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Evo Morales conversa com membros do sindicato de cocaleiros antes das eleições gerais na Bolívia | REUTERS/Agustin Marcarian
Edição 284

Não chores por mim, Bolívia

Eleições colocaram fim a mais de 20 anos de predomínio da esquerda no país, sob a política de Evo Morales

Há quase 20 anos, pela primeira vez um líder sindical de origem indígena chegou ao poder na Bolívia. Evo Morales, com seu rosto arredondado e cabelos escuros e lisos, prometeu transformar o país em um Estado que promovesse justiça social e controle estatal sobre os recursos naturais.

Nas últimas eleições, em 17 de agosto, a promessa do cocalero se desfez em pó, na acachapante derrota de seu partido, o Movimento ao Socialismo (MAS), que nem passou para o segundo turno. Foi o fim do predomínio da esquerda na política local. “O MAS está em seu pior momento de crise, fragilizado, com tendências irreconciliáveis em vários casos, o que os levou a esse desgaste”, afirmou o sociólogo Juan Carlos Nuñez à Deutsche Welle — TV estatal alemã de abrangência global.

Natural da província de Chapare, onde atuam produtores de coca, Morales, com seu viés esquerdista, tentou se aproveitar da popularidade para alimentar o retrocesso. Perdeu a chance de dar estabilidade a um país que, desde o século 19, não consegue transformar suas riquezas minerais em fonte de prosperidade.

O país está imerso em uma crise econômica marcada por filas para a compra de pão, gasolina e dólares. Faltam produtos básicos e as receitas escassearam. O boom do gás natural e de outros recursos se desfez em função da mudança de interesse dos principais importadores. Projetos no Brasil (Pré-Sal) e Argentina (Vaca Muerta) reduziram as importações. As exportações de gás despencaram de US$ 6 bilhões em 2014 para cerca de US$ 2 bilhões em 2022. A Bolívia esvaziou sua “caixa forte” e começou a consumir as reservas.

Isso explica diretamente a queda brutal das reservas internacionais, já que era o gás que abastecia o Banco Central de dólares. A ilusão desse combustível fez as reservas saltarem de US$ 3,1 bilhões em 2006 para US$ 13 bilhões em 2014, só de moeda estrangeira. Com gastos excessivos que elevaram o déficit de 20% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2006 para assustadores 95% do PIB em 2025, as reservas beiram meros US$ 50 milhões em moeda estrangeira, enquanto a inflação subiu de 4% para 24% ao mês.

O chamado “milagre econômico” de Morales, 65 anos, transformou-se em ilusão. Não havia mais espaço para canalizar bilhões em obras públicas de eficiência duvidosa. A popularidade de Morales começou a se esvair, inclusive dentro de seu partido, e a máscara de herói caiu, expondo uma feição egocêntrica.

Tudo com o padrão clássico da esquerda: armar falsas democracias que escondem interesses tirânicos de um ditador e do grupo que o bajula. No auge do poder, Morales rasgou a antiga Constituição para se manter no cargo. Já prevendo a derrocada econômica, iniciou manobras institucionais que culminaram na queda política.

Em 2009, aprovou uma nova Constituição que lhe permitia uma reeleição adicional. Venceu e permaneceu. Era seu terceiro mandato, mas o presidente queria mais. Organizou um referendo popular para aprovar reeleições indefinidas. O povo votou contra. Morales contestou e foi ao Tribunal Constitucional, que autorizou reeleições sem limite, permitindo que concorresse em 2019. No entanto, uma revolta popular o obrigou a renunciar.

Ordem de prisão

A eleição do atual presidente, Luis Arce, também do MAS, ocorreu depois da renúncia de Morales em 2019 e do governo interino de Jeanine Áñez, de direita, que acabou presa, acusada de terrorismo nas manifestações. Arce venceu prometendo a continuidade do projeto de Morales, com quem, no entanto, rompeu. Morales se sentiu traído ao ver o companheiro não protestar por ele.

Com o partido rachado, o caos econômico se transferiu para a política. O resultado não poderia ser outro: a esquerda ficou no limbo nas últimas eleições.

O primeiro colocado no turno inicial foi o senador Rodrigo Paz, do Partido Democrata Cristão, com quase 32% dos votos, alcançados com baixo investimento e partindo de apenas 3% de intenção de voto no início de 2025. Sua ascensão ocorreu principalmente nas últimas duas semanas, como opção dos indecisos, algo que as pesquisas não tiveram tempo de captar.

“Precisamos fazer uma transformação para que a economia seja nossa e não do Estado”, afirmou Paz, depois de saber que estava no segundo turno.

Paz terá como adversário o ex-presidente Jorge Quiroga, membro do grupo direitista internacional Iniciativa Democrática de Espanha e das Américas (Idea), do ex-primeiro-ministro espanhol José María Aznar e dos ex-presidentes Iván Duque, Colômbia, e Mauricio Macri, Argentina, entre outros. Quiroga obteve mais de 27% dos votos, suficiente para avançar ao segundo turno.

