Os fatos não pedem licença. Eles se impõem. Se hoje, amanhã ou no dia 1° de agosto, uma hora acontece. Depois das várias declarações de Donald Trump explicando onde está o nó na relação com o Brasil e os motivos da sobretaxa de 50%, o presidente norte-americano formalizou tudo na carta de 9 de julho. O texto é cristalino. No primeiro parágrafo, cita a perseguição a Jair Bolsonaro. E, ao comparar os processos do STF contra o ex-presidente brasileiro a uma “caça às bruxas”, diz que isso deve parar “imediatamente”, em letras maiúsculas. No segundo parágrafo, reclama da atuação do Supremo Tribunal Federal e dos abusos contra as big techs, empresas americanas como vítimas. Não se ignora o que as primeiras linhas de uma carta mostram. Menos ainda as ênfases. Como disse na coluna da semana passada, os americanos não acreditam na balela de que a democracia foi salva no Brasil pelo consórcio de poder entre STF e governo Lula. Nem os brasileiros que sofrem com a perda de direitos constitucionais, como a liberdade de expressão e a imposição de censura violenta, porque sentem na pele a perseguição estatal.
Dito isso, chega-se à conclusão de que o governo Lula não fez nenhum movimento de verdade para negociar com os EUA porque insiste em negar o descalabro institucional e democrático instalado no Brasil. E faz isso apenas porque, politicamente, é beneficiário — um comportamento mesquinho. Ao contrário, o grupo ideológico e o próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva apostaram no enfrentamento midiático desde o início. O que parece embriagar o governo, ao adotar esse comportamento radical de antiamericanismo empoeirado dos anos 1970, é o leve aceno de melhora nas pesquisas de avaliação de Lula, conquistado, acreditam eles, com a narrativa de se mostrar como defensor da “soberania brasileira”.

Até outro dia, ainda com tempo para fazer apenas populismo político, o entorno do presidente comemorava o alívio de sair das cordas por estar no meio do escândalo de roubo de aposentados. E apostava que, se a briga diplomática continuasse dando alguma esperança ao governo de se manter no poder nas eleições do ano que vem, o sentimento de Lula, do PT e de seus puxadinhos era só o de mandar às favas os escrúpulos e os interesses nacionais.
Mas ninguém foge dos fatos, tampouco do calendário. Com os dias avançando e se aproximando do dia 1° de agosto, dois pesadelos se sobrepuseram aos devaneios petistas, e o ambiente mudou em Brasília. Internamente, os empresários têm dito ao governo, cada vez com mais contundência, que não há saída fácil, se é que existe alguma, para o caso. Contrários desde sempre à retaliação, disseram que não há como redirecionar as exportações brasileiras, seja o suco de laranja, o café, a carne, os aviões da Embraer ou tudo de manufaturado que o mercado americano compra hoje do Brasil. O pesadelo de demissões e empresas fechando com cargas paradas e navios voltando seria apenas uma questão de tempo.
Se dentro do Palácio e nos gabinetes do vice Geraldo Alckmin o clima mudou para pior, com um desânimo tomando conta, ficou-se sabendo que toda a negociação está dentro da Casa Branca, mais precisamente no Salão Oval. Tentaram falar com o USTR, com políticos, governadores, com o secretário do Tesouro, Scott Bessent, mas nada. É com Trump que a negociação precisa ser feita, e ele já deixou claro o que quer. Então, antes que ressuscitem o blá-blá-blá de afronta à soberania brasileira, as demandas americanas são o Brasil voltar aos trilhos da democracia, recuperar a liberdade de expressão, as garantias individuais e os direitos civis, enfim, o consórcio de poder Lula-STF voltar a respeitar a Constituição de 1988. E olha que maravilha: é tudo made in Brazil. Livre de alíquotas, mas que requer coragem e honestidade intelectual.

Fato é que, desde a campanha eleitoral americana, Lula tomou partido de forma grosseira ao dizer que a vitória de Donald Trump seria a volta do fascismo com outra cara. Trump venceu democraticamente com uma maioria indiscutível. A isso se dá o nome de soberania. Recentemente, o governo brasileiro mandou um jato da Força Aérea Brasileira buscar a ex-primeira-dama do Peru, afrontando a lei peruana. Afinal, Nadine Heredia é uma condenada por lavagem de dinheiro, um caso de corrupção envolvendo empreiteiras brasileiras, tal como Lula, que concedeu a ela asilo diplomático. Isso é invasão de soberania patrocinada pelo Brasil à luz do dia. Lula também tentou interferir na eleição argentina com empréstimos ao governo de Alberto Fernández, e enviou seu marqueteiro para ajudar o candidato governista, Sergio Massa. Perdeu.
