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Membro do grupo Setembro Negro sequestrou atletas da equipe olímpica israelense em Munique, no dia 5 de setembro de 1972. Ao todo 11 israelenses foram mortos pelos terroristas nas Olimpíadas de Verão em Munique | Foto: Wikimedia Commons
Edição 286

Imagem da Semana: Setembro Negro em 1972

Terroristas palestinos transformaram os Jogos Olímpicos de Munique em uma tragédia sem precedentes

Na madrugada do décimo primeiro dia dos Jogos Olímpicos de Munique, Alemanha, em 1972, oito terroristas palestinos do grupo Setembro Negro — braço da organização política e militar Fatah, criada por Yasser Arafat — invadiram a Vila Olímpica, mataram dois atletas israelenses e fizeram nove reféns. A polícia alemã foi pega de surpresa e estava despreparada para controlar a crise instalada. O resultado foi um massacre televisionado para o mundo inteiro, em tempo real.

Os terroristas, que haviam recebido treinamento no Líbano e na Líbia, foram liderados por Luttif Afif, conhecido como Issa, e seu vice Yusuf Nazzal. Duas pessoas do grupo já circulavam na Vila Olímpica semanas antes, inspecionando a área, disfarçados de funcionários. Às 4h30 do dia 5 de setembro — encapuzados e munidos de granadas, rifles AKM, pistolas Tokarev —, escalaram os dois metros de muro da Vila Olímpica e invadiram os dois apartamentos ocupados pelos atletas israelenses.

Última foto da delegação israelense antes do atentado em Munique, em 1972 | Foto: Domínio Público
Os 11 integrantes da delegação israelense assassinados | Foto: Divulgação

Yossef Gutfreund, um árbitro de wrestling (luta olímpica), acordou com o barulho da invasão. Tentou retardar a entrada dos intrusos e avisar os outros colegas que dormiam. Alguns conseguiram fugir. Moshe Weinberg, treinador, lutou contra os terroristas, deixou um deles inconsciente e outro ferido, mas acabou morrendo baleado na boca. O lutador Yossef Romano, veterano da Guerra dos Seis Dias, também lutou, deixou um ferido, mas foi morto logo em seguida.

Ao todo, os terroristas conseguiram fazer nove reféns: Kehat Shorr, Amitzur Shapira, Andre Spitzer, Eliezer Halfin, Yakov Springer, Mark Slavin (o mais novo deles, com 18 anos), David Berger (também cidadão americano), Ze’ev Friedman, além de Gutfreund. A exigência do Setembro Negro era a libertação de 234 detentos palestinos presos em Israel em troca dos nove atletas recém capturados. 

A tensão durou mais de vinte horas. O jornalista esportivo Jim McKay, da ABC Sports, estava nadando na piscina do hotel no seu único dia de folga durante os jogos e, assim que soube o que estava acontecendo, correu para o set. Acabou sendo responsável pela cobertura do primeiro ataque terrorista televisionado ao vivo. Jim ficou no ar pelas 16 horas seguintes. A tecnologia de televisão por satélite permitiu que cerca de um bilhão de pessoas ao redor do mundo assistissem à cena de terror que se desenrolava.

Jim McKay, jornalista esportivo, nas Olimpíadas de Verão de 1972, em Munique | Foto: Domínio Público

Depois de muita negociação com a polícia alemã, o grupo mudou suas exigências. Pediram aviões e helicópteros. Um Boeing 727 foi então separado para os terroristas com 17 policiais disfarçados de tripulantes da Lufthansa. A intenção era forjar uma armadilha para os terroristas assim que embarcassem, mas a polícia decidiu por unanimidade abandonar a ação. Às 22h30, os helicópteros com terroristas e reféns saíram da Vila Olímpica e pousaram no aeroporto de Fürstenfeldbruck. Seis terroristas ficaram com os nove atletas dentro dos helicópteros, enquanto Issa e o colega Yusuf Nazzal caminharam cerca de 170 metros dos helicópteros até o avião para inspecioná-lo. Estranharam a ausência de tripulação e suspeitaram de uma emboscada. Correram de volta para os helicópteros. 

