Num pedestal de pedra na Tavistock Square, em Bloomsbury, no centro de Londres, repousa uma escultura de Mahatma Gandhi, já envelhecido. Ele é retratado de pernas cruzadas, com um xale sobre o ombro e os olhos perpetuamente baixos — uma imagem contemplativa, plácida. Vinte anos atrás, esse tributo ao pacifista mais famoso da história testemunhou silenciosamente um ato de violência quase indescritível.
Às 9h46 de 7 de julho de 2005, um ônibus de dois andares da linha 30 entrava na praça. Não deveria estar lá. Mas, naquela manhã, a rede de transporte de Londres havia mergulhado no caos. Por toda a área da Euston Road, ônibus lotados com a multidão, já passada a hora do rush, estavam sendo desviados para outras rotas — entre eles, o da linha 30 para Hackney Wick, que rodava pela Tavistock Square. Nesse ônibus em particular, no entanto, havia um passageiro que não ia para o trabalho, para a faculdade ou mesmo para um ponto turístico. Hasib Hussain, de 18 anos, procurava uma oportunidade para detonar a bomba escondida em sua mochila. Às 9h47, Hussain encontrou essa oportunidade. A explosão subsequente destruiu o ônibus, dilacerando aqueles que estavam mais próximos. Hussain matou a si mesmo e mais 12 inocentes, e feriu muitos mais.
Logo se descobriu que a carnificina na Tavistock Square foi o quarto e último ato de uma campanha orquestrada de atentados suicidas, realizada por uma gangue de jihadistas britânicos. Seis horas antes, Hussain, junto com o líder dos homens-bomba, Mohammad Sidique Khan, de 30 anos, e Shehzad Tanweer, de 22, havia partido de sua cidade natal, Leeds, em um carro alugado com destino a Luton. Lá, eles se encontraram com o quarto membro de sua equipe, Germaine Lindsay, de 19 anos, que então vivia em Aylesbury, Buckinghamshire, mas era originalmente de Leeds. Com mochilas carregadas de explosivos, eles pegaram o trem para London Kings Cross antes de entrar no metrô. A intenção era clara — detonar bombas em vagões de trem lotados, de manhã, durante a hora do rush.

Por volta das 8h50, três deles completaram sua sórdida missão. Khan detonou seu artefato em um trem da Linha Circle, no sentido oeste, que seguia para Paddington, matando seis pessoas. Tanweer fez o mesmo em um trem da mesma linha, mas no sentido leste, entre Liverpool Street e Aldgate, matando sete pessoas. E Germaine Lindsay detonou sua bomba na Linha Piccadilly, no sentido sul, logo depois de o trem sair de Kings Cross, matando 26.
Hussain deveria estar na Linha Northern, mas o serviço foi suspenso naquela manhã. E assim, quase uma hora depois de seus companheiros islamistas radicais terem explodido três vagões de trem, Hussain destruiu um dos símbolos mais famosos da capital — o ônibus vermelho de dois andares.
Além dos homens-bomba, 52 homens e mulheres foram mortos naquela manhã fatídica. Cinquenta e duas vidas ceifadas repentinamente. Como Gladys Wundowa, uma mãe de 50 anos, com dois filhos, que se deslocava entre dois empregos na área de limpeza. Como a jovem Carrie Taylor, uma aspirante a romancista a caminho do trabalho na Royal Society of Arts. Como Atique Sharifi, um muçulmano afegão de 24 anos que havia fugido do Talibã e tentava reconstruir sua vida na capital britânica. Pessoas que significavam muito para tantos outros, que de repente não estavam mais lá.
Quase 800 outras pessoas ficaram feridas, 24 delas em estado grave. As explosões queimaram a pele das pessoas, enquanto estilhaços dilaceraram sua carne e seus ossos. Naquela manhã, dezenas de pessoas ficaram aleijadas, foram mutiladas, perderam membros, visão, audição. Sobreviveram, mas sua vida sofreu um impacto irremediável.
Embora a maior parte das vítimas estivesse escondida nos túneis sob essa grande cidade, a devastação foi imensa. Os atentados de Londres constituem o mais letal ato terrorista no Reino Unido desde o atentado ao voo 103 da Pan Am sobre Lockerbie, em 1988, quando 270 pessoas foram mortas.
Apesar da escala da atrocidade que se abateu sobre Londres, há muito tempo existe um desconforto em torno da memória do 7/7. Não foi propriamente esquecido. O príncipe Charles inaugurou um memorial no Hyde Park, em 2009, com 52 colunas de aço inoxidável para representar cada uma das vítimas dos terroristas suicidas. E neste ano, para marcar o 20º aniversário da data, vários documentários perspicazes foram lançados por BBC, Netflix e Sky. Mas o 7/7 nunca teve, nem de longe, a mesma importância cultural e política para a Grã-Bretanha que o 11 de Setembro tem para os Estados Unidos.

