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Augusto Nunes abraça J.R. Guzzo no dia da inauguração do estúdio Oeste | Foto: Arquivo Pessoal
Edição 281

O domador de palavras

Ele fez da releitura de textos uma forma de arte

Um assessor do presidente Baby Doc entrou na saleta do palácio para dar a má notícia aos três visitantes: a agenda congestionada impediria que os encontros individuais com o chefão do Haiti começassem no horário combinado. A jornalista italiana Oriana Fallaci, famosa pela competência e pelo temperamento beligerante, começou a rosnar palavrões na língua natal. O americano perguntou se seria possível calcular com alguma precisão o tempo do atraso. O brasileiro que completava o trio recolheu-se ao silêncio conformado de quem nasceu num país em que pontualidade é mania de inglês. Mais de uma hora depois, o mensageiro reapareceu decidido a testar os limites da paciência da trinca. Além de começarem com atraso, comunicou, as conversas haviam sido encurtadas de 15 para cinco minutos.

Aquilo foi demais para Oriana. “Vamos embora daqui!”, berrou. “E vamos já!”, ordenou a colérica líder do levante. O americano ergueu-se, recolheu as tralhas e alcançou a líder do protesto ainda na porta de saída. O brasileiro preferiu esperar sentado que a poeira assentasse e o assessor lhe fizesse a pergunta mais que previsível: continuava interessado em conversar com Baby Doc?  “Sim, com muito prazer”, respondeu já com caneta e papel nas mãos. “Eu estava lá para entrevistar o Baby Doc”, sorriu Guzzo quando lhe perguntei se a coisa fora mesmo daquele jeito. “Se tivesse tempo de sobra, ficaria mais simples”, admitiu. “Mas faria o que me mandaram fazer, mesmo que me dessem cinco minutos”. 

Acompanhou com otimismo a retirada dos colegas de profissão. “Quando eles saíram, dez minutos ficaram sem dono”, animou-se. “Com sorte, poderia herdar aquele tempo”. Herdou. A conversa, aliás, passou de vinte. Os resultados foram dois. Um foi a impecável entrevista publicada pela revista Veja. E fortaleceu a suspeita surgida já no começo da carreira do maior jornalista brasileiro: certas coisas só aconteciam com J. R. Guzzo. Quem foi, por exemplo, o único passageiro a bordo do avião da Air France que, com tripulação completa e todos os requintes de praxe, inaugurou a rota Nanquim–Paris? Só podia ter sido aquele jovem correspondente internacional que começara a carreira na Última Hora de São Paulo, passara pelo Jornal da Tarde e preparava-se para fazer história na revista Veja. Ele mesmo: J. R. Guzzo. 

Eu o vi pela primeira vez em 1973, quando Paulo Totti convidou-me a trabalhar na reportagem da revista. Aquele bando de inexperientes era uma espécie de categoria inferior, sem grandes chances de socorrer o time principal com revelações. Transferido pouco depois para a editoria geral, passei um tempão convencido de que jamais escreveria uma reportagem de capa. Era refinado demais. Mas essa temporada no purgatório deixou-me claro que, se efetivamente quisesse chegar lá, ao menos o destino facilitara as coisas quando me colocou ao lado dos que sabiam o que eu precisava aprender. E ninguém sabia ensinar com tanta clareza quanto J. R. Guzzo. “Um jornalista tem de saber separar fato e fantasia”, repetia. “É só jogar fora o que é falso e publicar a verdade”.

Para que Veja se tornasse a quarta maior revista de informações do planeta, Guzzo valeu-se de métodos ignorados por velhos donos de jornais. Entre 1976 e 1991, enquanto esteve no comando da publicação da Abril, as regras da meritocracia garantiram o poder de mando dos melhores e mais brilhantes. Se a qualidade do trabalho caísse quando o editor saía de férias, ouvia na volta o aviso: só inseguros incuráveis evitam ter como substitutos eventuais profissionais que mantenham a qualidade do produto. Se o nº 2 melhora o trabalho do chefe, este que tratasse de ganhar a saudável competição. Ou procurar emprego.

Augusto Nunes e J.R. Guzzo na TVeja | Foto: Reprodução

Foi também implantada a doutrina do último da fila. Nada complicado. Em qualquer grupo humano há melhores e piores, mais competentes ou menos competentes. Também é assim nas editorias dos veículos de comunicação. Convinha ao editor, portanto, permanecer atento ao que se passa no mercado de trabalho. Localizado algum profissional mais qualificado do que o último da fila, a substituição deve ser providenciada quanto antes. Tais requintes e rigores ajudam a entender a incrível trajetória desenhada pela Veja nos anos 1980.  

Fiquei mais próximo de Guzzo e do diretor-adjunto Elio Gaspari a partir de 1982, quando fui promovido a redator-chefe. Com Elio, aprendi a caçar notícias com a obstinação dos pescadores de Hemingway. Com Guzzo, aprendi como deve ser um diretor de redação. Não haverá outro J. R. Guzzo, mas alguma coisa espero ter aprendido por ter visto em ação o gênio da escrita que, com retoques, inserções e cortes, elevou a revisão de um texto à categoria de arte. Alguns trabalhos de Guzzo mereciam ser exibidos em museus. Vários deles parecem inventados. São reais.

Num desses grandes momentos, Guzzo começou a reescrever com uma caneta, na parte em branco das páginas datilografadas, o que achava que podia ficar melhor no texto entregue por um bom jornalista de Economia. Mudou profundamente a primeira, alterou a segunda com entusiasmo crescente, intensificou os retoques na terceira e completou a obra de arte na quarta e última. Era outro texto, constatou Guzzo. Constrangido, perguntou ao autor do original: “Acho que você prefere deixar de assinar…”. 

