Em 2011, o presidente venezuelano, Hugo Chávez, pediu a seu grande amigo, Lula da Silva, então ex-presidente do Brasil, que intermediasse um contato com o marqueteiro João Santana, o mago das campanhas eleitorais do petismo e artífice de grifes como o “Minha Casa, Minha Vida” e “Programa de Aceleração do Crescimento (PAC)”. Um jatinho da Construtora Andrade Gutierrez levou João Santana a Caracas, acompanhado de José Dirceu, do jornalista Franklin Martins, rosto conhecido por anos de presença no telejornalismo da TV Globo, e do embaixador da Venezuela no Brasil, Maximilien Sánchez Arveláiz. Quem recebeu João e o grupo no Palácio Miraflores, sede do governo, não foi Chávez. O fundador do regime bolivariano já lutava contra o câncer que o mataria em 2013, mas escondia a doença para não enfraquecer sua candidatura a um novo mandato presidencial, o terceiro consecutivo, na eleição do ano seguinte. Escalou, para conduzir a reunião que trataria de sua campanha à reeleição em 2012, um tipo corpulento e de bigode proeminente chamado Nicolás Maduro, à época o chanceler venezuelano.
A história que vai ser trazida aqui não é inédita, mas assume ares de novidade para muitos que não a conhecem, pela juventude, ou tentam esquecê-la, por conveniência ou, mesmo, cinismo. Quem a detalhou, com fartura de detalhes e uma desenvoltura notável, foi a esposa e braço-direito de João Santana, Mônica Moura, e o fez em ato de colaboração com a Justiça Federal e o Ministério Público no âmbito da Operação Lava Jato, em 2017.

Oito anos depois, quando Nicolás Maduro está cercado por forças militares norte-americanas no Caribe, prestes a encerrar seu ciclo de 12 anos como ditador e líder de um cartel do narcotráfico que bancou líderes socialistas na América Latina, as revelações de Mônica ganham atualidade. E, em certos aspectos, grande relevância.
Chávez sentia-se fraco em 2011, e não apenas fisicamente. O crescimento das vozes oposicionistas e o desgaste causado pelas prisões de adversários políticos colocavam “El Comandante” sob o temor de perder a eleição — um tipo de pavor que deve dar calafrios em Lula e seus sócios no consórcio STF-PT quando imaginam que o povo brasileiro pode eleger em 2026 um presidente e um Congresso Nacional, sobretudo um Senado, com altivez, sintonia com a vontade popular e um mínimo de obediência aos mandamentos constitucionais hoje profanados.
Além de recear uma derrota em 2012, Chávez não queria que a vitória chegasse por margem muito estreita, por um ou dois pontos percentuais. Tinha certeza de que seu triunfo seria contestado e atribuído — não sem razão — a manobras e à sufocação dos adversários. Em resumo, temia um quadro que os brasileiros conheceram em 2022, quando Lula foi declarado vencedor por uma diferença mínima após um embate em que a oposição sofreu todo tipo de cerceamento e intimidação por uma Suprema Corte partidarizada. Registre-se que as instituições venezuelanas daquela época, embora com certo grau de contaminação, ainda não estavam totalmente sequestradas pelo chavismo — como ocorreria a partir de 2016, sob o comando de Maduro.