Neste momento, sem receber ordens, um dos atiradores da polícia abriu fogo diversas vezes contra Issa e Nazzal enquanto corriam. Nazzal foi atingido e o caos foi instalado. Os demais policiais que ali estavam receberam ordens para atirar. Durante o tiroteio, um dos terroristas lançou uma granada contra um helicóptero, incinerando cinco atletas. Os outros quatro israelenses foram metralhados enquanto estavam sentados e amarrados no segundo helicóptero. Um policial alemão acabou sendo morto também. Cinco terroristas do Setembro Negro estavam mortos e três foram capturados. O massacre no aeroporto terminou por volta da meia-noite. O despreparo da polícia alemã foi abissal. Foram inúmeras falhas tanto no planejamento quanto na execução das ações. O resultado foi um desastre em praticamente todos os níveis.

McKay disse ao vivo: “Meu pai costumava dizer que ‘nossas maiores esperanças e nossos piores medos raramente se realizam’. Nossos piores medos se concretizaram esta noite. Disseram que havia onze reféns israelenses; dois foram mortos em seus quartos esta manhã. Nove foram mortos no aeroporto esta noite. Todos eles se foram.” A sentença final de Jim “Todos eles se foram (They’re all gone)” marcou a audiência que acompanhava o flagelo daqueles atletas.

Policiais alemães vigiam o prédio onde os israelenses foram feitos de reféns, na Vila Olímpica | Foto: Domínio Público

Na manhã seguinte, pela primeira vez na história, os Jogos Olímpicos foram suspensos por 24 horas, em homenagem aos atletas assassinados. O pódio do Estádio foi coberto de preto e as bandeiras de 122 nações tremulavam a meio mastro. Representantes dos países árabes não compareceram, além das delegações da União Soviética, Alemanha Oriental, Polônia e Iugoslávia. Os atletas israelenses sobreviventes estavam sentados na arquibancada ao lado de onze cadeiras vazias, homenageando seus companheiros de equipe mortos. Cerca de oitenta mil pessoas lotaram a arena e um silêncio ensurdecedor tomou conta do Estádio.

A história teve desdobramentos depois do massacre. Israel, sob ordens da primeira-ministra Golda Meir, realizou bombardeios aéreos contra posições de grupos palestinos na Síria e no Líbano, apenas dois dias depois da tragédia. A Alemanha criou uma unidade operacional antiterrorista que se tornou referência, chamada GSG 9.

Menos de dois meses depois, dia 29 de outubro, um Boeing 727 da Lufthansa a caminho de Damasco, Síria, para Frankfurt foi sequestrado por dois simpatizantes do Setembro Negro. Exigiam que os três atiradores terroristas sobreviventes de Munique fossem soltos. O governo alemão atendeu este pedido, apesar do protesto israelense. Os três terroristas foram entregues na Líbia, onde foram recebidos como “heróis da Operação Munique”. Golda Meir, então, criou a Operação “Cólera de Deus”, onde os três terroristas sobreviventes passaram a ser implacavelmente caçados pela Mossad. Dois deles foram assassinados e o terceiro, que conseguiu sobreviver a um atentado em 1981, morreu apenas em 2010 de falência renal.


Daniela Giorno é diretora de arte de Oeste e, a cada edição, seleciona uma imagem relevante na semana. São fotografias esteticamente interessantes, clássicas ou que simplesmente merecem ser vistas, revistas ou conhecidas.

Leia também “Imagem da Semana: As Garotas de Ormond Gigli”

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2 comentários
  1. Candido Andre Sampaio Toledo Cabral
    Candido Andre Sampaio Toledo Cabral

    Excelente coluna. Parabéns Daniela.

  2. Sueli Itaboray
    Sueli Itaboray

    Sensacional! Façam mais matérias como essa!
    É imoressionante o que uma foto é capaz de “contar”:
    Um fato histórico muito importante e que mudou todo um modo de lidar com momentos como esse.
    Parabéns.

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