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Deu no "Niu Iórque Táimes" | Foto: Montagem Revista Oeste/Shutterstock
Edição 288

Deu no Niu Iórque Táimes

"Falei que o nosso povo é soberano. Que nenhum gringo se atreva a dizer o que nós temos que fazer"

— Escrevi um artigo pro New York Times.

— Tá escrevendo em inglês agora?

— Que inglês, ignorante! Tá maluco?

— Mas o jornal não é americano?

— É. Mas eles traduzem.

— Pro inglês?

— Não. Primeiro traduzem pro português. Depois pro inglês.

— Muita gente envolvida, né?

— Tudo que eu faço tem muita gente envolvida. Gosto de gente.

— Faz muito bem. Mas o passeio em Nova York dessa vez parece que vai ser pra poucos, né?

— Isso foi uma decisão minha. Não quero expor a minha gente aos fascistas do Norte.

— Tá perigoso mesmo. Muita violência. Dizem até que vão combater o crime organizado aqui no Sul.

— Bravata. Do nosso quintal cuidamos nós.

— Escreveu isso no New York Times?

— Claro. Falei que o nosso povo é soberano. Que nenhum gringo se atreva a dizer o que nós temos que fazer.

— Nem se for chinês?

— Chinês pode. Mas não qualquer chinês.

— Tem que ser de confiança.

— Você é sagaz. Exatamente isso. Confiança é tudo.

— Por isso o companheiro Xi governa com tranquilidade.

— Só tem gente de confiança à sua volta.

— É questão de saber escolher.

— E de saber eliminar.

— Como assim?

— Esquece.

Xi Jinping, presidente da República Popular da China | Foto: Shuttertock

— Essa parte entrou no artigo do New York Times?

— Não.

— Por quê?

— Não deu tempo.

— Eles te pressionaram pra entregar logo?

— Até que não. Mas imagina ter que traduzir isso pro companheiro Xi? Até o pessoal dele corrigir o texto, o Trump já estaria em Roraima.

— Depois do seu artigo matador ele não vai mais se meter com o Brasil.

— Não mesmo. Ele entendeu direitinho o recado. A gente acaba com o dólar em dois tempos.

— Basta infiltrar o Haddad no Federal Reserve.

— Nada disso. Deixa o Haddad aqui que ele tá indo bem. Vai que ele toca violão na TV de lá e eles descobrem o nosso segredo?

— A nossa arrecadação despencaria imediatamente.

— Entendeu? E a deles subiria. Iam taxar até a Estátua da Liberdade.

— Liberdade tem que ser taxada mesmo.

— Ainda mais liberdade de estátua, que não serve pra nada.

— Supérfluo.

— Exatamente. Só que a tecnologia de taxar até pensamento é nossa. Não podemos deixar isso vazar. Segredo de Estado.

— Seria uma ameaça à nossa soberania.

— O Haddad é nosso!

— Escreveu isso no New York Times?

— Nem precisou. Com o que eu botei lá o Trump já ficou p*#@to. Tá processando o jornal.

— Acho que o processo do Trump contra o NYT é por outro motivo.

— Dane-se. Eu espalho que é por minha causa e todo mundo acredita.

— Todo mundo acredita no que você fala.

— Não é maravilhoso, isso? Eu sou um cara escolhido.

— Pode dizer as maiores barbaridades que a imprensa continua puxando o seu saco.

— Barbaridades?

— Barbaridades no bom sentido.

— Ah, tá.

— E a COP30? Será que o Trump vem?

— Convidei.

— Ligou pra ele?

— Não. A fila no orelhão tava grande. Mandei uma carta.

— E se ele vier?

— Será muito bem recebido. Já tem até faixa pra saudá-lo no aeroporto.

— O que vai estar escrito nessa faixa?

Fuck you.

— Ahahaha. Gênio!

— Não me considero um gênio. Sou só um cara esperto.

— Oswaldo Aranha ficaria orgulhoso.

— Não me fala em picanha pelo amor de Deus.

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7 comentários
  1. Aeduardo
    Aeduardo

    Fiúza é… como irei definir?
    Tentarei classificá-lo na caneta como uma temida arma da guerra. Mais ou menos como os B2 americanos!
    Furtivo, longo alcance e terrivelmente matador! 😁

  2. Sueli Itaboray
    Sueli Itaboray

    Fiuza, você me dizer o que significa “transversalidade género-clima’?

    Será que o Gugu Dadá sabe?

    Aguardo comentário à noite.
    Rs

  3. James Cesar M A Souto
    James Cesar M A Souto

    É o primeiro guerreiro valente de teclado sem ao menos saber usá-lo. Inclusão digital de nosso líder é o futuro… do pretérito!

  4. Marco Sálvio Oton de Almeida Amaral
    Marco Sálvio Oton de Almeida Amaral

    Excelente crônica, diverte com fatos.

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