“Nem pense nisso”, replicou o discípulo. “Mantenha meu nome. Quero que acreditem que sou capaz de escrever como você”.

Jairo Mendes Leal, Augusto Nunes, Luzia Nunes e J.R. Guzzo em um almoço na casa da família Nunes | Foto: Arquivo Pessoal

Leia todos os artigos de J. R. Guzzo na Oeste

20 comentários
  1. EDUARDO SANTALUCIA JUNIOR
    EDUARDO SANTALUCIA JUNIOR

    Caro Augusto Nunes, bom dia. Como não encontrei outro meio para externar minha opinião, transmito aqui: Meus parabéns pelas suas sempre brilhantes entrevistas às terças-feiras. Essa últimas, com o Sergio Reis e o filho, foi fora de série. Também aproveito, para deixar meus agradecimentos, por ecoar minha voz no “canhão” que é o microfone do programa sem filtro. abraços do assinante de primeira hora da Revista Oeste.

  2. LUIZ FERNANDO MARTAU
    LUIZ FERNANDO MARTAU

    Nada como ler um texto bem escrito sobre o maior jornalista da atualidade. Sentiremos ,muitíssimo sua falta. RIP.

  3. Candido Andre Sampaio Toledo Cabral
    Candido Andre Sampaio Toledo Cabral

    Sorte a nossa de ter acompanhado esta dupla atuando. Que Deus o tenha, JR Guzzo. E vida longa mestre Augusto Nunes.

  4. Maria Cristina Padula
    Maria Cristina Padula

    Parabéns Augusto Nunes!!!
    Obrigada pela descrição de uma parte da vida do J.R. , realmente merece ser reconhecido e homenageado 🙏

  5. Paulo Jaconi Saraiva
    Paulo Jaconi Saraiva

    J.R.Guzzo, Roberto Pompeo de Toledo , Millor Fernandes e Augusto Nunes fizeram história na antiga VEJA. Saudades.

  6. Jarlan Barroso Botelho
    Jarlan Barroso Botelho

    No texto maravilhoso do Augusto Nunes, este afirma que o Mestre José Roberto Guzzo, foi o maior dos jornalistas. É a mais pura verdade. Ele, no entanto, omitiu que o Mestre deixou discípulos, como ele, que estão à altura, e de quem o Mestre muito se orgulhava.

  7. Claudio Cardoso
    Claudio Cardoso

    Aquela sensação que bate quando partem os grandes homens: “vão-se os melhores; fica o insubstituível, e a lembrança dolorida de um passado encantado que não se repetirá”.

  8. ANDRE DE LANNA MALTA
    ANDRE DE LANNA MALTA

    Vou sentir muita falta dos textos dele. Era uma delícia de leitura.

  9. ANTONIO ROBERTO DE BARROS CAIRO
    ANTONIO ROBERTO DE BARROS CAIRO

    Eu sei que é lugar comum dizer que este maravilhoso jornalista era o tipo de pessoa que nunc a deveria morrer, mas, em se tratando de J. R. Guzzo, escrever isto aqui é algo muito especial. GRANDE CARA, GRANDE HOMEM, GRANDE JORNALISTA! Um abraço Guzzo, que o seu novo caminho seja muito mais do que aqueles que permeou nesta vida terrena.

  10. JOSE JACKSON BACELAR NUNES XAVIER
    JOSE JACKSON BACELAR NUNES XAVIER

    O futuro de nossas vidas, realmente pertence a Deus, assim, nosso Senhor ao chamar o jornalista Guzo, há também, de confortar todos os familiares amigos e colegas. Nossa condolências. ..🙏🙏

  11. Joaz Santana Praxedes
    Joaz Santana Praxedes

    Meu Deus, Guzzo não deveria ter nos deixado logo agora, mas… que “seja feita a Tua vontade assim na Terra como nos céus”. Lamento que a grande imprensa de invejosos, intelectualmente desonestos e ignorantes não deu o destaque que J R Guzzo merecia, em sua morte.

  12. Ana Claudia Brandão da Silva
    Ana Claudia Brandão da Silva

    Emocionada com os artigos em homenagem ao Guzzo. Inspiração para me esforçar para ser alguém melhor.

  13. Washington Dutra
    Washington Dutra

    Sei que todos os textos do Mestre Guzzo estão com acesso liberado mas seria uma honra poder adquirir um livro físico com estes mesmos textos nele. Terá um lugar de destaque em minha casa, e tenho certeza que muitos milhares de amigos e assinantes fariam o mesmo.

    1. ANTONIO ROBERTO DE BARROS CAIRO
      ANTONIO ROBERTO DE BARROS CAIRO

      Bravo!!! É disso que iremos precisar, e muito. Augusto Nunes com a palavra!

    2. Ana Maria de Miranda
      Ana Maria de Miranda

      Washington, pensei exatamente nisso. Quero poder ver e folhar repetidas vezes um volume impresso. Vou reservar desde já um lugar de honra na estante, aguardando o livro. Que venha logo!

  14. Iury de Salvador e Lima
    Iury de Salvador e Lima

    É de ler com lágrimas de cachoeira essa homenagem.

  15. Teresa Guzzo
    Teresa Guzzo

    Que texto soberbo Augusto, você conviveu de perto com Guzzo. Convivência profissional ,pessoal, amizade profunda, e compreensão mútua. Prazer enorme em ver a foto de dois irmãos em um abraço sincero. Obrigada por tudo Mestre.

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