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Ilustração: Shutterstock/Feito por IA
Edição 289

A escola sem professores

Experiência inédita à base de inteligência artificial faz sucesso nos EUA

A educação no Brasil está uma vergonha. Os índices de proficiência básica em matemática, leitura, ciências estão muito abaixo da média mundial. Segundo a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), o Brasil tem 24% de NEET (Not in Employment, Education or Training, que significa “jovens que nem trabalham, nem estudam”, os chamados “nem-nem”). A média mundial é de 14%.

A grande maioria de nossas escolas está presa a métodos ultrapassados de ensino, com ênfase no poder do professor. Sindicatos impedem qualquer debate mais profundo, preocupados apenas em manter seus empregos. Pior: nosso sistema de ensino, com raras exceções, virou uma máquina de doutrinação esquerdista.

Por tudo isso, para os brasileiros a ideia da Alpha School, criada em Austin, no Texas, parece ter vindo de outra galáxia. Seu lema: “Uma escola onde as crianças arrasam nos estudos em duas horas, desenvolvem habilidades de vida por meio de workshops e prosperam além da sala de aula”.

“Por que eu tenho que aprender isso?”

A co-fundadora (e porta-voz) da Alpha, MacKenzie Price, confessou que uma das suas maiores motivações para criar a Alpha foi a de que odiava a escola onde estudava. “Fui uma boa aluna, mas estava sempre levantando o braço para perguntar: por que eu tenho que aprender isso? No que vai me ajudar no futuro?” São perguntas que não estamos acostumados a fazer no Brasil.

A cofundadora (e porta-voz) da Alpha, MacKenzie Price | Foto: Divulgação

Na Alpha Austin (Texas), estudantes de 10 a 12 anos administram, como parte do currículo a “Lil’ Dippers”, um food truck de verdade. Segundo um dos alunos, “nosso objetivo é alcançar US$ 1 mil de receita até o final do ano letivo. Estamos aprendendo habilidades financeiras do mundo real de como gerenciar um business completo”. Não é o tipo de coisa que os nossos filhos costumam dizer quando estudam no ensino básico.

O Lil’ Dippers busca seu lucro atendendo a clientes em eventos. Cada aluno passa por todas as etapas do negócio, de preparar a comida a administrar o caixa. Os monitores adultos se mantêm afastados o maior tempo possível, para que as crianças aprendam entre si.

Alunos de 5º e 6º ano administram um food truck

No vídeo a seguir as crianças são ainda mais jovens, de seis anos. Elas interagem com uma IA para aprender sobre habitats. Uma das alunas diz que nem sabe escrever ainda, mas já aprendeu a usar o microfone para fazer perguntas ao aplicativo. Estão aprendendo não só sobre habitats, mas também como usar o mais poderoso instrumento de educação já criado.

Duas horas por dia

“A escola tradicional está falida”, deixa claro MacKenzie Price. “Está ultrapassada, cheia de tarefas e infelizmente geralmente significa para nossas crianças uma perda de tempo”. As aulas da Alpha duram apenas duas horas por dia. Sem professores humanos, mas com IAs tutoras. Segundo Price, o aluno aprende nessas duas horas mais que o dobro do que aprenderia em seis horas numa escola convencional.

Um fator que deixa os estudantes satisfeitos: o tempo que ganham. “Eles passam duas horas por dia estudando as matérias. O resto do dia escolar é usado para desenvolver habilidades para a vida, como liderança, trabalho em equipe, falar em público, educação financeira, empreendedorismo e socialização” — como no food truck.

As duas horas de IA são geralmente divididas em quatro blocos de 25 minutos (matemática, ciência e estudos sociais, linguagem e escrita, leitura) e mais 20 minutos de conceitos adicionais de ensino. O próprio aluno acompanha sua evolução através de gráficos. Outra vantagem das IAs tutoras: “Elas não se importam se o aluno é negro, branco ou pardo, não se importam se é rico ou pobre, se tem as maiores ou menores notas. São infinitamente pacientes”.

“Tire o professor da frente da classe”

O uso da inteligência artificial não é o único aspecto revolucionário proposto pela Alpha. A outra base desse método, contada por MacKenzie Price, pode chocar os mais tradicionalistas (e os barões sindicais): “Você tem que tirar o professor da frente da classe”.

Dez anos depois do início da experiência, a conclusão da Alpha é que um professor não pode dar lições individuais a cada aluno numa classe com mais de 20 alunos. Mas uma IA tutora pode. “(A inteligência artificial) é capaz de colocar um estudante no nível certo e fornecer a ele um plano individualizado que aumenta sua confiança e mostra que ele tem habilidade de aprender”.

