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Albert Spaggiari, cercado por policiais e seu advogado, em 1976. Até então, ele era considerado o mentor do roubo no banco em Nice, na França | Foto: Reprodução
Edição 277

Imagem da Semana: o assalto do século

Em 1976, os esgotos da cidade francesa de Nice serviram de acesso para um dos maiores roubos a banco da história

Em um quente e tranquilo fim de semana na Riviera Francesa, em 1976, foi realizado o elaborado roubo a banco que ganhou notoriedade internacional como “o assalto do século”. O feito só foi descoberto durante o expediente da segunda-feira subsequente, quando a gerência do banco percebeu que a porta do cofre estava misteriosamente bloqueada. Os bandidos tiveram o cuidado de soldá-la por dentro com um maçarico, e deixaram uma mensagem rabiscada com tinta spray nas paredes do cofre: “Sans armes, ni violence, ni haine” (“Sem armas, nem violência, nem ódio”).  

O assalto ocorreu em Nice, entre os dias 16 e 18 de julho de 1976, e mobilizou uma equipe de 20 bandidos, supostamente liderada pelo fotógrafo de eventos Albert Spaggiari, conhecido por ser rebelde e ficar constantemente encrencado por roubos. Spaggiari notou que os esgotos subterrâneos da cidade passavam a uma curta distância do banco Société Générale, localizado na Avenida Jean Médecin. Primeiro, por precaução, alugou um cofre do banco e instalou nele um despertador barulhento programado para tocar à meia-noite. Spaggiari queria testar o sistema de segurança e garantir que não houvesse alarmes acústicos que pudessem atrapalhar seus planos. De fato, não havia. 

A invasão aconteceu a partir de um túnel de 7,6 metros escavado pelos bandidos e que conectava uma agência do sistema de esgoto da cidade à câmara onde estava o cofre. O empreendimento levou dois anos de planejamento e meticulosa execução. Equipamentos e ferramentas foram roubados de canteiros de obras na região, além da energia elétrica de uma luminária em um estacionamento próximo. Foram adquiridos materiais para escorar o túnel e equipamentos de ventilação para manter o ar circulando.

Spaggiari recrutou uma gangue de bandidos de Marselha que, durante dois meses, no verão de 1976, moveram-se todas as noites entre os dejetos humanos para cavar o túnel. Ele exigia que fosse escorado, como um poço de mina.

Um tanque de acetileno é retirado dos esgotos dias depois de o banco ter sido assaltado, em Nice | Foto: Domínio Público

Na noite de sexta-feira, no feriado de três dias do Dia da Bastilha, eles arrombaram o cofre e selaram a porta por dentro com uma pistola de solda. Durante dois dias e duas noites, de sexta a domingo, esvaziaram 371 cofres de um total de mais de 4 mil. Durante a estadia no banco, cozinharam suas refeições, beberam vinho e usaram terrinas de prata antigas como vasos sanitários. O grupo, que ficou conhecido como “gangue do esgoto”, escapou com um montante entre US$ 8 milhões e US$ 10 milhões em ouro, dinheiro, joias e pedras preciosas.

Quando os funcionários do Société Générale descobriram o roubo e conseguiram abrir a porta do cofre, encontraram caixas de depósito espalhadas pelo chão, restos de refeições consumidas pela gangue e a mensagem de despedida.

O banco não tinha um inventário do que havia dentro dos cofres, de modo que jamais foi possível calcular com exatidão o valor total roubado. A Agence France-Presse (AFP) descreveu cenas de pânico no banco, ocupado por centenas de “clientes ansiosos para saber se o número da chave do seu cofre estava na fatídica lista de cofres arrombados”. “Um copo de conhaque foi servido a uma senhora que desmaiou após o anúncio do desaparecimento de suas joias.”

Clientes preocupados fazem fila do lado de fora do banco Société Générale, em Nice, após o assalto em julho de 1976 | Foto: Domínio Público

O assalto aconteceu a apenas 200 metros do Departamento de Segurança Urbana. Jacques Besson, superintendente-chefe da Polícia Judiciária de Nice, explicou à AFP na época que “eles cavaram o túnel exatamente no nível que lhes permitiria tombar o cofre de cinco toneladas, que estava encostado na parede. Um pequeno erro teria arruinado a operação”. Acrescentou também que o roubo havia sido meticulosamente planejado por um grupo eclético: “Especialistas em dessoldagem cortaram os cofres com maçaricos. Eletricistas instalaram centenas de metros de cabos pelos canos de esgoto para iluminar as lâmpadas portáteis necessárias para a construção do túnel. Pedreiros cimentaram completamente as paredes do túnel, cavadas na altura do peito, para evitar um desabamento e facilitar a passagem de sacos cheios de riquezas”.