Dias atrás, foi solidário a Cristina Kirchner, uma condenada pela Justiça argentina que teve amplo direito de defesa num país democrático. Exatamente o que tem sido negado pelo STF, parceiro de consórcio aqui no Brasil, a centenas de brasileiros incluídos nos inquéritos ilegais do dia 8 de janeiro e ao próprio ex-presidente Jair Bolsonaro, uma das demandas claríssimas de Trump. Quem é Lula para falar de soberania quando pede à China para “ajudá-lo” a censurar o TikTok no Brasil? Mas o governo insiste na narrativa contra o “imperialismo ianque”. Não cola.
O desvirtuamento de Lula, por absoluta vaidade ideológica e desespero de reconquistar algum protagonismo internacional, pune o Brasil. O antiamericanismo no século 21 é uma estupidez própria de quem não estuda, não quer estudar desde o século passado ou não está nem aí para os interesses nacionais. Dois números com as devidas datas: nos últimos dez anos, os EUA investiram no Brasil US$ 357 bilhões, segundo a Confederação Nacional da Indústria. A China precisou de 16 anos para chegar à cifra de US$ 66 bilhões, dado divulgado pelo Conselho Empresarial Brasil-China. Governo inteligente e sensato manteria ambos os parceiros. Como era e vinha caminhando muito bem até o dia em que Lula fez tudo o que fez, desde que voltou ao Palácio do Planalto naquela tal eleição de 2022. A volta do petista ao poder que, segundo o ministro Gilmar Mendes, foi por causa do STF. Hoje, com a verborragia incontida de quem fala o que não pensa ou fala o que pensa errado, Lula expõe o país ao que pode se tornar sua maior crise diplomática da história com enormes consequências econômicas e geopolíticas para o Brasil.
Desde o anúncio da sobretaxa pela Casa Branca, o setor privado nacional, sobretudo o industrial, mobilizou-se rapidamente para dar respostas rápidas e tentar preservar o mercado americano para os produtos brasileiros. Reclamam que o governo federal, soberbo e movido a radicalismos ideológicos, tem agido para implodir todas as pontes. Importante notar que o setor exportador brasileiro, seja de commodities agrícolas, seja de produtos industriais manufaturados, inclusive os aviões da Embraer, conseguiu mercado no exterior por competência própria. Se fosse apenas preço, a China sempre está em liquidação. Foi qualidade brasileira. E olha que ser competitivo e estar na cadeia produtiva e de suprimentos da indústria americana ou em qualquer lugar do planeta é algo imenso. Aqui, o empresário produz sob uma insana carga tributária, tem um dos piores regimes fiscais do mundo, apanha da elevada insegurança jurídica e de infraestrutura insuficiente e convive com o decantado baixo nível da educação brasileira, o que compromete a formação de mão de obra qualificada. Sem contar o desvirtuamento das bolsas assistencialistas. Tudo isso encarece o produto nacional. Mesmo assim, os empresários brasileiros abrem mercados.

É tudo isso o que Lula e sua irracional sanha de poder estão colocando em risco porque ele só pensa em um pretensioso ganho político-eleitoral no ano que vem. Sem pudores, joga o país na vala diplomática e compromete indústrias e empregos. E isola o Brasil até de aliados no Brics. A Índia disse que não há nenhum plano de “desdolarização” no grupo. A Rússia também já havia dito que a ideia da moeda do Brics foi só do Brasil. Enquanto se prende no falatório inconsequente de uma agenda externa torta e não assume o estado de exceção político dentro do próprio país, o governo Lula vê a Casa Branca anunciar um acordo comercial histórico com o Japão. A moeda japonesa foi à estratosfera. Reino Unido, Filipinas, Vietnã e Indonésia também fecharam boas negociações. A Europa caminha no mesmo sentido. Índia e China estão avançando em seus acordos com os EUA. O mundo e o Sul Global sensato negociam e prosperam. O Brasil de Lula fala… bobagem.
É crescente o movimento entre empresários, entidades setoriais regionais e de classe, hoje órfãs de suas confederações em Brasília — porque omissas ou sequestradas politicamente —, de que o governo de Lula 3 enxerga o tarifaço americano contra o Brasil apenas como uma oportunidade política. Embora empresários convivam com o medo de retaliações de órgãos governamentais batendo à sua porta com estranhas fiscalizações “fora de hora”, ninguém mais nega a realidade do estado de exceção hoje no país, a insegurança jurídica de um Supremo anabolizado e sem controle — nem da Constituição! — e um governo de ideologias ultrapassadas que não consegue governar porque é incapaz de apresentar boas ideias e práticas republicanas. Também há um consenso de que a atual gestão coloca a sobrevivência das empresas e o futuro do país sob sério risco. O termo “venezuelização”, antes reservado ao debate mais quente das redes sociais, tem se tornado frequente em conversas reais de quem sabe que tudo tem um custo. Não por acaso.