A IA não exige do aluno o que ele ainda não está capacitado a aprender. Esse é um problema que leva alunos a ficarem atrasados numa classe e serem reprovados. Professores humanos não conseguem coordenar a evolução individual de dezenas de alunos ao mesmo tempo. “Aprendendo com uma IA tutora o aluno recebe um ensino individualizado que o permite aprender no seu ritmo dentro do seu nível”

Em alguns casos (cerca de 10%, segundo MacKenzie Price), o método não funciona. Às vezes o aluno não se dá bem com o aplicativo e aí recebe uma atenção especial para se adaptar ao método. Acontece também de os pais não se adaptarem ao método, criando um conflito no aluno. Esses talvez sejam os casos de se optar por um ensino convencional, com professor humano.

Outra vantagem: os pais não precisam esperar uma chamada da diretora para avisar que seu filho está indo mal (ou bem) na escola. Os gráficos e planilhas de informações de aproveitamento ficam disponíveis para consulta on-line.

Sala de aula da escola Alpha | Foto: Divulgação

A aprovação de Donald Trump

Não há lugar para professores humanos na Alpha? MacKenzie Price esclarece: “Na Alpha School, os professores deixam de lado papéis tradicionais, como corrigir provas e preparar planos de aula, para se dedicar às necessidades emocionais e motivacionais dos alunos e ao ensino de habilidades para a vida. Essa transformação impactante libera os professores para orientar, motivar e treinar os alunos a se tornarem aprendizes autônomos”.

Nos EUA, como no Brasil, também existem sindicatos incomodados com qualquer possibilidade de mudança de paradigma. Randi Weingarten, presidente da Federação Americana de Professores, declarou ao New York Times: “Os estudantes e o nosso país precisam se relacionar com outros seres humanos. Quando se tem uma escola estritamente baseada em IA, isso viola o princípio central do esforço humano e da educação”. Weingarten provavelmente não assistiu ao vídeo dos alunos da Alpha interagindo no food truck. Ou não quis ver.

A visão estreita da Federação Americana de Professores encontrou um adversário de peso: o presidente Donald Trump, que no dia 23 de abril deste ano lançou a Ordem Executiva “Promovendo a Educação em Inteligência Artificial para os Jovens Americanos”.

Trecho: “Ao promover a competência em IA, capacitaremos nossos alunos com o conhecimento e as habilidades fundamentais necessárias para se adaptar e prosperar em uma sociedade cada vez mais digital. O aprendizado precoce e a exposição a conceitos de IA não apenas desmitificam essa poderosa tecnologia, mas também despertam curiosidade e criatividade, preparando os estudantes para se tornarem participantes ativos e responsáveis da força de trabalho do futuro”.

Instrumentos para a vida

“O ensino de duas horas na Alpha School não se trata apenas de acelerar a aprendizagem”, afirma MacKenzie Price. “Damos aos estudantes os instrumentos para se tornarem aprendizes para o resto da vida, pensadores críticos e indivíduos capacitados. Ao estudar apenas duas horas por dia, eles têm mais tempo para desenvolver habilidades fundamentais, descobrir suas paixões e curtir sua infância”. 

A Alpha School está funcionando ou sendo implantada em 16 cidades americanas no Texas (onde foi criada), na Califórnia, no Arizona, na Flórida, na Carolina do Norte, em Washington DC e em Nova York. Os cursos vão do jardim de infância até, em alguns casos, o fim do ensino médio. Os preços variam entre US$ 10 mil (R$ 53,2 mil) e US$ 75 mil (R$ 400 mil). Existe também uma opção de curso remoto — o Alpha Anywhere.


dagomirmarquezi.com
@dagomirmarquezi

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4 comentários
  1. gilson roberto cardoso de oliveira
    gilson roberto cardoso de oliveira

    Considerando que no ocidente em geral professores estão mais preocupados em CONVENCER os alunos de que estes nasceram no corpo “errado” que em transmitir conhecimento. Quanto menos contato crianças tiverem com professores sindicalizados melhor.

    1. Renato Perim
      Renato Perim

      Exatamente, Gilson, quanto mais os alunos frequentam a escola mais burros e incapazes de senso crítico eles ficam.

  2. Paulo Ferreira
    Paulo Ferreira

    Alo, alô, Dagomir,
    O link do YouTube está dando erro 153. Não consegui visualizar. No mais, seu artigo está ótimo, como sempre.

    1. Dagomir Marquezi

      Obrigado, Paulo! Vamos ver esse próximo YouTube.

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