A disparidade pode ser parcialmente explicada pura e simplesmente pela magnitude do ataque da Al-Qaeda às Torres Gêmeas. Mas há uma razão mais importante. Os atentados de Londres levantam questões incômodas sobre a sociedade britânica que o 11 de Setembro não levantou sobre a América. Afinal, os autores dos ataques em Nova York e no Pentágono eram naturais do Egito, do Líbano, da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos — o 11 de Setembro poderia, portanto, ser concebido como um ataque orquestrado por pessoas de fora dos EUA.
Mas esse não foi o caso dos autores dos atentados de Londres. Eles vieram de Leeds. E, com exceção de Germaine Lindsay, que nasceu na Jamaica, todos eram nascidos na Grã-Bretanha. O 7/7, então, foi um ataque perpetrado por cidadãos do Reino Unido. Como o ex-primeiro-ministro Tony Blair declarou recentemente, os homens-bomba de Londres “foram criados na Grã-Bretanha e… desfrutaram de todas as vantagens de serem britânicos, mas, apesar disso, ainda queriam causar um dano extenso e profundo ao nosso país”.
Por que um grupo de britânicos, três dos quais nascidos no país, quis massacrar seus próprios concidadãos? Essa é a pergunta que ainda paira sobre o 7/7. A pergunta que teima em permanecer sem resposta, impedindo que a gravidade do que aconteceu há duas décadas seja verdadeiramente compreendida. E isso apesar de o extremismo islâmico, grande parte dele doméstico, continuar sendo de longe a maior fonte de violência terrorista letal.
É claro, houve respostas simplistas apresentadas para o 7/7. Como alguns da direita argumentaram, esses jovens muçulmanos trouxeram a morte à capital simplesmente por serem muçulmanos. Para usar os termos do famoso ensaio de Bernard Lewis na revista The Atlantic em 1990, eles foram impulsionados por uma “raiva muçulmana” sem precedentes contra o Ocidente. Mas o Islã sozinho não explica por que apenas alguns jovens muçulmanos se transformam em jihadistas suicidas.
O que é surpreendente sobre os homens-bomba de Londres é quão pouco devotos eles foram durante a maior parte de sua curta vida. Até mesmo seu líder, Khan, de 30 anos, parecia pouco interessado no Islã até seus vinte e poucos anos. Na verdade, como outros jihadistas domésticos na Europa, o estilo de vida de Khan era em grande parte secular. Conhecido como “Sid” na escola, ele se relacionava com garotas, bebia álcool, usava drogas e mais tarde teve problemas com a polícia — recebeu advertências por agressão e por receptação de bens roubados. Foi somente mais tarde, no interior e nos arredores da Iqra, uma livraria islâmica em Leeds, e em uma academia local, que ele e jovens muçulmanos britânicos-paquistaneses, em um círculo cada vez mais fechado, começaram a se inclinar para o islamismo radical — uma vertente fundamentalista desconectada da fé de seus pais ou de sua mesquita.

Parece haver um momento-chave na vida jovem de cada um dos terroristas suicidas, desde a viagem de Hussain para visitar parentes no Paquistão, em 2004, até os problemas de Tanweer com a polícia, no mesmo ano, que impulsionaram uma virada em direção ao Islã radical. Seu compromisso com uma vertente salafista-jihadista violenta e antiocidental foi uma escolha adulta, ou quase adulta, não algo inevitável.
A explicação simplista da esquerda — a teoria do “efeito bumerangue” — também é pouco convincente. Eles ainda parecem acreditar que os homens-bomba de Londres foram levados a massacrar inocentes desconhecidos pelo sentimento antimuçulmano no Reino Unido e, acima de tudo, pelo envolvimento da Grã-Bretanha na Guerra do Iraque e na ocupação do Afeganistão. Como um ensaio da revista London Review of Books descreveu poucos dias depois do 7/7, “a guerra de Blair foi um exercício de recrutamento para jovens jihadistas”.
Talvez porque soe “anti-imperialista”, essa tem sido a resposta-padrão irrefletida da esquerda ao 7/7, quase desde o momento em que as bombas explodiram. Da coalizão Stop the War ao jornal The Guardian, setores da esquerda apresentaram o 7/7 como uma reação terrível, mas previsível, ao envolvimento da Grã-Bretanha em guerras em países predominantemente muçulmanos. Em 2015, Ken Livingstone, prefeito de Londres na época do 7/7, disse a uma audiência do BBC Question Time que Tony Blair foi avisado pelos serviços de segurança de que, se a Grã-Bretanha entrasse no Iraque, se tornaria alvo do terrorismo: “Ele ignorou esse conselho e isso matou 52 londrinos”. É um sentimento que persiste até hoje. A ativista de direitos humanos Yasmin Khan disse ao jornal The Independent neste mês que os extremistas foram capazes de usar “a raiva legítima” que as pessoas “sentiam em relação ao Iraque, Guantánamo e Abu Ghraib” como combustível para ataques terroristas como o 7/7.