Mas, apesar do incômodo demonstrado em conversas privadas, é preciso mais. Mais gente disposta a publicamente defender o país do lulopetismo pernicioso e denunciar os abusos e os abusadores da lei e da vida brasileira. O ex-presidente Michel Temer, em que pese o fato de que poderia ter se manifestado antes, entrou como candidato à mediação. Com a autoridade de constitucionalista respeitado e de quem conviveu democraticamente com o “fora, Temer”, patrocinado pelo PT durante os dois anos e meio em que foi presidente — sem jamais perseguir os críticos —, divulgou um vídeo falando de pacificação. Antes de se solidarizar com ministros do Supremo que tiveram vistos suspensos e reclamar da taxação, um gesto previsível de negociador, disse:
“Na turbulência, mais do que nunca, é que devemos buscar entendimento, construir consensos, buscar convergências, buscar união, respirar respeito. É isso que mantém a democracia viva e um país soberano. E tudo isso deve começar dentro de casa, para depois atravessar fronteiras.”
Fico com o principal: a solução começa “dentro de casa”. No caso de Temer, o recado é claro: respeito à Constituição antes de tudo. É o mesmo que Trump deixou claro e evidente na sua carta a Lula.
É preciso se posicionar. Na sua célebre obra Grande Sertão: Veredas, João Guimarães Rosa diz que “o que a vida quer da gente é coragem”. Todo mundo já entendeu onde está e sabe o certo e o errado. Então, coragem!
Leia também “Lula e mais 50% de problemas”



Única solução: impeachment de Lula/Moraes já.
O líder da quadrilha petista está feito pinto no lixo, doidinho para se jogar no colo da ditadura chinesa. E o povo? Que se dane!
E não é questão de coragem , mais de querer NEGOCIAR E ANISTIAR. ALIAS O CERTO SERIA ANULAR TODAS PENAS INCONSTITUCIONAL , IMPOSTA.
Essa mania carioca de viver de PESQUISA FALSAS, característica que perdurou na BAHIA e , como o RIO DE JANEIRO , sendo ambas Ex-Capital Federal, faz com que uma atitude impensada , usar a antipatia antiamericana( pura inveja sentir-se cachorro viralata) e agora a taxação como cortina de FUMAÇA, pra as intempéries do DESGOVERNO. Quer seja numa boa PROPAGANDA-MARKETING ( gasto desnecessário como caso dos correios), assim como projetos injeta e retira dinheiro ( BOLSA FAMÍLIA , PÉ MEIA..) E deixando descoberto SAUDE, EDUCAÇÃO E SEGURANCA. Sabemos que a meta de levar PAÍS ao COMUNISMO, está próximo à meta 2030 pode ser antecipada 2027. Mais POLITICOS E FARIA LIMA , não perceberem isso , a ponto de precisar de uma taxação. Não que EEUU seja bonzinho, mais interesses deles e alinhamento da nossa importação X exportação a dolar e não REAL X YUAN, o tal YUAN está cotado a menos do que o real 0,078 e se duvidar estará menor , pois a valorização ou desvalorização depende do humor do presidente da CHINA.
Excelente texto Piotto, análise de um profissional qualificado.
Piotto como sempre: lúcido, assertivo e esclarecedor rigoroso fis fatos !
Excelente artigo.
A situação do Brasil é culpa exclusiva de duas pessoas, Lula e Moraes. O primeiro por total incompetência diplomático preso a um passado ideológico evaporado. O segundo por violação às leis brasileiras e a invenção do Golpe do 8 de janeiro, protagonizando uma das maiores perseguições políticas na História do Brasil. O que está vindo são consequências. Piotto em seu artigo desmonta todas as falácias de Lula que ainda não desceu do palanque sindicalista, palavras que debocham Trump, que faltam com a verdade, chuta números, considera-se o melhor presidente de todos os tempos. Piotto aponta a solução, “ela está dentro de casa”, sugerida por Temer. Um velho princípio das leis físicas, “remova a causa e cessarão os efeitos”. O que significa remover as peças quebradas para a máquina voltar a andar. Para isso, é preciso coragem.
Vale lembrar que quem indicou o Torquemada tupiniquim foi Temer, que já conhecia seus métodos de “trabalho”.
É aí que está o problema CORAGEM essa que CONGRESSO não tem e nem KASSAB teve . E quando o nome de MOTTA foi indicado só ele e os estrategista ou não sabiam da família que esse tinha e o outro lado mandou vasculhar sua vida pra tê-lo nas mãos, o conhecido na política de RABO PRESO.
Parabéns Piotto pelo belíssimo e esclarecedor artigo.