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Foto: Júlia Xavier/Montagem Revista Oeste/Shutterstock
Edição 292

Pacifistas em transe

Chega de paz! Dê uma chance à guerra!

— Basta de ódio! Dê uma chance à paz!

— Bonita essa campanha. Você é de algum movimento social?

— Sim. Somos da ONG Cordialidade Digital.

— Bacana esse nome. E como vocês atuam?

— Nós perseguimos… Quer dizer: nós alertamos o público para postagens que vão contra a paz.

— Muito bom. De onde tem vindo a maior parte dessas afrontas à paz?

— Dos opositores do Lula. Eles apoiam as agressões à nossa soberania.

— Que horror. Aí vocês denunciam essas postagens.

— Mais que isso. Nós espalhamos pra nossa rede de jornalistas conscientes e eles fazem matérias contra os fascistas.

— Perfeito. E quando alguém se destaca defendendo os direitos humanos? Vocês divulgam também?

— Claro! É a nossa causa!

— Imagino que tenham difundido bastante o Prêmio Nobel da Paz recebido pela Maria Corina Machado.

— Infelizmente, ela abriu mão do prêmio.

— Ah, é? Não sabia. Ela renunciou à condecoração?

— Na prática, sim. Ela dedicou o prêmio ao Trump. Equivale a jogar no lixo, né?

— Mas isso anula a luta dela pelas vítimas da ditadura do Maduro?

— Tem muito teatro nisso aí.

— Teatro?! São quase mil presos políticos, fraude eleitoral, mortes e aniquilamento de opositores, miséria e êxodo em massa de venezuelanos…

— Você está muito amargo.

— Você acha?

— Acho. Está te faltando convivência com gente feliz como nós, da Cordialidade Digital.

— Como eu faço pra ser feliz como vocês?

— Faz o seguinte: aparece na nossa próxima reunião. Pode falar que eu te convidei. Vão te receber como um rei.

— Poxa, obrigado. Sem querer abusar: como é essa reunião?

— Imagina, não abusa em nada. Transparência é o nosso lema. A gente se reúne num salão bacana com vista pro mar e o bufê é super saudável.

— Bufê?

— Ah, e as poltronas… Meu amigo, se você afunda numa poltrona daquelas, não quer sair de lá nunca mais.

— Entendi. Conforto é bom, né? A ONG de vocês deve ser grande.

— Recursos para a solidariedade nunca faltam, companheiro.

— Sem dúvida. E a pauta?

— Que pauta?

— A temática da reunião.

— Ah, isso a gente vê na hora.

— Sei. Não tem propriamente uma linha de ação.

— Linha de ação a gente começa a procurar depois do almoço, que saco vazio não fica em pé, ahahaha.

— É verdade. E antes do almoço?

— Antes do almoço, a gente se encontra, se abraça e confraterniza. É assim que a gente consegue essa felicidade que você não tem.

— Opa. Não vejo a hora.

— Não vê e vai continuar não vendo. Lá a gente não usa relógio.

— Deve ser relaxante.

— Altamente relaxante.

— A paz interior pra lutar pela paz exterior.

— Você tá pegando o espírito. Mas não fica achando que é uma luta fácil. O mundo está muito violento.

— Pelo menos conseguiram um acordo na Faixa de Gaza, né?

— Acordo? Que acordo?

— Ué? Não negociaram um cessar-fogo lá?

— Quem negociou?

— O Trump.

— Meu caro, aprende uma coisa: se o Trump consegue um cessar-fogo, nós somos a favor do fogo. Ficou claro?

— Claríssimo. Mas dá pra ser contra o cessar-fogo e a favor da paz?

— Chega de paz! Dê uma chance à guerra!

Ilustração: Feito por IA/Shutterstock

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2 comentários
  1. Leonardo de Almeida Queiroz
    Leonardo de Almeida Queiroz

    Já imaginaram uma conversa assim informal entre o Fiuza e o Xandão, numa sala fechada,sem martelo de juiz nem sentença nem PF esperando lá fora?kkkkkk

  2. Luiz Fraga
    Luiz Fraga

    Que se danem os fatos, a coerência e a honestidade intelectual. Tudo se resume a um coisa só : “money”!

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