São 3h17 da manhã em Los Angeles. Meu telefone toca. Olho a tela e vejo escrito “Augusto Nunes”.
— Alô, Augusto? Está tudo bem?
— Ana, minha querida… Não tenho boas notícias…
Não sei dizer se meu coração quase parou ou se acelerou de tal maneira que parecia que sairia do peito.
— Não, Augusto, não…
Com a voz embargada, meu mestre disse:
— Sim, Ana… Sinto muito ser o portador dessa notícia… Nosso amado Guzzo nos deixou.
Senti meu rosto ferver e as mãos congelarem. Uma avalanche de memórias invade a mente em dois segundos e me transporta para o dia em que o nome da minha irmã, também de madrugada, apareceu na tela do meu celular para me dizer que meu pai havia partido.
Em duas horas, eu estava no aeroporto embarcando para o Brasil. Não haveria outro lugar no mundo em que eu precisasse estar, senão com a minha família Oeste.
Entro no avião apenas com uma mochila e uma mala de mão. Estou a caminho do Brasil para me despedir de meu grande mestre. Abro o computador para me encontrar com ele nas palavras, mas eu não sei o que escrever. Elas simplesmente não aparecem para mim. Talvez tenham ido embora para o céu com ele. Só lágrimas invadem o meu teclado.
Abro nossas mensagens de WhatsApp. Risadas, emojis (muitos emojis), conversas em inglês, sugestões de artigos ou de como eu poderia ter diminuído um texto, felicitações e alegria por uma capa que escrevi e por alguma abordagem diferenciada, conversas sobre a política nos EUA, um trecho de um artigo cheio de sarcasmo (inspirado nele!) que ele mandou com um longo “hahahahaha”, mensagens eufóricas durante toda a cobertura das eleições presidenciais americanas (ele ficou na cobertura com a gente até às 4h da manhã), corações, rosas… Ah, Guzzo… não faz isso com a gente, não…
Sigo no voo a caminho do Brasil e as horas não passam… mas as memórias voam diante dos olhos embaçados pelas lágrimas.
Eu não tive o privilégio de conviver com J. R. Guzzo durante décadas em vários veículos de comunicação, como Augusto Nunes e Jairo Leal, publisher da Oeste. No entanto, nossos anos de convívio foram intensos e minha proximidade com o seu trabalho não é de agora. Guzzo é um dos pilares da minha formação política.
Foi graças ao meu pai que aprendi quem eram José Roberto Guzzo e Augusto Nunes. As revistas semanais para as quais esses dois ícones do jornalismo escreviam chegavam religiosamente todo sábado em casa, um dia depois da entrega nas grandes capitais do país.
Antes de qualquer notícia, meu pai sentava-se à mesa da cozinha e a folheava rapidamente para os artigos de Guzzo e Augusto. Do quarto, era possível ouvi-lo de vez em quando falando com ele mesmo ou, quem sabe, com os colunistas, com seu delicioso sotaque mineiro: “Mas o que é isso, minha gente…”. Não era raro ele chamar minha mãe e dizer: “Senta aqui, Maria. Você precisa ler o Guzzo hoje!”.

Quantas vezes testemunhei meu pai tentando convencer minha mãe sobre algo na economia ou na política e, sem sucesso, recorrer aos brilhantes textos de nosso mestre. Então, minha mãe chegava e dizia: “Agora entendi! Por que você não me explicou desta maneira?” E meu pai, com um sorriso no rosto, respondia: “Porque eu não sou o Guzzo, oras!” — Guzzo tinha esse dom de navegar e guiar as pessoas em temas sérios com uma simplicidade profunda e brutalmente honesta, fazendo com que qualquer tipo de venda nos olhos fosse arrancada sem piedade.
Os anos dispararam. Saí do interior para o mundo e um dia caí em São Paulo. Ainda sinto o friozinho daquela noite, como se o tempo tivesse sido congelado para me permitir guardar cada detalhe.