De fato, é verdade que Khan, em um vídeo póstumo divulgado pela Al-Qaeda em setembro de 2005, justificou atacar “cidadãos ocidentais” porque eles elegeram governos que supostamente cometeram crimes contra a humanidade. O vice de Osama bin Laden, Ayman al-Zawahiri, também apareceu na gravação, alegando que a decisão de Blair de ir à guerra no Iraque foi responsável pelo 7/7.
Mas, ao se aprofundar um pouco, esse argumento asqueroso de “nós mesmos causamos isso” faz pouco sentido. A sequência está errada, para começar. O ataque da Al-Qaeda às Torres Gêmeas precedeu as invasões do Afeganistão e do Iraque. Mais importante ainda, a própria decisão de Khan, líder do 7/7, de abraçar o islamismo militante também precedeu não apenas a invasão do Iraque, mas também o próprio 11 de Setembro. Seu primeiro envolvimento sério em grupos jihadistas começou em julho de 2001, quando ele participou de campos de treinamento em Mansehra, na província da fronteira noroeste do Paquistão. Esses campos eram administrados pelo Harkat-ul-Mujahidin, um grupo terrorista da Caxemira aliado ao Talibã. De fato, se houve um conflito internacional que motivou Khan, não foi fruto de alguma intervenção ocidental recente — e sim a disputa de longa data entre a Índia e o Paquistão sobre a Caxemira.

Ambas as respostas simplistas à questão central que assombra o 7/7 sofrem do mesmo problema. Elas buscam a resposta quase que inteiramente “lá fora” para explicar por que essa gangue trouxe a morte ao país em que seus membros foram criados. Elas apontam apenas para sua herança islâmica, ou culpam as guerras ocidentais no Oriente Médio e em seus arredores por levá-los à atrocidade.
Mas o problema dos jihadistas domésticos não está apenas “lá fora” — está aqui no Ocidente, e também na Grã-Bretanha. Esses jovens muçulmanos de segunda geração, crescendo em um subúrbio decadente de Leeds, foram moldados por sua própria situação, não pela das pessoas no Afeganistão, no Iraque ou no Paquistão — sobre as quais sabiam muito pouco. Como Kenan Malik argumenta no livro From Fatwa to Jihad (2009), a raiz da adesão deles a uma forma militante do Islã residia em um profundo estranhamento e ressentimento em relação à sociedade dominante. Uma sensação de injustiça que os corroía. Uma percepção de que a vida na Grã-Bretanha não lhes oferecia aquilo a que eles sentiam ter direito. Uma noção de que a sociedade dominante lhes era alheia.
Um sentimento de alienação ou de falta de integração não é suficiente por si só para impulsionar alguém em direção ao salafismo. De fato, no passado, poderia tê-los levado a distintas formas de rebelião juvenil sem caráter religioso. Poderia até mesmo tê-los empurrado para uma política de classes secular. Mas essa era a Grã-Bretanha da virada do milênio. A política baseada em classes praticamente havia desaparecido a essa altura.
Além disso, desde a década de 1980 e a publicação do relatório de Lord Scarman sobre os distúrbios de Brixton em 1981, o Estado se mostrava determinado na promoção do multiculturalismo. Na ausência de qualquer visão positiva e unificadora para a Grã-Bretanha, isso se tornou o método preferido do Estado para gerenciar tensões étnicas e sociais. Essa abordagem dividiu efetivamente a sociedade em diferentes blocos de identidade cultural e os colocou em oposição à cultura dominante. As pessoas foram incentivadas a se ver não sob uma perspectiva secular de nação ou de classe, mas sob uma ótica restrita a aspectos étnicos — frequentemente como vítimas de uma ou outra forma de preconceito da maioria. Migrantes e seus filhos não seriam mais encorajados a se integrar ou assimilar à sociedade britânica dominante.
Acima de tudo, a promoção estatal do multiculturalismo fomentou o desenvolvimento de uma forma de política de identidade muçulmana, especialmente entre imigrantes de segunda, terceira e quarta geração. Até então, a religião havia sido em grande parte uma questão de consciência para os muçulmanos britânicos, assim como para católicos, anglicanos ou sikhs. Mas, na década de 1990, ela estava se transformando de um assunto privado em uma identidade pública — a ser exibida e afirmada frequentemente contra a corrente principal da cultura britânica. Isso era evidente em tudo, desde o aumento do uso do véu entre jovens mulheres muçulmanas até a identificação cada vez mais veemente, embora superficial, com causas transnacionais “muçulmanas”, como a Palestina.

