O cessar-fogo entre Israel e o Hamas, assinado na segunda-feira, 13, reacendeu a esperança de tempos menos sombrios para o Oriente Médio e a humanidade. Trata-se de um avanço significativo, embora a história e a realidade desautorizem excesso de otimismo. Com o vácuo deixado pelo recuo programado do exército israelense, o Hamas passou a executar adversários e confrontar facções rivais na luta pelo poder em Gaza.
Desde 7 de outubro de 2023, quando o grupo terrorista empreendeu um ataque massivo a Israel, o conflito foi tema diário dos noticiários. Da mesma forma, a partir de 24 de fevereiro de 2022, data em que a Rússia invadiu a Ucrânia, dando origem a uma guerra cujo desfecho ainda é imprevisível, houve intensa cobertura. Em ambos os casos, a imprensa e as redes sociais abasteceram o público de informações e análises, ainda que muitas delas contaminadas por ideologia, distorções e ódio.
A despeito de sua importância na geopolítica global e do eventual peso de suas consequências para a civilização, os embates Ucrânia x Rússia e Israel x Hamas são apenas dois entre tantos em andamento. Num mundo que jamais conheceu um dia sequer de paz desde que se tem registro, milhões de pessoas são vítimas de guerras esquecidas. Sem potencial para deflagrar crises de longo alcance, ou protagonizadas por países ou etnias consideradas menos relevantes no xadrez internacional, seguem fazendo vítimas, arrasando territórios e provocando crises humanitárias com migrações em massa.
O Sudão é um dos tantos países conflagrados que andam sumidos do noticiário. Dois generais, um com o apoio do Exército regular, outro com o das Forças de Apoio Rápido, grupo paramilitar, disputam o poder desde 2023 e já causaram a morte de dezenas de milhares de pessoas. O comando do país jamais foi questão resolvida desde a queda do ditador Omar al-Bashir, em 2019, depois de 30 anos no poder. Possessão britânica — com apoio do Egito — até 1956, o Sudão independente nunca conheceu a paz.

Depois de longa guerra civil entre o norte, de maioria muçulmana, e o sul, majoritariamente cristão ou animista, um referendo realizado em 2011 levou à divisão do país, com a criação do Sudão do Sul. Mas a paz não veio. Dois anos depois, eclodiu novo conflito, que durou até 2018 e deixou centenas de milhares de mortos e milhões de refugiados. O governo de al-Bashir também foi responsável pelo genocídio na região de Darfur, com assassinatos e estupros em massa e êxodo forçado da população.
Há vários focos de tensão na África. Em junho deste ano, em sua jornada de mediação de conflitos, Donald Trump ajudou a encaminhar um acordo para o fim das hostilidades entre Congo e Ruanda, mas há dúvidas se o “tratado maravilhoso”, na definição do presidente norte-americano, será capaz de resolver o problema. Os dois países africanos se acusam mutuamente de apoiar rebeldes que promovem ataques no território do outro.
A tensão acentuou-se logo depois do genocídio ocorrido em Ruanda em 1994 (veja box abaixo), que provocou a migração em massa de integrantes da etnia hutu para o Congo. De lá para cá houve guerra, período de paz e, mais recentemente, a intensificação das ações de rebeldes que levaram à crise atual, com milhares de mortos e refugiados.
O Congo foi colônia da Bélgica — por longo período conhecido como Congo Belga — e experimentou um dos mais notórios genocídios do século 20. Ruanda foi colônia da Alemanha e depois esteve sob controle da Bélgica. A exemplo do que ocorre no Sudão, no Congo e em Ruanda, conflitos em ex-colônias são um problema recorrente. Quando vem a independência, muitas vezes os colonizadores se retiram, deixando para trás grupos movidos por um ódio irreconciliável a ocupar o mesmo território.