Guzzo e Augusto me convidaram para um jantar e, como já éramos amigos de outras ocasiões, com encontros e conversas que sempre deixavam um gosto de quero mais, eu estava animada só de revê-los durante uma breve passagem pelo Brasil. Mas aquela noite trouxe algo maior.
Entre risadas e taças, eles começaram a falar de um sonho que estava tomando forma: a Revista Oeste. E, para meu espanto, queriam que eu fizesse parte dele. A conversa fluiu por horas, como se o mundo lá fora tivesse pausado. Discutimos política, liberdades, grandes nomes como Thomas Sowell, Churchill, Thatcher, Reagan… e meu pai. Falei do homem do interior, apaixonado pelo campo e que surpreendia com sua sabedoria sobre Reagan e a Guerra Fria. Era como se ele estivesse ali, à mesa, partilhando daquele momento.
A noite parecia um filme em câmera lenta, cada palavra carregada de significado, cada ideia acendendo uma faísca.
Quando os garçons começaram a empilhar as cadeiras e a conta chegou, Guzzo me olhou com aquele jeito sereno e firme, e disse: “Querida Ana, então pense com carinho na proposta, veja se você quer fazer parte desse projeto. Escreveremos sobre tudo o que falamos hoje e que sempre estamos trazendo à luz do dia: a liberdade em várias esferas. Seremos a boa imprensa que praticamente não existe mais.”
Augusto e Guzzo já conheciam a relação que meu pai tinha com seus textos e artigos, então, com dificuldade em encontrar as palavras para descrever aquele jantar, respondi imediatamente: “Mestre Guzzo, não preciso de tempo para pensar. Meu pai me trouxe até aqui, até vocês, eu tenho certeza. Será uma grande honra, uma das maiores honras da minha vida, fazer parte desse time.”
O chamado para um sonho maior
Minha convivência com nosso Guzzo fez parte de um momento em que o jornalismo, para mim, ainda era um sonho meio difuso, cheio de incertezas. Ele tinha essa capacidade rara de enxergar além do óbvio, de perceber potencial onde outros viam apenas inexperiência. Foi ele quem mudou minha vida. Não era só uma oportunidade profissional; era um chamado para fazer parte de algo maior, de um projeto que ele ajudou a construir com a convicção de que o jornalismo deve ser livre, corajoso e fiel à verdade. Tudo o que sou como jornalista, hoje, devo a J. R. Guzzo e Augusto Nunes.
Há pessoas que cruzam nosso caminho e deixam marcas tão profundas que é impossível imaginar quem seríamos sem elas. J. R. Guzzo foi uma dessas pessoas para mim. Ele não era apenas um jornalista, um colunista brilhante ou um ícone do jornalismo brasileiro. Era um mestre, no sentido mais puro da palavra — alguém que ensina não só com conhecimento, mas com exemplo, com coragem, com uma chama que acende outras.
Lembro-me do brilho em seus olhos quando falava sobre a Oeste, como se estivesse nos confiando um pedaço de sua alma. Ele não queria seguidores; queria parceiros, pessoas dispostas a lutar pela mesma clareza que ele perseguia — colunistas, assinantes ou espectadores.
E a Revista Oeste nasceu alguns meses depois daquela noite em São Paulo. Uma nova onda de determinação e perseverança brotava das mãos de homens como J. R. Guzzo, Augusto Nunes e Jairo Leal, publisher da Oeste. Era nosso “desembarque na Normandia” e Guzzo era nosso Eisenhower. Planejamento, força, direção, tática, inspiração e coragem para avançar sem piedade e com determinação para a “retomada da França” e depois da liberdade contra a tirania!
Guzzo era um mestre porque não se contentava com meias verdades. Seus textos eram como flechas: diretos, afiados, impossíveis de ignorar. Ele escrevia com uma lucidez que cortava como lâmina, mas também com uma humanidade que aquecia. Ler Guzzo era sentir que alguém, finalmente, dizia o que precisava ser dito, sem medo, sem rodeios, mas com uma elegância que só os grandes possuem. Ele não escrevia para agradar, mas para iluminar. E, Deus, como ele iluminava. Cada coluna, cada frase, era uma aula de como pensar, de como questionar, de como não se curvar diante do que é errado, mesmo quando o mundo todo parece exigir silêncio.
