Uma das cenas mais marcantes da semana que passou mostra a apresentadora da IRIB, a TV oficial do regime islâmico, já apelidada no Brasil de “a Globo iraniana”. Ela fala com o dedo em riste e expressão de raiva sobre a invencibilidade do Irã contra seus inimigos — até que uma bomba cai no estúdio e acaba com a transmissão.
A cena resume muita coisa. O que estamos testemunhando é muito mais do que uma guerra entre dois países. É um choque entre o século VII e o XXI. É uma guerra espiritual. Os 1,6 mil quilômetros que separam Tel-Aviv de Teerã passam por eras diferentes. Transitam entre um futuro de progresso tecnológico e as trevas do fanatismo cego.
O Irã, que desde 1979 pertence aos aiatolás xiitas, possui basicamente apenas um tipo de arma: bombas transportadas por mísseis e drones que caem aleatoriamente em concentrações civis israelenses. O atual regime iraniano também usou como arma grupos terroristas como o Hezbollah, o Hamas e os Houthis, do Iêmen. Esses grupos usam táticas de terror — matar civis a facadas, explodir bombas em concentrações civis, estuprar mulheres.
Isso não é o Irã — uma sociedade sofisticada, milenar, que entregou à humanidade a herança persa de cultura, arte e ciência. O que estamos vendo é o Irã dos aiatolás, que deram um golpe de Estado em 1979 e transformaram a vida de seus cidadãos num inferno pelos 46 anos seguintes. O regime decidiu que o país deveria voltar ao século 7º, se expandir pela violência e destruir o Estado de Israel.
Guerra desde o primeiro dia
Os israelenses também possuem, como os persas, uma cultura milenar riquíssima. Essa cultura é preservada, mas o país olha para o futuro.
É a tecnologia avançada que permite que um país com uma população nove vezes menor dê uma surra num país com um território 80 vezes maior. A tecnologia de ponta foi uma opção que os israelenses fizeram.
E essa opção seria impossível sem uma educação de primeira, liberdade de criação, economia de mercado, democracia, inclusão racial — tudo o que o Irã deixou de ter desde o momento em que o aiatolá Ruhollah Khomeini pousou em Teerã no dia 1º de fevereiro de 1979 e iniciou a tomada violenta do poder.
Israel luta por sua sobrevivência desde quando foi criado, em 14 de maio de 1948. No dia seguinte, foi atacado por uma coalizão de nove países árabes — e venceu. Decidiu que nunca mais teria sua existência ameaçada.
O tempo passou, a conjuntura internacional mudou, acordos foram feitos. Na prática, sobrou apenas um inimigo poderoso e mortal — a República Islâmica do Irã. Os aiatolás passaram a fazer um jogo dúbio de desenvolvimento de armas nucleares disfarçado de “pesquisa para fins pacíficos”. O furioso ataque do Hamas — que representa o Irã na faixa de Gaza — em 7 de outubro de 2023 iniciou o processo que culminaria no atual conflito.
O plano de ataque
A operação para desmontar definitivamente o perigo nuclear do Irã — e, no embalo, talvez, derrubar a ditadura islâmica — começou há dois anos. A inteligência israelense levantou centenas de alvos potenciais no interior do país. Era um levantamento teórico que começou a virar um plano concreto em outubro do ano passado.

Segundo o jornal Jerusalem Post, no final de novembro de 2024, a inteligência das Forças de Defesa de Israel (IDF, na sigla em inglês) teve uma reunião de dez horas de duração para transformar o plano teórico numa estratégia de ataque. Cerca de 120 oficiais e soldados ganharam um escritório para planejar o ataque específico a cada alvo — centros nucleares, mísseis, drones, comandantes militares, comunicações, defesas aéreas, complexos industriais bélicos, bases econômicas e governamentais.
A matéria do Jerusalém Post mostra que o caminho não foi fácil. Em fevereiro ou março, as IDF resolveram que precisavam fragmentar mais os alvos, o que multiplicou o trabalho. Em certo ponto, esse objetivo parecia impossível. Mas um dos chefes das Forças de Defesa de Israel decidiu continuar a desenvolver o plano. E no dia 13 de junho esse novo capítulo da história começou a ser escrito.
Enxergando através de paredes
Israel ajudou a criar um novo conceito de segurança, com equipamentos de combate cada vez mais sofisticados e inteligentes. É uma questão de sobrevivência e também de economia. Em 2024, as exportações de armas de Israel atingiram o recorde histórico de quase US$ 15 bilhões — uma alta de 13% em relação a 2023.
