publicidade
Biosferianos: Jane Poynter, Linda Leigh, Mark Van Thillo, Taber MacCallum, Roy Walford (na frente), Abigail Alling, Sally Silverstone e Bernd Zabel posando dentro da Biosfera 2 em 1990. O filme Spaceship Earth conta a história deles | Foto: Neon/Divulgação
Edição 289

Imagem da Semana: A utopia da Biosfera 2

Oito voluntários ficaram dois anos confinados e isolados do mundo exterior em uma espécie de Terra em miniatura

Em 26 de setembro de 1991, oito voluntários — quatro homens e quatro mulheres vestidos com macacões vermelhos — ingressaram em um experimento no qual ficaram confinados em uma redoma de vidro vedada e autossuficiente ao longo de dois anos. O projeto, que pretendia funcionar como uma réplica do ecossistema terrestre, foi chamado de Biosfera 2 (a Biosfera 1 seria o próprio planeta Terra).

Para John Polk Allen, inventor e diretor da Biosfera 2, o objetivo não era praticar ciência de maneira rigorosa, mas sim aprender como fazer uma biosfera que garantisse a sobrevivência dos ocupantes humanos em ambiente extraterrestre. “Se queremos ir para a Lua e para Marte, precisamos descobrir como construir uma biosfera”, disse Allen no documentário Spaceship Earth. A pesquisa envolvia várias áreas de conhecimento: agricultura, engenharia, design, tecnologia e ecologia.

John Allen, inventor da Biosfera 2 e fundador do Synergia Ranch, com duas biosferanas, Abigail Allay e Linda Leigh | Foto: Divulgação

A instalação era colossal — ocupava uma área de 200 mil metros cúbicos. Foi financiada pelo bilionário e filantropo do petróleo Edward Bass e construída no meio do deserto do Arizona entre os anos de 1987 e 1991. O custo inicial foi de US$ 150 milhões. A estrutura em forma de pirâmides de vidro, com cúpulas geodésicas, que parecia ter saído de um filme de ficção científica, incluía um total de três mil espécies de animais e plantas cuidadosamente selecionadas. Cinco biomas foram reproduzidos dentro da Biosfera 2: deserto, florestas tropicais com cachoeiras, savanas, pântanos de água doce e salgada e até um minioceano com recifes de corais vivos. Havia também manguezais e uma área de agricultura.

Os oito biosferanos entraram no exemplar de miniplaneta Terra em clima de missão espacial e sob os holofotes da imprensa. Precisavam sustentar a vida dentro da bolha sem a poluir. Cultivavam o que comiam, reciclavam sobras residuais e faziam anotações de todos os dados que coletavam. No grupo havia biólogos, botânicos, especialistas em solo, em agricultura e um médico. Mas estavam longe de serem cientistas. Segundo uma matéria do The Guardian, estavam mais para um grupo de hippies em um experimento de lockdown. Vários voluntários e membros da tripulação estiveram envolvidos — antes e durante a pesquisa — com o Synergia Ranch, uma comunidade fundada por Allen no Novo México. Praticavam budismo, teatro e tentavam emplacar ideias aleatórias, como simular o conceito de uma “Nave Espacial Terra”, metáfora de que o nosso planeta funciona como uma nave isolada no espaço. Este conceito inspirou a Biosfera 2.

Foto do lago da Biosfera 2, em Tucson, Arizona, em 2014 | Foto: Jo Hunter/Shutterstock
A Biosfera 2 é uma instalação de pesquisa científica de sistemas terrestres de propriedade da Universidade do Arizona desde 2011 | Foto: Shutterstock
A Biosfera 2 pertence à Universidade do Arizona desde 2011. Tornou-se uma instalação de pesquisa científica de sistemas terrestres | Foto: Shutterstock

Com o tempo, a situação dentro da minibiosfera começou a ficar degradante. Os desafios operacionais eram grandes, alimentos começaram a faltar, brigas internas dividiram o grupo e uma explosão de formigas e baratas tomou conta das instalações. Para piorar, faltando alguns meses para o fim do experimento, o nível do oxigênio começou a cair. Inúmeros animais morreram e os oito voluntários estavam sendo sufocados. Foi preciso bombear oxigênio para dentro da estrutura e, assim, a regra da autossuficiência foi quebrada. Mais tarde, descobriram que micróbios no solo passaram a produzir dióxido de carbono a uma taxa maior do que as plantas, ainda jovens, conseguiam produzir oxigênio por meio da fotossíntese. 

A Biosfera 2 acabou sendo uma das experiências humanas mais controversas do século 20. Alguns consideram-na um projeto ambicioso e pioneiro, com lições importantes sobre a fragilidade e interconexão dos sistemas de vida da Terra. Outros acreditam que foi um grande circo, sem muita credibilidade e o resultado foi um fracasso épico. A cobertura da imprensa foi negativa e o sensacionalismo distanciou o projeto de uma pesquisa científica de fato. O aprendizado, de modo geral, foi pouco aproveitado. A missão na Biosfera 2 terminou em 26 de setembro de 1993.

Os oito voluntários posam para foto dentro da Biosfera 2, em 1991 | Foto: Divulgação

Daniela Giorno é diretora de arte de Oeste e, a cada edição, seleciona uma imagem relevante na semana. São fotografias esteticamente interessantes, clássicas ou que simplesmente merecem ser vistas, revistas ou conhecidas.

Leia também “Imagem da Semana: Acordo de Oslo”

Leia mais sobre:

2 comentários
  1. Erasmo Silvestre da Silva
    Erasmo Silvestre da Silva

    Isso não é exagero de pretensão Isso é a maior imbecilidade que eu vi na minha vida. Se o homem não compreende a estrutura da terra, como seria capaz de fazer uma segunda terra?

  2. Luciana Costa
    Luciana Costa

    Muito interessante e curiosa essa matéria mas parece que faltou uma conclusão. Ficou no ar as consequências, o que se tirou de bom e ruim dessa experiência e se haverá outra tentativa.

Anterior:
Ovelhas, cordeiros e marradas
Alexandre de Moraes, Luiz Roberto Barroso, Dias Toffoli e Gilmar Mendes | Foto: Valter Campanato/Agência Brasil Próximo:
A crise veste toga
publicidade