Trabalhar ao lado dele na Revista Oeste foi como aprender a respirar jornalismo. Ele não dava lições formais; ensinava pelo exemplo. Eu o observava, tentando absorver cada detalhe: a forma como ele escolhia as palavras, como transformava ideias complexas em textos que qualquer pessoa podia entender, como enfrentava críticas sem jamais recuar de suas convicções. Guzzo acreditava no Brasil, acreditava nas pessoas, acreditava que a verdade, por mais dura que fosse, era o único caminho para um país melhor.
Sua partida deixa um vazio que não explico. É como se o Brasil tivesse perdido um pouco de sua própria voz. Guzzo era mais do que um colunista ou um fundador da Oeste; era uma referência de integridade, um homem que vivia o que escrevia. Há boas frases dele que cruzam a mente agora… como “Aninha, o jornalismo é a arte de não se calar. Quando mantemos a coragem, as palavras sempre vêm”.

Que vazio imenso, Guzzo! Vivemos em um mundo de desejos desordenados, onde o poder cega e muitos se perdem em fontes turvas, enganados por promessas falsas. Mas você era diferente. Você nos oferecia água cristalina mesmo em tempestades, verdades destiladas com honestidade. Suas palavras eram um farol, guiando-nos com clareza e coragem, mas também com a beleza de quem domina a arte da escrita. Suas convicções inabaláveis te moldaram em um leão de espírito sereno, sempre vigilante, nunca disfarçado — e com uma missão que carregou até o último instante, até aquele dia inesperado que silenciou seu corpo, mas não sua voz.
Para mim, ele foi mais do que um mestre. Foi um guia, um amigo, alguém que acreditou em mim quando eu duvidava de mim mesma. Lembro de tantas conversas agora, tantos conselhos… “Aninha, se você tem algo a dizer, não deixe ninguém te calar.” E é isso que pretendo fazer: carregar sua coragem, sua clareza, sua paixão pelo jornalismo em cada texto que escrever, em cada batalha que enfrentar.
Aos leitores, peço que guardem Guzzo no coração. Leiam suas colunas, revisitadas na Revista Oeste. Deixem que suas palavras os inspirem a questionar, a lutar, a não aceitar o que é imposto sem reflexão. Leiam Guzzo não apenas para lembrar dele, mas para carregar adiante o jornalismo que ele defendia: livre, corajoso e comprometido com a verdade. Ele nos deixou um Brasil mais rico por suas ideias, mais forte por sua coragem. E, acima de tudo, nos deixou a lição de que a verdade, quando dita com convicção, pode mudar o mundo.
E sei que, onde quer que esteja, ele está nos pedindo para continuar. Para não nos calarmos. Para sermos, como ele foi, faróis na escuridão. Adeus, mestre. Obrigada por tudo. Você iluminou meu caminho, e prometo que sua luz nunca se apagará em mim.
A espada fica mais pesada sem a sua mão segurando a nossa. Mas seguiremos. Como disse Isaac Newton: “Se vi mais longe, foi por estar de pé sobre os ombros de gigantes.”

Leia todos os artigos de J. R. Guzzo na Oeste




Sugiro a reprodução de um texto do gigante Guzzo em cada edição.
Parabéns Ana Paula, artigo brilhante e ao mesmo tempo emocionante.
Muito bonito, Ana. Que ele seja um farol lá de cima para você continuar brilhando para o bem de nosso país.
Partilho de sua dor. Acompanhei sempre desde Veja, quando era uma revista decente, farol da verdade. Deus que o tenha!