Escultura Os Caras Legais, do artista francês David Maddalena, em referência ao assalto ao banco La Société Générale. A obra de 1,7 metro de altura estampa a mensagem “nem armas, nem violência, e sem ódio”. Foi instalada no Parc du Rey, depois que o banco se recusou a colocá-la em frente à sua porta, em Nice, na França | Foto: Francois Glories/SIPA/Shutterstock

Algumas semanas depois, a partir de uma denúncia, a polícia prendeu um dos ladrões, que revelou o nome de toda a gangue, incluindo Spaggiari. Ele estava em viagem ao Extremo Oriente acompanhando o prefeito de Nice como fotógrafo. Foi preso assim que o avião retornou. Mas, logo depois, no dia 10 de março de 1977, solicitou uma reunião privada com o juiz de gabinete, supostamente para discutir informações. Foi nesse momento que conseguiu escapar do escritório do magistrado. Reclamou do calor, levantou-se, abriu uma janela e pulou de uma altura de quase três metros. Com um sorriso no rosto, gritou “Au revoir!” e desapareceu, levado na garupa da moto de um cúmplice que o aguardava. Uma cena digna de filme de comédia. O motorista da moto, Gerard Rang, foi preso posteriormente, e Spaggiari foi condenado à revelia à prisão perpétua. A polícia francesa nunca o capturou. Passou o resto da vida vagando entre a América do Sul e a Europa, com rumores de que ocasionalmente voltava à França para ver a mulher. Permaneceu foragido até ser entregue, muitos anos depois, à casa de sua mãe, na Itália, para morrer. Spaggiari morreu de câncer de pulmão, em 1989.

Albert Spaggiari chegando ao tribunal | Foto: Domínio Público

Seis outros homens foram presos com Spaggiari no roubo. Três deles foram absolvidos, e os outros receberam penas de cinco a sete anos de prisão. Em seu livro, Spaggiari reclamou das condições precárias em que trabalhou para realizar o assalto em Nice. Ele também lamentou não ter conseguido abrir os quase 3,5 mil cofres restantes por falta de equipamentos adequados. Descreveu, também, o uso de grandes quantidades de sabão de banho para ajudar a limpar o lodo do esgoto. A história inspirou o filme Les Égouts du Paradis (“Os esgotos do paraíso”). Os jornalistas franceses René-Louis Maurice e Jean-Claude Simoën documentaram o caso em O Assalto do Século, posteriormente adaptado pelo autor de suspense Ken Follett.

Quatro décadas depois, em 2010, o caso sofreu uma reviravolta inesperada, quando um criminoso de carreira escreveu um livro cheio de detalhes, no qual se autodenominava o mentor do roubo. Sob o pseudônimo de “Amigo”, Jacques Cassandri afirmou ser o verdadeiro cérebro do famoso assalto de 1976. Presumiu que estava seguro, porque o crime era antigo, e julgou que já havia prescrito. Mas Cassandri esqueceu que os crimes de lavagem de dinheiro não caducam na França. Quando soube, assegurou que o livro não passava de um romance. A Justiça de Marselha não pôde condená-lo pelo roubo, mas o sentenciou a 30 meses de prisão e 200 mil euros de multa por desvio de fundos, trabalho irregular, tráfico de influências e outros delitos ligados aos seus negócios imobiliários. Depois de sua morte, em 2022, o clã Cassandri sofreu inúmeras consequências pelo histórico familiar de lavagem de dinheiro.

Há sempre, entre os grandes criminosos, um excesso de presunção e petulância que acaba revelando sua canalhice.

Jacques Cassandri | Foto: Reprodução

Daniela Giorno é diretora de arte de Oeste e, a cada edição, seleciona uma imagem relevante na semana. São fotografias esteticamente interessantes, clássicas ou que simplesmente merecem ser vistas, revistas ou conhecidas.

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8 comentários
  1. Leonardo de Almeida Queiroz
    Leonardo de Almeida Queiroz

    Petulancia de criminosos:
    Derrotamos o bolsonarismo
    Eleição nao se ganha, de toma
    Etc….

  2. MB
    MB

    Os criminosos consideram-se impunes. O ego do criminoso é vaidade pura e o narcisismo alimenta todo o seu ser. Não podem resistir aos holofotes e acabam se entregando. Aqui, já sabemos tudo sobre eles, que infestam os serviços públicos.

  3. Izaura Maria Baeta
    Izaura Maria Baeta

    Hoje pela primeira vez leio esta coluna. AMEI! Já vou ler todas as outras demais que tenham sido publicadas. Vou ver também se posso ver os filmes inspirados nos acontecimentos. Excelente.

    1. Renato Perim
      Renato Perim

      Pois eu lhe digo que você vai amar todas as reportagens dessa coluna, Izaura. Uma melhor que a outra.

  4. Marcos Antônio de Carvalho
    Marcos Antônio de Carvalho

    Ora!!! Aqui também tem um monte de roubos que poderiam ser chamados de roubo do século. E todos na era lula/pt. O último, o mais sensacional: roubaram mais de US$ 1 bilhão dos velhinhos aposentados do INSS. Nem precisaram de túneis ou altas despesas: foi suficiente que o irmão do lula estivesse entre os meliantes…..

    1. Izaura Maria Baeta
      Izaura Maria Baeta

      Sim é verdade. Os tempos mudaram e os assaltos hoje são a luz dos olhos e mais não temos mais polícia, juízes que combatam os crimes. Verdadeiramente todo o “charme” dos 70 se foi, aí se roubavam os ricos, não que fosse certo, nesses cofres estavam também muitas economias, porem agora o roubo descarado dos pobres por um gatuno sem vergonha, podre, nojento, mentiroso e que se diz ser comunista em favor dos pobres! Que vergonha! Os brasileiros de bem, gente feliz e pacífica NÃO merece.

  5. RENATO
    RENATO

    A seção “IMAGEM DA SEMANA” é sempre muito aguardada!
    Excelente trabalho de reportagem!

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