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A Batalha do Somme, 1916 — uma das batalhas mais sangrentas da Primeira Guerra Mundial, simbolizando o custo humano da guerra moderna | Foto: Reprodução/Documentário "The Battle of the Somme"
Edição 295

Medicina e dever na guerra

O patriotismo é tanto nobre quanto ignóbil. Pode inspirar heroísmo tanto numa causa justa quanto nefasta. Pode suscitar tanto inteligência quanto estupidez

Recentemente, para um projeto literário em que estava trabalhando, li o diário de Harold Dearden, um médico que participou da Primeira Guerra Mundial. Publicado em 1929, era intitulado Medicine and Duty (Medicina e Dever). Hoje desconhecido, merecia ser considerado um clássico.

O título é irônico. Na época da publicação, Dearden era um escritor bastante conhecido que abordava dois temas principais: de um lado, como ser feliz, e, de outro, a psicologia do assassinato. Após o fim da Primeira Guerra Mundial ele exerceu psiquiatria, mas desistiu quando uma de suas peças foi transformada em filme — o primeiro filme falado produzido pela Paramount. Era intitulado Interference (“Interferência”) e envolvia um assassinato. Um segundo filme era sobre um homem que fingia amnésia para ter muitos casos amorosos sem peso na consciência.

Sabendo que Dearden havia praticado medicina na frente de batalha como oficial militar durante a Primeira Guerra Mundial, poder-se-ia pensar que o título Medicine and Duty se referia à estreita relação entre a prática médica e o cumprimento do dever; mas, na verdade, “medicine and duty” era a expressão que ele escrevia quando terminava de examinar um soldado que alegava estar doente. O soldado recebia remédios e era considerado apto para retornar ao serviço com seu regimento na frente de batalha. Dearden observa como sua principal tarefa de médico militar era manter os homens bem o suficiente para retornarem a atividades que provavelmente resultariam em suas mortes. Ele achava isso completamente insano, mas continuou a fazer o que lhe era exigido.

Harold Dearden em “Medicine and Duty” expôs o paradoxo moral de curar soldados apenas para devolvê-los à morte no campo de batalha | Foto: Arquivo Histórico

Ele dedicou o livro à memória de um soldado que havia sido encarregado de reunir oito colegas para a patrulha no dia seguinte. Ao amanhecer, sua trincheira foi atacada pelos alemães e um projétil decepou suas pernas na altura da coxa. Enquanto morria, ele se ergueu sobre os cotovelos com a pouca força que lhe restava, e suas últimas palavras a um oficial que tentava consolá-lo foram: “Não se esqueça de reunir a patrulha, senhor.”

Este foi um ato heroico impressionante, pois o homem devia saber que estava morrendo — embora, é claro, tal heroísmo teria sido igualmente demonstrado por soldados do outro lado. Não foi um ato heroico isolado, como Dearden deixa claro: o estoicismo e o humor com que os soldados suportavam condições terríveis e encaravam a morte eram atributos culturais comuns.

Isso dava testemunho de uma modéstia individual, segundo a qual ninguém considerava a própria vida de importância suprema, mas todos consideravam justa a causa pela qual lutavam. Eles estavam imbuídos de um patriotismo profundo. Quando a guerra terminou, os sobreviventes — e por maiores que fossem as baixas, mais soldados sobreviveram do que foram mortos — receberam uma medalha com a inscrição “A Grande Guerra pela Civilização”, implicando que o outro lado era bárbaro; embora, se o outro lado tivesse vencido, sem sombra de dúvida, teria cunhado uma medalha dizendo exatamente a mesma coisa.

Ninguém considerava a própria vida de importância suprema, mas todos consideravam justa a causa pela qual lutavam.

Não faz muito tempo, li um livro da esposa de um médico militar francês que morreu na guerra. Ela havia sido casada com ele por alguns meses apenas quando ele faleceu, e doze anos depois lançou um livro, como homenagem à memória dele, sobre os 1,6 mil médicos franceses mortos na guerra. Ela publicou trechos de seus diários e cartas, que exibiam o mesmo heroísmo estoico e patriotismo que Dearden testemunhou. Eram muito comoventes.

A força de caráter demonstrada pela população era certamente muito maior do que a da população atual, mas isso não foi, de forma inequívoca, uma vantagem. Permitiu àquelas pessoas tolerar as mais terríveis privações e suportar as mais dolorosas perdas. Nenhuma população, certamente nenhuma no Ocidente, repetiria ou poderia repetir seus feitos heroicos ou ser tão estoicamente abnegada.

Por outro lado, ninguém realmente quer uma guerra que exija tais qualidades de uma população. No primeiro dia da Batalha do Somme, por exemplo, os britânicos perderam 20 mil homens. Dearden nos diz que os generais comandantes dos exércitos francês e britânico pensaram que um quilômetro de território ganho ao custo de 60 mil baixas constituía um bom progresso. Nossas populações aceitariam tais perdas, tamanha carnificina hoje? O próprio Dearden deixou claro que estava incerto sobre o que afinal era a guerra, o que estava realmente em jogo. Até hoje, historiadores não chegaram a um consenso sobre haver algum princípio em jogo. Mas se em algum ponto do futuro tal autossacrifício fosse necessário, não conseguiríamos fazê-lo. Algumas pessoas dizem que, se não há nada pelo qual você estaria disposto a morrer, sua vida não tem muito sentido.

Dearden dedicava-se a seu diário entre amputar membros e tratar ferimentos de um tipo jamais visto: por exemplo, de homens cujas paredes abdominais haviam sido estraçalhadas, deixando suas entranhas à mostra. Ele assistiu a muitos jovens morrerem lentamente de seus ferimentos, pois naqueles dias, e naquelas condições, não havia nada que pudesse salvá-los. No final, ele próprio foi ferido, perdeu um olho e retornou inválido para casa.

Dearden testemunhou o sofrimento silencioso de jovens soldados feridos, cujas vidas foram interrompidas pela guerra | Foto: Arquivo Históric

Talvez tenha sido isso que o levou à psiquiatria — uma especialidade para a qual um olho é suficiente. Ele escreveu livros sobre como ser feliz; testemunhara tanto sofrimento que deve ter pensado que se tornara imune a ele.

Há um fim curioso para esta história. Embora Dearden tivesse se aposentado da prática médica para se concentrar na escrita, quando a Segunda Guerra Mundial eclodiu ele foi convidado a retornar ao trabalho (em 1939, ele tinha 57 anos). E, quando voltou, foi incumbido de uma tarefa especial, a saber, interrogar espiões alemães. Aparentemente, ele desenvolveu métodos extremos de interrogatório — que hoje chamaríamos de tortura — que não deixavam marcas físicas nas pessoas interrogadas. Eles incluíam privação do sono e sensorial. Entre os que ele interrogou estava Josef Jakobs, a última pessoa a ser executada na Torre de Londres.

Ele viveu pacificamente até morrer em 1962. Estou certo de que ele teria sido capaz de defender seu uso da tortura e de morrer com a consciência tranquila.


Theodore Dalrymple é pseudônimo do psiquiatra britânico Anthony Daniels. É autor de mais de 30 livros sobre os mais diversos temas. Entre seus clássicos (publicados no Brasil pela editora É Realizações) estão A Vida na Sarjeta, Nossa Cultura… Ou o que Restou Dela e A Faca Entrou. É um nome de destaque global do pensamento conservador contemporâneo. Colabora com frequência para reconhecidos veículos de imprensa, como The New Criterion, The Spectator e City Journal.

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