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Plantação de café em fazenda brasileira
Plantação de café em fazenda brasileira | Foto: Alf Ribeiro/Shutterstock
Edição 282

O café brasileiro fala inglês, não mandarim

Caso nenhuma negociação avance, a situação ficará delicada para o Brasil, seus cafeicultores e sua indústria do café

O Brasil é líder secular e global no mercado cafeeiro. Em 2024, alcançou uma exportação recorde de 50,4 milhões de sacas de 60 kg para 116 países. Um crescimento de 28,5% em relação a 2023. Com cotação elevada por escassez do produto, a receita cambial foi de 12,5 bilhões de dólares, um crescimento de 55,4% em comparação a 2023.

O mercado norte-americano de café é o maior do mundo e movimentou cerca de 28 bilhões de dólares em 2024. Deve chegar a 34 bilhões de dólares em 2029. Trata-se de um mercado diversificado, incluindo grãos integrais, café moído, café instantâneo, cápsulas e pods. Nos dez principais destinos das exportações brasileiras em 2024, em todos houve crescimento em relação a 2023, com exceção do Japão. Em primeiro lugar estão os EUA, maiores consumidores mundiais de café, com 8,13 milhões de sacas importadas do Brasil (crescimento de 34%).

Em 2024, como principais destinos das exportações cafeeiras depois dos EUA, estiveram: Alemanha, com 7,59 milhões de sacas (+51%); Bélgica, 4,35 milhões (+96%); Itália, 3,9 milhões (+25%); Japão, 2,21 milhões (-6%); Espanha, 1,61 milhão (+67%); Países Baixos (Holanda), 1,59 milhão (+25%); México, 1,50 milhão (+144%); Turquia, 1,49 milhão (+9%) e Rússia, 1,37 milhão (+101%). Esses dez países representaram 67% das exportações de café do Brasil em 2024. E há ainda outros importadores relevantes como Reino Unido, Coreia do Sul, Canadá, Suécia, França e Colômbia.

Saco com grãos de café verde brasileiro em Moscou, Rússia | Foto: Max Zvonarev/Shutterstock

Mais de 6% das exportações de café verde (3,16 milhões de sacas) em 2024 foram (e seguem crescendo) para países produtores de café como México (+41,5%), Vietnã (+21,5%), Colômbia (+12,9%), Índia (+9%), Indonésia (+6,4%), Equador (+5,1%), República Dominicana (+1,4%), Cuba (+0,9%) e outros (+1,3%). Essa interação entre produção e exportação em diferentes países ilustra a complexidade do mercado global de café e o papel do Brasil como fornecedor, mesmo para países produtores. E é cada vez maior a diversidade de cafés exportados pelo Brasil, assim como seus destinos.

Com a tarifa de 50% imposta recentemente pelos EUA às exportações brasileiras, caso nenhuma negociação avance, a situação ficará delicada para o Brasil, seus cafeicultores e sua indústria do café. Em particular, a exportação de café solúvel será muito prejudicada, perdendo mercados.

Foto: Shutterstock

Dia 2 de agosto, a embaixada da China anunciou o credenciamento de 183 empresas brasileiras exportadoras de café. A medida é consequência, entre outras, dos acordos para ampliar as exportações, como os ajustados com a rede de cafeterias chinesa Luckin Coffee.

Na mídia e até no Governo, alguns sinalizaram esse fato como uma saída às exportações taxadas pelos EUA: buscar e conquistar novos mercados, um exemplo de caminho a ser seguido em outros produtos taxados etc. Bobagem. Diversificar e ampliar as exportações é sempre relevante, mas números são números.

As importações de café pela China estão crescendo ma non troppo. Em 2024, a China importou 530 mil sacas de café contra mais de 8 milhões dos Estados Unidos. Não há a menor chance de a China absorver esse café. Nem ninguém neste mundo afora. O café brasileiro fala português e inglês. Balbucia mandarim. Contudo, ainda cabe ao Governo Federal agir e ele pode ajudar a cafeicultura e o país de duas maneiras.

