publicidade
Empresário Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como o Careca do INSS | Foto: Montagem Revista Oeste/Shutterstock/Lula Marques/Agência Brasil
Edição 294

O lobista invisível do INSS

Apelidado de “Careca”, o empresário Antônio Carlos Antunes operou nas sombras de um dos maiores esquemas de corrupção do país

“Careca do INSS tinha coleção de carros”, informou um site. “Ex-diretor do INSS confirma ter recebido R$ 2 milhões de empresa ligada ao ‘Careca’”, noticiou um jornal. “CPMI quer prisão preventiva do ‘Careca’”, complementou uma emissora. Durante os quase três meses de trabalho incessante da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), que ocorre no Senado, esse é o nome que mais apareceu nas primeiras páginas de quase todos os veículos de imprensa.

Por trás da alcunha está o empresário Antônio Carlos Camilo Antunes. Conforme documentos da CPMI, em Brasília, o apelido era sinônimo de um homem que, apesar de não ter cargos públicos, exercia grande influência sobre o mundo político, sobretudo pelo bom relacionamento com gente do governo federal, facilidade em fechar negócios e desobstruir caminhos. As planilhas da comissão detalharam o modus operandi do Careca e revelaram um operador habilidoso, que atuava como elo entre associações, consultorias privadas e os dirigentes sindicais.

Empresário Antônio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS | Foto: Waldemir Barreto/Agência Senado

Careca do INSS, o mediador oculto

De acordo com a CPMI, uma das funções de Antunes dentro da roubalheira era intermediar os convênios firmados entre associações de aposentados e o INSS. Na teoria, esses acordos previam “serviços de apoio”, como cursos, seguros e benefícios oferecidos aos segurados — em sua maioria idosos sem qualquer noção daqueles produtos. Na prática, os serviços eram empurrados por meio de ligações telefônicas e campanhas de adesão automática em que o simples fornecimento de dados pessoais já bastava para autorizar descontos em folha. O resultado foi um sistema espúrio que movimentou milhões de reais sem o consentimento das inúmeras vítimas.

Os valores desviados seguiam para entidades de fachada e, de lá, eram redistribuídos entre empresas e escritórios que orbitavam o núcleo de Antunes. Um dos nomes que aparecem nas planilhas é o de Nelson Wilians & Advogados Associados, citado em movimentações financeiras de associações que repassaram recursos a companhias ligadas ao lobista. Wilians, figura influente na advocacia empresarial de Brasília, mantinha contratos com federações de servidores e com o sistema de consignados — o mesmo ambiente em que o esquema floresceu. A CPMI investiga se os contratos serviram para dar ares de legalidade a serviços inexistentes ou superfaturados, reforçando os laços do braço jurídico-operacional da fraude.

Relatórios da comissão apontam mais de R$ 9 milhões em repasses entre 2023 e 2024, movimentados por empresas do círculo de Antunes. Boa parte dessas transações partiu de associações conveniadas ao INSS, evidenciando que os descontos compulsórios em folha eram o combustível de uma engrenagem financeira comandada pelo Careca — responsável por transformar o sistema previdenciário brasileiro em um gigantesco negócio privado.

Presidente da CPMI – INSS, senador Carlos Viana (esq.), e o advogado Nelson Wilians Fratoni Rodrigues | Foto: Saulo Cruz/Agência Senado

Negócio lucrativo

Conforme os trabalhos da comissão avançaram, descobriu-se que Antunes não apenas intermediava os convênios: ele também participava ativamente da transação. Segundo a CPMI, o Careca está associado às empresas Gestora Eficiente Ltda., Esférica Assessoria e Sistemas de Informática e Amar Brasil Clube de Benefícios. Todas formavam o núcleo empresarial encarregado de transformar descontos indevidos em lucro privado para os cabeças do esquema. Nelas, o Careca tinha poder de decisão.

A Gestora Eficiente recebeu quase R$ 3 milhões de entidades como o Sindicato Nacional dos Aposentados, Pensionistas e Idosos (Sindnapi) — cujo vice-presidente é Frei Chico, irmão de Lula —, o Banco BMG e a seguradora Generali. A Esférica Assessoria, controlada por familiares de dirigentes sindicais, movimentou R$ 2,3 milhões no mesmo período. Já o escritório Pellegrino & Galleti Advogados, do advogado Carlos Afonso Galleti Júnior — marido de Tonia Galleti, coordenadora jurídica e filha do fundador do Sindnapi —, faturou R$ 3,2 milhões em contratos que a CPMI classificou como “de potencial conflito de interesses”.

Essas operações, cruzadas com planilhas da Controladoria-Geral da União (CGU), expuseram a interligação entre o núcleo sindical e o empresarial. Em meio ao vaivém de repasses, o Careca do INSS surgia como figura constante: indicava prestadores, redistribuía valores e mantinha influência sobre quem assinava os contratos. Era, segundo os investigadores, quem mantinha o negócio ativo.