Alguns exemplos da supremacia tecnológica israelense:
- Sistemas eletro-ópticos com visão noturna e identificação automática de invasores com transmissão em tempo real para operadores e atiradores.
- Drones pesados, como o Hermes 450, capazes de permanecer 20 horas no ar para vigilância tática.
- Sistemas de “munição ociosa”, como o Spike Firefly, que identifica o alvo e permanece no ar pelo tempo que for necessário para que o ataque seja preciso.

- O drone Thor, desenvolvido especificamente para entregar sangue diretamente no campo de batalha, com um sistema de estabilização que garante a qualidade da transfusão.
- Defesa de ataques aéreos por meio de uma combinação em camadas de sistemas — Iron Dome, Estilingue de Davi, Arrow-3 e o Iron Beam, que usa raios laser (o sucesso do Iron Dome inspirou o presidente Donald Trump a iniciar o desenvolvimento de um serviço semelhante — e muito mais ousado —, chamado Golden Dome.
- Sistemas de inteligência artificial para prever movimentações, criar alertas de ameaças e sistemas de defesa. IA amplamente utilizada em análises de inteligência, localização de alvos e escolha de munições.
- Unidade 8200, que cuida da inteligência cibernética das IDF, ofensivas e defensivas (o trabalho da 8200 foi um dos fatores de sucesso do ataque em massa a terroristas do Hezbollah com o uso de pagers explosivos).
- Infiltração de agentes do Mossad (o serviço de inteligência externa de Israel) para o lançamento de microdrones de dentro do território iraniano (esses microdrones abriram brechas na defesa aérea e nos lançadores de mísseis do Irã; segundo as IDF, cerca de um terço dos 360 lançadores de mísseis iranianos foram destruídos em apenas 72 horas).
- Veículos terrestres não tripulados, como o Jaguar e o Guardium/Border Patroller, equipados com câmeras 360°, alta autonomia e capacidade semiautônoma para patrulhar e reagir a ameaças, diminuindo a exposição de soldados.
- Tecnologia de radar UWB, que “vê” através de paredes e túneis e transmite informações em tempo real.
Com toda essa tecnologia, a ação israelense contra o Irã gerou um pequeno filme com bonecos da Lego satirizando a situação:
A opção pelas trevas
Com os dois pés no século 21 e uma sociedade aberta vivendo sob bombardeios e ataques num território do tamanho de Sergipe, Israel deveria ser naturalmente visto como um exemplo a ser seguido.
Mas não é o que acontece para a esquerda. Ao verem que a doutrinação woke enjoou de vez, os esquerdistas resolveram abraçar com vontade a defesa do islamismo. Passaram a apoiar fanaticamente os assassinos do Hamas e agora se abraçam à bandeira da República Islâmica do Irã. Multidões de esquerdistas e astros de Hollywood participam do mais intenso e atuante movimento antissemita desde que os camisas-pardas de Adolf Hitler tomaram as ruas da Alemanha na década de 1930. Dão seu apoio a um regime preso ao século VII, que executa mulheres por mostrarem um pouco de seu cabelo, enforca homossexuais em guindastes e considera ouvir música um crime.
É esse regime que o atual governo brasileiro apoia de forma entusiasmada — em nome de todos nós.
dagomirmarquezi.com
@dagomirmarquezi
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Perfeito, Dagomir. Beleza de artigo! Obrigada pelo esmero de sempre. Parabéns!
Enquanto isso, nossas sucateadas Forças Armadas se esmeram na atividade de pintura de meio-fio…
Sim. Um pequeno que se tornou uma potência tecnológica, científica, armamentista com sua capacidade intelectual, investimentos em pessoas, na formação, no conhecimento.
Nada disso estaria acontecendo não fossem as ameaças intolerantes e ações terroristas dos Tiranos.
Como em pleno século XXI um povo pode viver assim? É inadmissível. Sem liberdade, sem autonomia, sem poder de decidir o que quer fazer de sua vida!
O que é estarrecedor: como apoiar tudo isso? Só barbáries, atrocidades e ódios.
Excelente artigo, parabéns Dagomir.
Excelente matéria, parabéns!
Concordo com vc Mary. Eu tbm acho que os esquerdopatas, os artistas de Hollywood, deveriam partir para o Irã, e ajudá-lo na guerra contra Israel. Mas duvido que irão.
Porquê esses esquerdistas não vão para o Irã ajudar nessa guerra?
O jornalismo da Oeste é perfeito porque é verdadeiro. Parabéns jornalistas, o povo precisa saber o que realmente acontece.