O empresário Samuel Doria Medina, que liderava as pesquisas, conseguiu apenas 20%. O candidato do MAS, Eduardo del Castillo, obteve cerca de 3%, enquanto Andrónico Rodríguez, presidente do Senado e apoiado por parte da esquerda dissidente, alcançou aproximadamente 8%. Evo Morales fez campanha pelo voto nulo, que subiu de 4% para 19%.

Impedido de participar, Morales só não está preso porque as autoridades querem evitar um banho de sangue em eventual confronto com a legião de apoiadores que o protegem, em seu refúgio em Chapare. Há uma ordem de prisão contra ele, acusado de estupro de uma adolescente de 15 anos em Yacuiba, em 2016, quando tinha 56 anos. Essa ordem não foi cumprida porque o ex-presidente está protegido por uma guarda disposta a se sacrificar por seu líder.

Tráfico de drogas

O acuado Morales também acumula uma série de denúncias de corrupção no governo. Há acusações contra dirigentes do Fondo Indígena (Fondioc) por desvio de centenas de milhões de dólares em obras fantasmas e contratos fraudulentos. A concessão de contratos da estatal YPFB (petróleo e gás) a aliados políticos provocou prisões de executivos, acusados de receber propina. Multiplicaram-se denúncias de uso de recursos públicos e de estatais para fortalecer a base política do MAS, favorecendo empresas aliadas.

Para piorar, a política de Morales fortaleceu o tráfico de drogas na Bolívia. Ele permitiu o aumento da área de plantio de coca, garantindo que não haveria expansão da produção de cocaína. Mas a situação fugiu do controle.

Apesar das intenções declaradas de Morales em legalizar o uso tradicional da coca e coibir a produção de cocaína, seu governo acabou fortalecendo o tráfico. O cultivo de coca cresceu para 25 mil hectares em 2019, cerca de 17% da área global, e a produção potencial de cocaína atingiu 113 toneladas, equivalentes a 10% da produção mundial, segundo o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC).

Em regiões como Yungas e Chapare, a situação é crítica. O chamado Cartel de Chapare se tornou aliado de organizações internacionais. O Primeiro Comando da Capital (PCC) estabeleceu uma base operacional na área e adquiriu propriedades para facilitar o transporte de cocaína para o Brasil, segundo o InSight Crime, ONG norte-americana.

É nesta região que Morales está entrincheirado, acompanhando a derrocada da esquerda e o ressurgimento da direita em um país que, desde sua independência em 1825, busca estabilidade. A crise que antecedeu a eleição se assemelha à de 2003, quando o ex-presidente Gonzalo Sánchez de Lozada renunciou por causa da insatisfação popular.

Neste momento, o destino do país não parece ser a maior preocupação de Morales. Seu discurso esquerdista se mostrou mais direcionado a interesses pessoais. Agora, com a crise provocada por sua política, ele não está mais protegido. Qualquer que seja o vencedor no segundo turno, em 19 de outubro, Morales assistirá ao fim de sua era. Possivelmente, atrás das grades.

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10 comentários
  1. Luciano Espinheira Fonseca Junior
    Luciano Espinheira Fonseca Junior

    O lhama de franja boliviano é analfabeto funcional e tão corrupto quanto o molusco de nove dedos. Dois boçais complexados.

  2. Candido Andre Sampaio Toledo Cabral
    Candido Andre Sampaio Toledo Cabral

    Sempre tem algo para estes ratos sugarem. Venezuela é petróleo, e Bolívia o gás.

  3. Erasmo Silvestre da Silva
    Erasmo Silvestre da Silva

    Esse bandido desse Morales faz tudo de acordo com a cartilha do foro de São Paulo. Os comunistas são ladrões e traficantes e está aí pra todo mundo ver, onde se instala o país cai num abismo

  4. Paulo César de Castro Silveira
    Paulo César de Castro Silveira

    Se um índio tivesse tomado o poder no Brasil como estaríamos?

    1. Luciano Espinheira Fonseca Junior
      Luciano Espinheira Fonseca Junior

      Melhor que o mulato atual, que se considera um sueco.

  5. DONIZETE LOURENCO
    DONIZETE LOURENCO

    Se Morales tiver a prisão confirmada o Lula manda um UBER FAB ir buscá-lo como fez com aquela senhora peruana.
    Mas quem vai pagar a conta somos nós.

  6. Wilton Lázaro de Araújo
    Wilton Lázaro de Araújo

    Onde a esquerda põe a mão, nada sai barato. Este nefasto regime é feito de roubalheira, cochavos e quer se perpetusr no poder com mentiras…

  7. Erasmo Silvestre da Silva
    Erasmo Silvestre da Silva

    Todo mundo sabe quem é o foro de São Paulo, mas basta ler “O livro negro do comunismo” pra deixar de ser idiota de apostar em regime socialista

    1. Paulo César de Castro Silveira
      Paulo César de Castro Silveira

      Agora é “O livro índio do comunismo”.

  8. RODRIGO DE SOUZA COSTA
    RODRIGO DE SOUZA COSTA

    A gente não consegue mudar a nossa história. A América Latina sempre será vitíma de homens perniciosos e de baixa reputação. Enquanto isso vivemos como bichos, apesar de pagar uma fortuna em impostos

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