Na madrugada do décimo primeiro dia dos Jogos Olímpicos de Munique, Alemanha, em 1972, oito terroristas palestinos do grupo Setembro Negro — braço da organização política e militar Fatah, criada por Yasser Arafat — invadiram a Vila Olímpica, mataram dois atletas israelenses e fizeram nove reféns. A polícia alemã foi pega de surpresa e estava despreparada para controlar a crise instalada. O resultado foi um massacre televisionado para o mundo inteiro, em tempo real.
Os terroristas, que haviam recebido treinamento no Líbano e na Líbia, foram liderados por Luttif Afif, conhecido como Issa, e seu vice Yusuf Nazzal. Duas pessoas do grupo já circulavam na Vila Olímpica semanas antes, inspecionando a área, disfarçados de funcionários. Às 4h30 do dia 5 de setembro — encapuzados e munidos de granadas, rifles AKM, pistolas Tokarev —, escalaram os dois metros de muro da Vila Olímpica e invadiram os dois apartamentos ocupados pelos atletas israelenses.


Yossef Gutfreund, um árbitro de wrestling (luta olímpica), acordou com o barulho da invasão. Tentou retardar a entrada dos intrusos e avisar os outros colegas que dormiam. Alguns conseguiram fugir. Moshe Weinberg, treinador, lutou contra os terroristas, deixou um deles inconsciente e outro ferido, mas acabou morrendo baleado na boca. O lutador Yossef Romano, veterano da Guerra dos Seis Dias, também lutou, deixou um ferido, mas foi morto logo em seguida.
Ao todo, os terroristas conseguiram fazer nove reféns: Kehat Shorr, Amitzur Shapira, Andre Spitzer, Eliezer Halfin, Yakov Springer, Mark Slavin (o mais novo deles, com 18 anos), David Berger (também cidadão americano), Ze’ev Friedman, além de Gutfreund. A exigência do Setembro Negro era a libertação de 234 detentos palestinos presos em Israel em troca dos nove atletas recém capturados.
A tensão durou mais de vinte horas. O jornalista esportivo Jim McKay, da ABC Sports, estava nadando na piscina do hotel no seu único dia de folga durante os jogos e, assim que soube o que estava acontecendo, correu para o set. Acabou sendo responsável pela cobertura do primeiro ataque terrorista televisionado ao vivo. Jim ficou no ar pelas 16 horas seguintes. A tecnologia de televisão por satélite permitiu que cerca de um bilhão de pessoas ao redor do mundo assistissem à cena de terror que se desenrolava.

Depois de muita negociação com a polícia alemã, o grupo mudou suas exigências. Pediram aviões e helicópteros. Um Boeing 727 foi então separado para os terroristas com 17 policiais disfarçados de tripulantes da Lufthansa. A intenção era forjar uma armadilha para os terroristas assim que embarcassem, mas a polícia decidiu por unanimidade abandonar a ação. Às 22h30, os helicópteros com terroristas e reféns saíram da Vila Olímpica e pousaram no aeroporto de Fürstenfeldbruck. Seis terroristas ficaram com os nove atletas dentro dos helicópteros, enquanto Issa e o colega Yusuf Nazzal caminharam cerca de 170 metros dos helicópteros até o avião para inspecioná-lo. Estranharam a ausência de tripulação e suspeitaram de uma emboscada. Correram de volta para os helicópteros.
Neste momento, sem receber ordens, um dos atiradores da polícia abriu fogo diversas vezes contra Issa e Nazzal enquanto corriam. Nazzal foi atingido e o caos foi instalado. Os demais policiais que ali estavam receberam ordens para atirar. Durante o tiroteio, um dos terroristas lançou uma granada contra um helicóptero, incinerando cinco atletas. Os outros quatro israelenses foram metralhados enquanto estavam sentados e amarrados no segundo helicóptero. Um policial alemão acabou sendo morto também. Cinco terroristas do Setembro Negro estavam mortos e três foram capturados. O massacre no aeroporto terminou por volta da meia-noite. O despreparo da polícia alemã foi abissal. Foram inúmeras falhas tanto no planejamento quanto na execução das ações. O resultado foi um desastre em praticamente todos os níveis.
McKay disse ao vivo: “Meu pai costumava dizer que ‘nossas maiores esperanças e nossos piores medos raramente se realizam’. Nossos piores medos se concretizaram esta noite. Disseram que havia onze reféns israelenses; dois foram mortos em seus quartos esta manhã. Nove foram mortos no aeroporto esta noite. Todos eles se foram.” A sentença final de Jim “Todos eles se foram (They’re all gone)” marcou a audiência que acompanhava o flagelo daqueles atletas.

Na manhã seguinte, pela primeira vez na história, os Jogos Olímpicos foram suspensos por 24 horas, em homenagem aos atletas assassinados. O pódio do Estádio foi coberto de preto e as bandeiras de 122 nações tremulavam a meio mastro. Representantes dos países árabes não compareceram, além das delegações da União Soviética, Alemanha Oriental, Polônia e Iugoslávia. Os atletas israelenses sobreviventes estavam sentados na arquibancada ao lado de onze cadeiras vazias, homenageando seus companheiros de equipe mortos. Cerca de oitenta mil pessoas lotaram a arena e um silêncio ensurdecedor tomou conta do Estádio.
A história teve desdobramentos depois do massacre. Israel, sob ordens da primeira-ministra Golda Meir, realizou bombardeios aéreos contra posições de grupos palestinos na Síria e no Líbano, apenas dois dias depois da tragédia. A Alemanha criou uma unidade operacional antiterrorista que se tornou referência, chamada GSG 9.
Menos de dois meses depois, dia 29 de outubro, um Boeing 727 da Lufthansa a caminho de Damasco, Síria, para Frankfurt foi sequestrado por dois simpatizantes do Setembro Negro. Exigiam que os três atiradores terroristas sobreviventes de Munique fossem soltos. O governo alemão atendeu este pedido, apesar do protesto israelense. Os três terroristas foram entregues na Líbia, onde foram recebidos como “heróis da Operação Munique”. Golda Meir, então, criou a Operação “Cólera de Deus”, onde os três terroristas sobreviventes passaram a ser implacavelmente caçados pela Mossad. Dois deles foram assassinados e o terceiro, que conseguiu sobreviver a um atentado em 1981, morreu apenas em 2010 de falência renal.
Daniela Giorno é diretora de arte de Oeste e, a cada edição, seleciona uma imagem relevante na semana. São fotografias esteticamente interessantes, clássicas ou que simplesmente merecem ser vistas, revistas ou conhecidas.
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Excelente coluna. Parabéns Daniela.
Sensacional! Façam mais matérias como essa!
É imoressionante o que uma foto é capaz de “contar”:
Um fato histórico muito importante e que mudou todo um modo de lidar com momentos como esse.
Parabéns.