da formação musical à tradição sertaneja, das cênicas contemporâneas de alto nível à ópera, do patrimônio ao design. A ferramenta existe (Vitrine de Projetos), a governança existe, o retorno reputacional é real e o impacto social é mensurável. Deixar esse espaço vazio é terceirizar a cultura.
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Entrevista sem graça. A socióloga é um tentando fazer média com a direita porque perdeu apoio dos empresários que em sua maioria não compactuam com a lacração que virou essa área
Num governo de gente honesta como é o governador Tarcísio tudo melhora. Esses artistas que valorizam as culturas de igualdade, às vezes até reconhecem suas ignorâncias, mas deixam se vencerem pelo dinheiro porque não resiste ao quando mais melhor. Essa burrice é que causa tragédias no futuro
Conversa sem sentido, qdo a empresa retira parte do que devia pagar de imposto ao governo e transfere para a “Lei Rouanet” , é claro que quem está bancando esses artistas é o governo e a sociedade que perde essa receita para atividades sociais para parte da população menos favorecida.
Adorei encontrar esta entrevista aqui na revista. Assuntos sobre cultura são sempre bem-vindos. Gente lúcida, inteligente e que arregaça as mangas sem medo de trabalhar, é animador.
Fiquei curioso sobre qual seria a personagem de anime do cosplay dela, cuja roupa estava no manequim