Antunes também tinha acesso fácil aos corredores do poder. A CPMI descobriu que ele esteve no prédio do Ministério da Previdência Social, sob Carlos Lupi (PDT), em 13 de março de 2023, às 10h37, com saída registrada meia hora depois. O registro foi confirmado pela própria pasta, que admitiu não ter controle sobre os acessos pela garagem do edifício. Para os parlamentares da oposição, a visita demonstra que, mesmo sob suspeita, o lobista transitava em áreas estratégicas do Poder Executivo.

A influência de Antunes (principalmente com o PT), contudo, não começou agora. Na disputa presidencial de 2010, ele repassou R$ 5 milhões a uma publicitária que atuou na campanha de Dilma Rousseff — a petista venceria a eleição naquele ano. O episódio, à época, passou despercebido. Hoje, à luz das investigações da CPMI, reforça o retrato de um operador que sobrevive a diferentes administrações federais e se adapta ao poder de cada ciclo.

Gestora Eficiente recebeu quase R$ 3 milhões de entidades como o Sindicato Nacional dos Aposentados, Pensionistas e Idosos (Sindnapi) — cujo vice-presidente é Frei Chico, irmão do presidente Lula | Foto: Reprodução/PT

O cerco se fecha

Em oitivas da CPMI, o Careca foi citado repetidamente por várias testemunhas, a exemplo de Felipe Macedo Gomes, ex-presidente da Amar Brasil, e por representantes de clubes de benefícios que operavam com o núcleo empresarial. Todos apontaram o Careca como um dos líderes do esquema e alguém que também “sabe de muito”.

Durante as sessões, os congressistas descobriram que a Amar Brasil funcionava como uma operadora paralela, encarregada de captar dados de aposentados, processar descontos e repassar valores. Parte dessas quantias, de acordo com os cruzamentos da CPMI, seguia para companhias associadas diretamente ao Careca. O volume das movimentações colocou Antunes entre os principais alvos de quebras de sigilo e pedidos de prisão preventiva, aprovados pela CPMI em setembro de 2025, sob suspeita de lavagem de dinheiro, associação criminosa e corrupção passiva.

Os relatórios de movimentação financeira obtidos pela CPMI reforçaram o cerco. Eles mostram que o Careca participou de operações de alto valor incompatíveis com a renda declarada, levando auditores a classificá-lo como “operador financeiro de terceiros”. Em diversas transações, os mesmos beneficiários e empresas apareciam como destinatários de recursos desviados, confirmando o padrão de circulação de dinheiro no mesmo grupo de interesses.

Entre os requerimentos aprovados no mês passado, estava a quebra dos sigilos bancário e fiscal de Antunes e de outras 67 pessoas ligadas ao esquema. A CPMI priorizou a análise dos documentos relacionados ao Careca, por estar no centro da roubalheira, levando o relator da comissão, deputado Alfredo Gaspar (União Brasil-AL), a resumir o conteúdo da seguinte forma: “Transformaram os convênios em um grande balcão de negócios à custa do aposentado”.

Convocado a depor, em 24 de setembro, o lobista optou pelo silêncio, amparado por um habeas corpus (HC) concedido pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Ainda assim, notas fiscais, extratos e contratos analisados pela CGU foram suficientes para consolidar sua imagem como o verdadeiro operador do esquema — o homem que movimentava milhões sem jamais aparecer nos papéis. A CPMI avalia convocá-lo novamente. Por enquanto, o HC concedido pelo STF é o que impede a verdade de vir à tona.

Careca participou de operações de alto valor incompatíveis com a renda declarada, levando auditores a classificá-lo como “operador financeiro de terceiros” | Foto: Carlos Moura/Agência Senado

Leia também “Roubo permitido”

Leia mais sobre:

3 comentários
  1. Erasmo Silvestre da Silva
    Erasmo Silvestre da Silva

    Se querem que esse país se torne uma democracia o primeiro passo é fuzilar todos envolvidos na roubalheira dos aposentados e pensionistas. Mas não é só quem opera é todos envolvidos principalmente os que os defendem

  2. JOÃO RICARDO ASTOLPHI
    JOÃO RICARDO ASTOLPHI

    A pergunta que ninguém faz ou omite: qual a REAL intenção do stf em conceder HCs à esses intimados? Medo da verdade? Medo que algo chegue perto deles? Proteção ao desgoverno que apoiam? Quando a esquerdalha comemora alguma votação a favor. que blinde a os intimados, a confissão da culpa aparece rapidinho!

  3. orozimbo arthur de lima campos
    orozimbo arthur de lima campos

    Surreal. Estão sabendo que não serão reeleitos.então roubam tudo possível e imaginável, sem a menor vergonha
    .

Anterior:
É recebendo que se dá
Próximo:
Diplomacia Trumpiana: sorrisos e porretes
publicidade