Forças internacionais também desempenharam um papel nisso, é claro, inflamando as tensões identitárias e os antagonismos criados pelo multiculturalismo. Acima de tudo, o declínio de um nacionalismo árabe amplamente secular durante as décadas de 1960 e 1970, e a ascensão do islamismo militante em seu lugar, impulsionaram de maneira simultânea a política de identidade muçulmana na Grã-Bretanha. A Irmandade Muçulmana pode ter promovido o Islã político desde a década de 1920, mas na década de 1970 foi acompanhada pelo governo saudita, que havia começado a injetar dinheiro do petróleo em organizações salafistas fundamentalistas ao redor do mundo. E então, em 1979, a Revolução Iraniana deu origem a um Estado Islâmico real.
Em todos os casos, o islamismo foi concebido como uma causa global. De fato, em 1989, a decisão do líder supremo da República Islâmica, o aiatolá Khomeini, de emitir uma fatwa contra Salman Rushdie trouxe a política de identidade muçulmana à tona na Grã-Bretanha, enquanto jovens muçulmanos, em sua maioria, começaram a desafiar os valores seculares de sua própria nação — tristemente, com pouca ou nenhuma resistência real dos invertebrados morais das elites políticas e culturais britânicas.
Foi nesse contexto social — desprovido de radicalismo secular, moldado por décadas de multiculturalismo e infundido pelo islamismo vindo de longe — que primeiro Khan e depois Tanweer, Lindsay e Hussain passaram a entender e enquadrar sua alienação juvenil do mainstream. E o fizeram como muçulmanos muito modernos. Como portadores de uma identidade cultural supostamente ameaçada por um Ocidente sem Deus. Como supostas vítimas de uma sociedade inóspita.
Por meio de grupos sociais informais nos arredores da livraria Iqra, da academia, e no caso de Khan e Tanweer, de uma gangue muçulmana local chamada Mullah Boys, eles foram logo atraídos para a forma mais extrema de política identitária muçulmana — o islamismo militante. Ali encontraram o que procuravam. Não fé no sentido tradicional, mas validação, reconhecimento e propósito. O islamismo lhes forneceu o roteiro de sua rejeição depravada à sociedade britânica. Eles foram capazes de se ver como heróis em sua própria história de “o bem contra o mal”, de muçulmanos vitimados contra um Ocidente cruel e desalmado.
Quando Khan e sua gangue alugaram um apartamento em Leeds para começar a fabricar suas bombas, no início de 2005, com a ajuda de um contato no Paquistão, eles efetivamente se comprometeram com a morte. Desde o 11 de Setembro, a busca pelo suicídio enquanto se comete assassinato em massa começou a distinguir os jihadistas radicais das gerações anteriores de islamistas. Os homens-bomba de Londres não foram exceções. Isso porque o ato de violência para os jihadistas modernos não é um meio para um fim. É um fim em si mesmo. É o momento em que sua rejeição às sociedades em que vivem e sua revolta contra a sociedade que passaram a detestar se tornam autênticas. O momento em que esperam ser reconhecidos, validados pelo que acreditam ser: guerreiros sagrados. Os homens-bomba de Londres foram impulsionados por um niilismo narcisista — um desejo intenso, alimentado por uma política de identidade perversa, de serem vistos no ato de autodestruição como os muçulmanos mais puros e violentamente virtuosos. “Eu e milhares como eu estamos abandonando tudo por aquilo em que acreditamos”, disse Khan em seu vídeo póstumo da Al-Qaeda.

E assim, em 7 de julho de 2005, quatro jovens chegaram à estação Kings Cross de Londres com um plano para matar a si mesmos e o maior número possível de nós. Porque acreditavam que eram puros, e nós, não. Foi uma atrocidade tornada possível não pela guerra no Iraque, mas por uma política identitária muçulmana perversa encorajada tanto pelas próprias elites britânicas quanto por islamistas estrangeiros.
É por isso que o 7/7 se tornou a atrocidade esquecida. Por que o ataque terrorista mais letal do Reino Unido no século 21 deixou uma marca cultural e um impacto político tão pequenos? Porque levanta questões incômodas, particularmente sobre multiculturalismo e integração, que as autoridades não querem que sejam suscitadas. Mas, até que estejamos preparados para confrontar as origens domésticas do 7/7, as lições dessa calamidade, de um modo obstinado, permanecerão não aprendidas.
Tim Black é colunista da Spiked.
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Parabéns pelo excelente artigo . Relato abrangente e cuidadoso do atentado.