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Ilustração: Revista Oeste/IA
Edição 280

A missão brasileira na Lua

'É que o governo brasileiro quis jogar truco com os imperialistas, aí a porta se fechou'

— Estou ansioso.

— Por quê?

— Nunca passei por isso antes.

— Fica tranquilo.

— Vou tentar. Mas não é todo dia que se encontra o presidente dos Estados Unidos.

— Como assim?

— Ué? É normal encontrar o presidente dos Estados Unidos? Você já o encontrou alguma vez?

— Não.

— Então? Não está ansioso?

— Não.

— Tomou calmante?

— Não.

— A expectativa de encontrar o homem mais poderoso do mundo não te afeta?

— Não.

— Por quê?

— Acho que é porque eu não vou encontrar o homem mais poderoso do mundo.

— Não vai?! Mas a gente não está aqui pra isso? Você tem que vir com a gente.

— Eu vou estar com vocês o tempo todo.

— Ah, então você vai encontrar o presidente dos EUA.

— Não vou.

— Por quê?

— Porque você também não vai. Nenhum de nós vai encontrar o presidente dos EUA.

— Como assim?! A Casa Branca desmarcou a reunião?

— Não.

— Então não estou entendendo.

— Não desmarcou porque não marcou. Entendeu agora?

— Estou confuso. Nós não viemos a Washington negociar a redução do tarifaço?

— Tipo isso.

— Então nós vamos conversar com quem? O presidente vai mandar o segundo dele pra se encontrar conosco?

— Não.

— O terceiro?

— Não.

— O quarto?

— Não.

— Ah, espera aí! Somos senadores da República! Negociar com o quinto escalão já é humilhação.

— Também não seremos recebidos pelo quinto escalão.

— Que loucura! Como vai ser a nossa agenda em Washington então?

— Fala baixo.

— Por quê?

— Porque a nossa agenda é secreta.

— Os chineses não podem saber?

— Os brasileiros.

— O que nós temos a esconder dos brasileiros?

— A princípio, tudo.

— Qual é o nosso primeiro compromisso nos EUA?

— Uma reunião para discussão de estratégia.

— Pelo menos isso. Com quem vamos nos reunir?

— Com a gente mesmo.

— O quê? Por que a gente não fez essa reunião no Brasil?

— Não faz pergunta difícil. Vamos focar.

— Focar em quê?

— Na discussão sobre a nossa próxima reunião.

— Ah, já temos então outra reunião marcada. Que bom. Com qual autoridade norte-americana?

— Vamos encontrar uma autoridade brasileira.

— Na capital dos EUA?

— Sim. A embaixadora do Brasil.

— Ela vai nos colocar em contato com algum interlocutor do governo Trump?

— Não. Ela não tem contato com o governo Trump.

— Não é possível. Ela é a nossa embaixadora em Washington!

— É que o governo brasileiro quis jogar truco com os imperialistas, aí a porta se fechou.

— E o que ela fez?

— Saiu de férias.

— Então ela vai nos contar as férias dela?

— Já é um começo, né?

— É.

— Aí, depois, quem sabe a gente consegue uma audiência com o Obama.

— O Obama?! Mas ele é oposição. E está sendo processado pelo governo.

— Pois é.

— Você acha que mesmo assim ele pode nos ajudar a amenizar o tarifaço?

— Claro que não.

— Então pra que encontrar o Obama?

— Algum americano a gente tem que encontrar nos Estados Unidos, né?

— Tem razão. Mas será que não seria mais barato a gente ter feito isso lá do Brasil mesmo, pela internet?

— Que internet?

Foto: Shutterstock

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12 comentários
  1. Manfredo Rosa
    Manfredo Rosa

    Ótimo Fiuza, parabéns. “O que temos para esconder dos brasileiros? A princípio, tudo”. Na mosca.

  2. jose angelo
    jose angelo

    Cacete, só nesta 2a tive tempo de ler o Fiuza!
    Já voltaram da lua? Criaram “pontes”?
    E ontem hem?

  3. Jurandir
    Jurandir

    kkkkk… exclente título. Já pode ser um capítulo para o teu próximo livro, destacando algumas pérolas ditas por essa troupe aloprada que só sabe gastar grana pública: a culpa é dos brics, lula tem que ligar para o trump, não viemos aqui discutir a questão política… Eita, Bostil.

  4. Ana Cláudia Chaves da Silva
    Ana Cláudia Chaves da Silva

    Hilário!!!É muito bom começar a leitura da revista por esta coluna.

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