— Ih… Vem chuva aí.
— Chuva? Onde?
— Ué? Tá cheio de nuvem carregada. Que eu saiba, nuvem vira chuva.
— Não estou vendo nuvem nenhuma. O céu está completamente azul!
— Ah, é? Vai dizer então que a grama também está completamente azul?
— Grama? Que grama? Aqui só tem asfalto e concreto.
— Que coisa… Como pode aquele beija-flor estar voando num lugar onde só tem asfalto e concreto?
— Não é um beija-flor. É uma mosca varejeira. E ela acaba de pousar no prato daquele velho.
— Velho?? É um adolescente!
— Adolescente de cabelo branco?
— Olha! Roubaram a carteira dele! Pega ladrão!
— Que ladrão? Quem está correndo ali é a polícia!
— O ladrão vai assaltar de novo!
— Não! Aquele é o defensor da vítima!
— Defensor nada! Já reconheci a figura. Roubou todo mundo e vai continuar roubando!
— É o contrário! Foi perseguido pelos criminosos, mas se salvou e voltou pra ajudar quem precisa.
— Olha lá o linchamento!
— Que linchamento?? Aquilo é uma aclamação!
— Estão arrastando o meliante!
— Estão carregando o herói nos ombros!
— Cuidado! Tem um fuzil na multidão!
— É um guarda-chuva. Vai chover mesmo!
— A polícia pegou o criminoso!
— Não! Foram os criminosos que pegaram um inocente!
— Estão interrogando.
— Estão torturando.
— Olha lá! O pit bull mordeu a criança!
— Nada disso. É um poodle! Está lambendo o menino.
— O menino está gritando de dor!
— O menino está gargalhando de alegria!
— Desisto. Você está vendo tudo pelo avesso.
— Você é que está.
— Eu já devia ter imaginado, desde aquela vez em que você me deu um calote e disse que foi roubado.
— Sei muito bem que quem me roubou foi você. E ainda gritou “pega ladrão!”
— Eu só ando dentro da lei.
— Eu defendo o estado democrático de direito.
— Chama o VAR.
— Melhor não.
Leia também “A República do Sigilo”




Ótimo Fiuza!!!
Desenrolando o delírio!!!