A Nigéria, colônia britânica do final do século 19 até 1960, passou por uma guerra civil entre 1967 e 1970, numa tentativa de separatismo da região sudeste do país, que se proclamou como República de Biafra. A população é de maioria muçulmana, embora haja também grande número de católicos. Os muçulmanos vivem predominantemente no norte do país, onde vários estados implementaram a sharia. O país experimentou uma série de conflitos entre os praticantes das duas religiões.
Nos últimos anos, o principal protagonista da violência tem sido o grupo terrorista Boko Haram — cujo nome significa algo como “a educação ocidental é proibida” —, secundado pelo Estado Islâmico da África Ocidental. No início de setembro, um ataque do Boko Haram deixou mais de 60 mortos. Além dos radicais, o país enfrenta ainda eventuais disputas entre centenas de etnias e a ação de gangues. A crise humanitária se agrava, com a fome batendo à porta e centenas de milhares de pessoas tendo de se deslocar para fugir da violência.
Na Síria, que formalmente nunca foi colônia, apenas esteve sob mandato francês — administração temporária — depois da Primeira Guerra Mundial, uma série de protestos no início de 2011, reprimida com violência pelo governo de Bashar al-Assad e impulsionada por uma onda de protestos em países vizinhos durante a Primavera Árabe, levou a uma guerra civil que se estendeu até o final de 2024, quando o ditador se refugiou na Rússia, pondo fim a um ciclo de mais de 50 anos da família al-Assad no poder.
No auge, envolveram-se no conflito — em maior ou menor escala — países que apoiavam Bashar al-Assad, como Rússia e Irã, além dos terroristas do Hezbollah, e outros a favor da oposição, como Arábia Saudita, Catar, Turquia, Jordânia, Estados Unidos, Reino Unido, França e Israel. Um ano depois da queda do ditador, o país não está livre da violência.
Em março deste ano, centenas de pessoas da minoria alauíta — que apoiava al-Assad — foram mortas em ataques atribuídos ao governo do presidente Ahmed al-Shaara. Além disso, desde a queda do ex-ditador, Israel tem lançado ataques à Síria na tentativa de impedir que o arsenal do país caia nas mãos das novas autoridades muçulmanas. O conflito é mediado pelos EUA. Tecnicamente, Síria e Israel estão em guerra desde 1967.
Muitos outros países estão metidos em algum tipo de guerra, externa ou civil. O Iémen vive às voltas com a disputa entre os rebeldes houthi e o governo iemenita, também com um movimento separatista, perseguição a cristãos, entre outros imbróglios. A morte e a mutilação de crianças têm sido a face mais triste deste cenário. Infelizmente, esta é uma sequela de conflitos em vários outros países. Na guerra civil de Mianmar, em andamento desde 2021, estima-se que quase 15 mil crianças já foram vítimas dos embates, enquanto cerca de 1,5 milhão de pessoas tiveram de deixar suas casas.

A Somália também enfrenta uma guerra civil que já dura mais de três décadas, enquanto a região do Sahel, no norte da África, sofre com a atuação de vários grupos rebeldes. O Sahel inclui partes de dez países: Burkina Faso, Chade, Eritreia, Etiópia, Mali, Mauritânia, Níger, Nigéria, Senegal e Sudão. A situação é mais complicada em Burkina Faso, onde se enfrentam forças oficiais e rebeldes islâmicos.
Brigas por territórios e riquezas naturais, confrontos provocados por diferenças étnicas, religiosas ou culturais, seja qual for o motivo, as guerras sempre estiveram presentes no dia a dia da humanidade. A primeira de que se tem registro foi travada entre as cidades de Lagash e Umma em torno de 2.500 a.C. na Mesopotâmia — na parte que hoje é o sul do Iraque —, motivada pela disputa por terras férteis fronteiriças. Desde então, e provavelmente muito antes disso, o mundo nunca teve paz.
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Quem está de fora não enxerga a dimensão dos problemas existentes na África. Mas de uma coisa é certa, os países comunistas só apoiam o que é paradoxal em matéria de paz no mundo
Bela aula de História e bela aula “atividades que o ser humano não deveria fazer”. Infelizmente quase sempre estes conflitos são iniciados por pessoas com determinados poderes mas pouca inteligência. Quase sempre os inteligentes não estão colocados em posições de liderança. Maioria das vezes não estão por vontade própria…….
Fica claro que para a África o período colonial foi uma benção.