Era para ser apenas mais um dia de trabalho. Por volta das 6 horas da manhã de 21 de julho de 2017, o auxiliar de almoxarifado Maurício Vieira, de 65 anos, dirigia seu Chevrolet Onix na Rua Otacílio Pedro Vasco, na Baixada Fluminense, quando a violência cruzou seu caminho. Quatro homens saltaram de um veículo preto, um deles mascarado, a arma na mão. Maurício foi arrancado do próprio carro, enquanto a quadrilha assumia o volante e desaparecia no horizonte. Tudo aconteceu de forma tão rápida e coordenada que parecia ensaiado. E era mesmo. Investigações da Polícia Civil revelaram que roubos desse tipo se transformaram em uma indústria milionária do crime organizado.
Horas depois do assalto, Maurício recebeu uma ligação da seguradora informando que havia localizado o carro no Complexo do Chapadão, área controlada por traficantes na zona norte do Rio. A seguradora resgatou o veículo e o levou ao pátio da polícia, onde o auxiliar de almoxarifado pôde retirá-lo 24 horas depois.
Como funciona o esquema
Assim que um veículo é roubado, os criminosos o levam para dentro das favelas dominadas por facções como o Comando Vermelho ou o Terceiro Comando Puro. Lá, entra em ação um personagem conhecido como “gerente de roubo de veículos”, responsável por decidir o destino de cada automóvel. Se não houver seguro, o carro é encaminhado para o desmanche, onde as peças são revendidas em ferros-velhos. No entanto, se tiver contrato com alguma seguradora, o veículo passa a integrar um esquema paralelo de resgate.
Para viabilizar o esquema, o gerente aciona os chamados “falcões” — intermediários a serviço do crime encarregados de contatar as empresas de “pronta-resposta”. Essas empresas, terceirizadas das seguradoras, negociam diretamente com os falcões o pagamento para a devolução dos veículos roubados.

As negociações giram em torno de R$ 5 mil a R$ 10 mil, no caso dos carros populares, ou aproximadamente 10% do valor de mercado, no caso dos veículos de luxo. Já as motos podem ter resgates equivalentes a 30% da tabela Fipe (referência que indica o preço médio do mercado brasileiro). Assim que o dinheiro é repassado pelas empresas de pronta-resposta, os falcões providenciam a devolução do veículo — muitas vezes com o apoio de policiais cúmplices, que atuam para legitimar a recuperação e conduzir o carro até o pátio legal.
O dinheiro é repartido da seguinte maneira: até 70% do valor do resgate fica com os sequestradores, enquanto os 30% restantes são divididos entre os falcões e as empresas de pronta-resposta.
Uma engrenagem milionária
Maurício sofreu o assalto em 2017, quando o sequestro de veículos ainda era uma atividade incipiente. De lá para cá, os bandidos aperfeiçoaram essa prática e a transformaram em uma indústria milionária, o que pressionou o Estado a agir.
Entre setembro do ano passado e maio deste ano, a Polícia Civil do Rio de Janeiro deflagrou a Operação Torniquete, uma ofensiva de proporções inéditas contra essa engrenagem criminosa. Com o apoio de aproximadamente 900 agentes, a Polícia Civil, a Polícia Militar e o Ministério Público cumpriram mais de cem mandados de busca e apreensão em comunidades do Complexo da Penha, na zona norte da capital fluminense. Ali funcionava o quartel-general do Comando Vermelho, que centralizava as ordens para roubos de veículos e de cargas que financiavam armas, munições e ainda bancavam as chamadas caixinhas — mesadas pagas a familiares de bandidos presos.
Os agentes também cumpriram mandados de prisão em imóveis de alto padrão no Recreio dos Bandeirantes e na Baixada Fluminense. Foram apreendidos celulares, computadores, contratos, provas de pagamentos e uma lista de carros recuperados em tempo recorde — o que, segundo a polícia, sugere uma relação umbilical entre os criminosos, as seguradoras e as empresas de pronta-resposta, visto que os veículos eram recuperados sem grandes esforços de rastreamento.
Os números do esquema assustam. Apenas no último ano, quatro empresas de pronta-resposta ligadas às seguradoras receberam mais de R$ 11 milhões para resgatar veículos. Nesse período, cerca de 1,5 mil carros foram recuperados por meio desse circuito clandestino.