Ana, sou leitor de Oeste por tua culpa. Vi uma mensagem tua, não me lembro se no Instagram, falando sobre o novo projeto. Eu aderi de imediato. Assim, como teu pai, acompanho Guzzo e Augusto Nunes há muitos anos, na velha e inesquecível revista Veja. Semanalmente, abria a Revista Oeste para ler em primeiro lugar o artigo do Guzzo, depois do Augusto, o teu e demais articulistas. Sentirei falta dos artigos do Guzzo, mas ele deixou na Revista Oeste, bons seguidores de suas lições. Fiquei muito emocionado ao ler agora teu relato sobre o Guzzo e a importância dele na tua vida como jornalista. Continue teu trabalho na Revista Oeste, no Oeste sem Filtro, que não perco, e em breve na Oeste TV. Continuarei dando o meu apoio ao trabalhos de todos vocês. Um grande abraço,
Tem o que falar? Acho que não! Vovê “ANA” já falou tudo!
Vovê -> correto é Você
Antes de mais nada era humilde .
Lia reportagens dele no estadão e ocasionalmente parabenizava o por email.
Foi ele que me sugeriu assinar a Oeste .
Porque será que os heróis partem e os canalhas permanecem ?
Era um farol de conhecimento ,franqueza ,honestidade !
Fique em paz JRGuzzo ,
Um oceano de luzes onde vc estiver !
Ana Paula Henkel!
Que palavras tocantes e sinceras!
Acredito que o J.R. Guzzo tenha sido uma espécie de “catálise” em sua vida e na vida de muitos outros. Um verdadeiro mestre, um farol que os orientou.
Você provou que tem uma veia de JORNALISTA, o jornalista verdadeiro, dos fatos, e não de narrativas vazias.
No entanto, escrevendo sobre Guzzo, você despertou a sua veia de ESCRITORA, que deve ser explorada!
Você escreve com leveza, com sentimento, com verdade, com empatia. Portanto, penso que você deveria escrever um livro, um romance, uma biografia. Que tal começar com uma biografia de seu pai?
Muito bem Ana Paula Henkel. Você terá uma tarefa difícil, pesada, mas conseguirá sim com sua gana do Vôlei, das quadras duras, da vida corrida.
Muito boa sorte. Estaremos contigo nessa.
Que o Mestre J. R Guzzo descanse em paz. Obrigado.
Que maravilhosa homenagem, e que ‘aluna’ fantástica! Seus textos são sempre muito emocionantes, humanos e demonstram claramente que quando ele te convidou sabia perfeitamente de seu potencial. Parabéns, e como físico (somente de formação, pois fui trabalhar na aviação, onde conheci minha esposa que teve o privilégio de te trazer de volta ao Brasil pela Varig depois de uma Olimpíada), apreciei ainda mais o brilhante final. Desejo muito mais sucesso em sua perfeita escolha em trabalhar como jornalista e comentarista após sua maravilhosa carreira no Volei!
Ana Paula Henkel, que texto meu Deus que texto glorioso que nos traz a esperança. Sim,a missão de vocês é seguir em frente, esse seria o desejo de Guzzo. Sei que você fez uma longa viagem para encontra-lo pela última vez.Mas ele está com você, sempre te dando forças e inspiração. Você se tornou uma jornalista “de mão cheia “,comunicadora da melhor qualidade. Bjo de quem ainda não conseguiu parar de chorar.
Concordo, ela estará com certeza continuando com maestria o trabalho, já provou estar enxergando e escrevendo num nível de quem pôde se apoiar em ombros de gigantes a convite pessoal.
Muito sensivel e tocante sua homenagem, Ana Paula ! Parabéns !
Assim como os mestres da Oeste, também vejo uma carreira brilhante em seu futuro 🙂 !
Já está na História Brasileira por duas razões, como atleta campeã olímpica e agora como brilhante jornalista! E o curso Política Americana, (que recomendo que adquiram) demonstra também a excelente capacidade didática dela e seu imenso conhecimento da História de sua segunda pátria por escolha. Os Americanos devem estar imensamente orgulhosos por tê-la como cidadã, poucos conhcem tão bem como a nação foi e continua a ser construída através de ideais de liberdade inseridos com maestria por gigantes na melhor Constituição do mundo. Parabéns a Ana Paula do Volei e do Jornalismo!