Barista em loja de café em Shanghai, China | Foto: Robert Way/Shutterstock

Em primeiro lugar, e só depende dele, investir e melhorar a infraestrutura logística, sobretudo portuária. Em 2024, o esgotamento da infraestrutura portuária causou contínuos atrasos nos embarques de café, alterações de escala de navios e sucessivas rolagens de cargas. O Cecafe, com dados de 27 empresas (75% das exportações totais de café), revelou um prejuízo de R$ 42,3 milhões até o final de novembro, devido a 1,6 milhão de sacas de café (4.895 contêineres) acumuladas nos portos brasileiros, sem embarque entre janeiro e novembro. Em novembro, segundo o Boletim Detention Zero, 66% dos navios, ou 200 de um total de 304 porta-contêineres, tiveram atrasos ou alteração de escalas nos portos do Brasil.

O problema persiste em 2025. Como já ocorrera em maio, só em junho passado, mais de 453 mil sacas de café não conseguiram embarcar devido ao esgotamento da infraestrutura portuária, segundo o Cecafe. O país deixou de receber R$ 1 bilhão como receita cambial e os exportadores tiveram prejuízo de R$ 3 milhões com armazenagens extras. O segundo maior exportador agrícola do mundo precisa promover com urgência a ampliação e modernização de seus portos. E não há plano governamental algum para isso. A administração federal, sem estratégia para o país, vive de taticismos.

A outra maneira é seguir o exemplo dos mineiros, os maiores produtores e exportadores de café, mestres em conversar e dialogar. Minas Gerais concentra 72% da área de café arábica do Brasil. O Governo deve procurar, com humildade mineira, os EUA. Reconstruir, com o jeitinho mineiro, uma relação desgastada. E negociar. Educadamente. Convidar os gringos para um cafezinho com pão de queijo. Para quem já propôs resolver a guerra da Ucrânia em uma mesa de bar, tomando uma cervejinha, deve ser fácil.

Foto: Shutterstock

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9 comentários
  1. Rico Ferrari
    Rico Ferrari

    O problema se resolve fácil e os EUA já disseram como: anistia e impeachment do AMoraes. Acho, mineiramente, que quem fez o L e acha que com conversa mole ou “cafezinho” vai enrolar os EUA merece muito o canavial de sanções que vem por aí. A esperteza comeu a raposa faz tempo.

  2. Candido Andre Sampaio Toledo Cabral
    Candido Andre Sampaio Toledo Cabral

    Quem sabe um dia o Brasil saberá aproveitar além da matéria prima.

  3. Célio Antônio Carvalho
    Célio Antônio Carvalho

    Smples assim. Contra os números não há argumentos. Em nada. No comércio, na indústria, na atuação política, onde quer que seja. Se a estatística desfavorece, não teime!

  4. Alice Helena Rosante Garcia
    Alice Helena Rosante Garcia

    Excelente artigo
    Sempre aprendo aqui e sigo lamentando o rumo qure o nosso pais esta tomando
    Qtas perdas !! Qtos desmandos !! Que pena
    Mas tenho esperança e acredito que tempos melhores virao

  5. Letícia Mammana
    Letícia Mammana

    O professor Evaristo é um cientista e apresenta sempre números, dados, mapas e fatos. Seus artigos não são narrativas sem fundamento. Parabéns por mais esse artigo satualíssimo, sobre o agro, o nosso café é a desmedida do atual desgoverno.

  6. Paulo Ricardo
    Paulo Ricardo

    A matéria é bastante informativa, mas deve haver um erro de digitação do segundo parágrafo, pois, se o mercado norte-americano de café movimentou 24 bilhões de dólares em 2024, não parece fazer sentido dizer que chegará a 9 bilhões em 2029.

    1. Letícia Mammana
      Letícia Mammana

      Você tinha razão. Os números foram corrigidos.

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