Oeste interpelou algumas dessas empresas, como a Falcão Ltda., a Black Hawk, a Central Excelsior e a Job Central, mas não obteve resposta até a publicação desta reportagem.
A aliança criminosa
O esquema não sobreviveria sem a conivência de agentes públicos. Pelo menos três policiais militares são investigados por participação direta nas negociações de devolução de veículos. Segundo apurou a Delegacia de Roubos e Furtos de Automóveis (DRFA), esses PMs ajudavam a encaminhar os carros resgatados ao pátio legal, estrutura da polícia que formalizava a recuperação e permitia ao dono reaver o veículo mediante apresentação de boletim de ocorrência.
Assim, o ciclo se completava: a facção lucrava, a seguradora economizava, a empresa de pronta-resposta recebia sua fatia — e o cliente imaginava que a eficiência na recuperação do veículo era obra de um serviço de qualidade. Ledo engano.

Para o coronel Fábio Cajueiro, ex-chefe do Estado-Maior do Comando de Policiamento da PM do Rio, essa indústria clandestina só cresceu porque as leis brasileiras facilitam as práticas criminosas. “Os caras estão surfando em uma onda de proteção total, seja midiática, seja jurídica, seja legislativa”, resume o especialista, ao acrescentar que o Brasil precisa melhorar a integração entre as forças de segurança. O coronel também cita o avanço da “bandidolatria” no país, termo que se refere à romantização da criminalidade pela classe intelectual. “Os bandidos viram protagonistas de filmes, minisséries e documentários”, afirma. “Mas quem sofre na realidade é sempre a vítima.”
Já o coronel José Vicente da Silva Filho, ex-secretário nacional de Segurança Pública durante o governo Fernando Henrique Cardoso (PSDB), acredita que a raiz do problema está na fragilidade da ação policial. “Os criminosos são muito criativos”, observa. “Estão a todo momento buscando novas formas de arrecadar dinheiro. Esse tipo de crime volta a aparecer sempre que a repressão falha.” Silva Filho também critica a ineficiência da Polícia Civil do Rio de Janeiro. “É uma das mais incompetentes em trabalhos de inteligência e investigação”, avalia o especialista, ao lembrar que o Estado ocupa as piores posições do país na taxa de esclarecimento de homicídios (25%). “Quando esse índice vai mal, pode apostar que o restante segue a mesma direção.” Silva Filho diz ainda que são necessárias ações firmes para mudar o quadro da violência carioca. “Tem de prender os bandidos”, afirma. “Basta prender alguns, não precisa ser todos. O recado acaba sendo enviado para a ‘rádio peão’ dos crimes.”
A cicatriz exposta
Batizada em referência ao instrumento que estanca hemorragias, a Operação Torniquete busca conter o fluxo de dinheiro ilícito que circula entre as instituições públicas e privadas. O balanço parcial impressiona: desde setembro de 2024, foram 520 presos, quase R$ 40 milhões em cargas e veículos recuperados, além de R$ 70 milhões em bens bloqueados.
O secretário de Segurança Pública do Estado, Victor dos Santos, celebra os resultados da operação e promete dar continuidade ao trabalho. “É apenas o começo de uma série de iniciativas semelhantes”, afirma. “Não vai haver local onde a segurança pública não vá estar.”
Mas os desafios são gigantescos. A teia de interesses envolve traficantes, seguradoras, empresas de pronta-resposta e policiais corruptos. Desmontar essa estrutura é como romper correntes forjadas ao longo de décadas, com elos firmemente soldados uns aos outros.
O delegado Mauro César da Silva Junior, da DRFA, reconhece a dificuldade para desmantelar esquemas criminosos sofisticados — como o sequestro de veículos. “As investigações continuam”, salienta. “Há muito ainda a ser apurado.”
Agora o torniquete tenta estancar a ferida aberta de uma cidade que se acostumou a conviver com a violência. A cicatriz continua exposta.
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A legislação brasileira atual foi feita em benefício do crime.
A polícia não é incompetente. Ela enxuga gelo. O judiciário é cúmplice da bandidagem
Os políticos mais corruptos do mundo estão aqui, o que esperar deste país?
O crime é literalmente ORGANIZADO!