O mesmo grupo da primeira reunião com Maduro voltou no final de 2011 a Caracas, já com a presença de Mônica ao lado de João Santana. A Andrade Gutierrez não forneceu o jatinho, mas bancou as diárias no Hotel Marriott. As passagens em voo comercial foram providenciadas pela secretária de José Dirceu. Foi o encontro de aperto de mãos. O negócio estava fechado. Maduro, como chanceler, e os dois ministros de Chávez, além do embaixador venezuelano no Brasil, aprovaram o plano de campanha apresentado pelo casal que lhes foi apresentado por José Dirceu.
— Eu dei um preço bastante alto, porque era uma campanha cara de se fazer. O deslocamento… Uma logística muito difícil…. Foi cobrado um valor de 35 milhões de dólares, o orçamento que eu apresentei.
Maduro, em pessoa, fazia os pagamentos para Mônica, ora no prédio da chancelaria, ora no Palácio Miraflores.
Jornalista por formação e publicitária com traquejo em campanhas políticas, a esposa de João Santana esperava dos ilustres bolivarianos um arquear de sobrancelhas diante da magnitude do orçamento — considerando que ainda teriam de desembolsar a Franklin Martins cerca de US$ 8 milhões, o preço do jornalista para montar a campanha pela internet.
— Nem teve tanta pechincha… Até achei estranho. Aceitaram bem rapidamente.
Ela levaria alguns meses para entender por que aceitaram tão rapidamente. Era uma contratação sem contrato, um negócio para não deixar vestígios na parte relativa aos pagamentos. Os pormenores que contou aos investigadores tornariam muito clara a obscuridade da operação.
Em uma reunião seguinte, Mônica quis saber como seria feito o pagamento dos US$ 35 milhões, a parte que cabia à Polis, agência dela e de João.
— O Maduro me disse: “Olha, a Odebrecht vai pagar uma parte. A Andrade Gutiérrez também vai colaborar. E a outra parte eu pago aqui.”
Ela tinha saído do Brasil informada de que parte do pagamento seria por fora, mas quis saber quanto seria “por dentro”. Recebeu evasivas.
— Nunca tivemos contrato. Na verdade, eu passei os oito meses que eu trabalhei lá, indo e vindo, atrás de um contrato. Mas eles escapavam pela tangente. Nunca foi feito. Tudo foi pago em caixa 2.
Maduro, em pessoa, fazia os pagamentos para Mônica, ora no prédio da chancelaria, ora no Palácio Miraflores. Mandava uma equipe de seguranças buscá-la. Três carrões blindados seguindo em comboio — ela ocupava a camionete do meio.
— Os seguranças subiam comigo para a sala dele, eu ficava lá esperando… tomando um monte de chá de cadeira do Maduro… Eles não têm o menor compromisso com horário. Depois ele me chamava na sala dele, conversava um pouquinho comigo… conversa fiada, de política… E aí me entregava o dinheiro. Ele próprio. Não mandava ninguém me entregar o dinheiro. Ele próprio entregava, quase semanalmente. Malas de dinheiro, várias. Quinhentos mil dólares de cada vez, às vezes 300. Cheguei a receber 800 mil dólares de uma vez só. Era muito dinheiro, tudo por fora, e eu tinha que pagar muita gente na Venezuela por fora também…
Mônica alugou uma casa de quatro andares no bairro do Jockey Club de Caracas para acomodar as equipes de produção, mídia e, também, o núcleo de internet de Franklin. Deu andamento à campanha, que duraria oito meses e culminaria com a vitória de Chávez com 55% dos votos, mas passou boa parte do tempo tentando cobrar os US$ 35 milhões pactuados.
A Odebrecht, agraciada com os contratos de praticamente todas as grandes obras de infraestrutura do governo venezuelano, quitou sua parte na dívida, dando a Mônica US$ 7 milhões. A Andrade Gutierrez pagou a metade dos US$ 4 milhões que correspondiam à sua parte no trato feito com os homens de confiança de Chávez. E Maduro enrolou. Em março de 2013, subiu ao poder com a morte de Hugo Chávez, e Mônica entendeu por que seu orçamento de US$ 35 milhões foi aceito sem preocupações.

— Quando o Chávez morreu, seis meses depois de tomar posse, nós perdemos completamente qualquer chance de cobrar esse dinheiro. A gente tomou um cano histórico. A gente tomou um cano de mais ou menos 15 milhões de dólares nessa campanha.
Nesta parte da delação de Mônica, a representante do Ministério Público fez a pergunta que se impunha.
— Como é que vocês cobram, tendo em vista que não existia contrato? Qual era sua moeda de troca para mostrar que eles tinham que pagar?
Mônica respondeu de bate-pronto.
— A minha garantia era Lula. Eu confiava muito em Lula, que ele ia resolver.
— Tá, mas você falava com o pessoal da Andrade Gutierrez que “Olha, se você não me pagar…”?
— Eu cheguei a ameaçar. Eu disse: “Gente, se vocês não me pagarem eu vou ter que conversar no Brasil, e quem nos chamou pra cá foi o presidente Lula, eu vou ter que conversar com ele”.
A Andrade Gutierrez, que devia muito a Lula pelos contratos que faturou na Venezuela, alegou “dificuldades burocráticas para fazer esse tipo de transferência”, e renovou a velha promessa de fazer um contrato para legalizar os pagamentos. Apareceu com uma proposta de simular um contrato de prestação de serviços de comunicação com a Polis, mas João Santana recusou.
Santana foi cobrar de Lula “várias vezes”, segundo Mônica, e dele ouviu que se acalmasse, que tudo seria resolvido, mas o dinheiro não saía — nem da Andrade, nem do Palácio Miraflores.
Recorreu a José Dirceu, liso como Lula.
— O Zé Dirceu saiu fora. Disse ao João: “Não tenho nada a ver com financiamento. Só fiz a intermediação”.
Quem tem a ver, então, com o financiamento ilegal de campanhas?
É uma pergunta que começará a ser respondida a partir da queda iminente de Maduro e de seus aliados mais poderosos — dentro e fora da Venezuela.
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Ganhou uma grana preta e ainda achou pouco. Bem feito pelo calote. Quem mandou confiar em mafiosos
Onde estamos metido numa trama de destruição de uma nação pra formação de um comunismo que atrasou sua concretização pela desonra e traição entre os ladrões do foro de São Paulo
Eugenio Esber cirúrgico.
Parece roteiro de filme da máfia…
Um filme que, aparentemente, deve se tornar uma série, Donizete.
Com essas informações , entende-se porque Lula defende Maduro…medo de que a sujeira apareça ainda mais….
Sim, Cátia. É uma das razões.
Vamos supor que Maduro despenque e se esborrache; em seguida a CIA juntamente com o novo governo (limpo) venezuelano enviem para o brasil farta documentação que se levada a sério poder-se-ia enfiar no xilindró essa cambada; pois bem, existe um tal de STF no brasil , deixa pra lá, melhor não escrever .
Talvez, Antonio. Talvez. Mas ainda acredito na redemocratização brasileira – o que passa, naturalmente, por uma reforma do judiciário, se o povo acertar na escolha dos senadores em 2026.
Espero que em 2026 o povo “não deixe para lá”, Antonio. Mas entendo teu ceticismo, que é o de muitos brasileiros.