Os tanques chegaram de madrugada, como invasores que estão prestes a cometer um crime. Era possível ouvir ao longe um barulho metálico, abafado; depois os tanques surgiram da neblina, avançando em linha reta, indiferentes. Não houve aviso nem negociação. Os manifestantes carregavam cartazes e bandeiras, mas os soldados traziam fuzis e avançavam disparando contra os civis — não apenas manifestantes, mas também moradores e jornalistas.
Os blindados esmagaram barricadas, bicicletas, carros e até pessoas que não conseguiram sair do caminho a tempo. Os tanques pertenciam ao Exército de Libertação do Povo — esse é o nome oficial do exército da China. Mas, ao invés de libertar, as tropas cercaram a praça. Alguns manifestantes tentaram negociar uma evacuação pacífica, mas era tarde. Tiros foram disparados sobre a multidão. Quando os tiros pararam, muitos mortos se espalhavam pela praça e pelas ruas — nunca se saberá o número certo. Corpos foram removidos rapidamente, ambulâncias e caminhões do exército recolheram os feridos. Essa foi a última vez que muitos foram vistos. O Exército de Libertação do Povo impede qualquer registro; repórteres são perseguidos e forçados a entregar câmeras e imagens.


A cena ocorreu em junho de 1989. Após semanas de manifestações pacíficas lideradas por estudantes na Praça da Paz Celestial, o governo chinês ordenou uma brutal repressão militar. Os manifestantes pediam reformas políticas, liberdade de expressão e o fim da corrupção. Tanques invadiram a praça, soldados abriram fogo indiscriminadamente e milhares de civis foram mortos. O número exato de vítimas permanece desconhecido até hoje. O massacre foi um recado direto: na China comunista, qualquer tentativa de contestação será esmagada com força total.
O massacre da Praça Tiananmen foi um crime de Estado cometido pela ditadura chinesa. Mas qual é a importância da morte de milhares de pessoas diante da morte de milhões? A maior fome já registrada na história não foi causada por seca, guerra ou peste — ela foi causada por um governo, o governo chinês. Entre 1958 e 1962, durante o “Grande Salto Adiante”, a política econômica de Mao Tsé-Tung destruiu a agricultura em nome da revolução. Camponeses foram obrigados a abandonar as lavouras para trabalhar na produção de aço, enquanto mentiras — “fake news” — sobre colheitas abundantes levaram o Partido Comunista a confiscar toda a comida disponível. Estima-se que 45 milhões de pessoas tenham morrido de fome enquanto os armazéns do Estado, cheios de alimentos, permaneciam trancados. Até hoje o Partido Comunista Chinês finge que esse genocídio nunca aconteceu.
A tragédia chinesa não acaba aí. A Revolução Cultural foi um dos episódios mais sombrios e sangrentos do século 20 — uma orgia de fanatismo ideológico promovida pelo mesmo Mao para eliminar rivais e consolidar o culto à sua personalidade. Entre 1966 e 1976, milhões de chineses foram humilhados, torturados, enviados a campos de trabalho forçado ou simplesmente executados por “crimes” tão vagos quanto ler um poema clássico ou usar óculos. Escolas foram fechadas; templos, destruídos; intelectuais, perseguidos; e o país mergulhou numa guerra civil disfarçada de purificação moral. Foi a prova viva de que, quando o Estado adota uma ideologia como religião oficial, o resultado é sempre o mesmo: violência, ignorância e cadáveres empilhados em nome do bem comum.
A memória desses crimes está escondida na mesma gaveta onde foi enterrado o massacre da Praça da Paz Celestial. A cumplicidade do Ocidente é assustadora. Governos, empresas e universidades ocidentais ignoram esses crimes para manter o acesso ao mercado chinês. A liberdade exige memória, verdade e coragem — três coisas que uma parte do Ocidente, anestesiada por interesses comerciais, alinhamento ideológico ou vantagens financeiras, deixou de valorizar.

Alguns políticos ocidentais não apenas toleram, mas chegam a admirar o modelo chinês. A Praça da Paz Celestial, transformada em Praça do Massacre Infernal, é a representação dos desejos de uma oligarquia iluminada, engordada à base de impostos e intoxicada por ideologia, que se apropria das instituições e as transforma em caricaturas.
Em vez da Praça dos Três Poderes, sonham com a Praça do Único Poder.
Leia também “O melhor que podemos”




“Praça do Único Poder”… captei a vossa mensagem insigne oráculo.
Muito bom Mota. E não incrível que muitos admirem? Um ditador enrustido elogiar um regime destes a gente pode até explicar. Ganho pessoal.
Qualquer semelhança com o 8 de janeiro de 2023 em Brasília não é mera coincidência.
O próprio Gilmar Mendes declarou que o STF está alinhado com o regime chinês.
Precisamos reagir para que nossas liberdades jamais sejam ceifadas por ditadores, sejam do STF ou de onde vierem.
Este é o regime admirado pelo consórcio atualmente instalado em Brasília. Sistema de repressão, onde somente veículos controlados com dinheiro público podem atuar, onde os críticos são severamente punidos, enquanto eles ficam encastelados no oásis de Brasília.
Muito bem, Motta. Muito oportuno. Infelizmente, muitos deslumbrados por aí, que precisariam muito ler este artigo, não vão ler. E, ainda que o leiam, ignoram.
É ESTE O TÃO SONHADO REGIME DITATORIAL QUE O CONSÓRCIO QUE GOVERNA O BRASIL DESEJA?
Parabéns pela lucidez, Motta. Os dias sombrios que vivemos tem as digitais do Consórcio Lula/PT/STF/TSE e avançam a passos largos para a DITADURA que flerta em despir-se totalmente do terno bem cortado e maciez do discurso para enganar os néscio. Não é mero acaso que autoritários travestidos de democratas, – de meia tigela, claro – ocupem páginas da velha e podre imprensa. Jornalão de São Paulo, que foi CENSURADO por anos em ação do Governo Sarney para proteger o filho Fernando, alvo da operação Boi Barrica, hoje acha que os brasileiros não têm memória. Hoje foi o dia de dar espaço ao notório, e põe notório nisso, Gilmar Mendes. De cara, a chamada é reveladora da suposta onipotência tão característica desse nada impoluto Gilmar. ‘Não tenho do que me arrepender’, diz Gilmar Mendes sobre julgamento da Lava Jato” Esse tipo de verborragia é bem típica dos fanfarrões e lembra o Ministro Joaquim Barbosa ao rebater Gilmar. ” Vossa excelência não está na rua, não. Vossa excelência está na mídia, destruindo a credibilidade do Judiciário brasileiro. É isso. […] Vossa excelência quando se dirige a mim não está falando com os seus capangas do Mato Grosso, ministro Gilmar. O senhor respeite.”
Como vergonha na cara não é pra todo vivente, é o mesmo Gilmar Mendes desmascarado pelo Ministro Gilmar Mendes. “PT tinha plano perfeito para se perpetuar no poder, diz Gilmar Mendes.” “Eles têm dinheiro para disputar eleições até 2038″, afirmou o ministro do STF, destacando que o partido foi atrapalhado pela Operação Lava Jato.” Se Gilmar Mendes permite-se ser contraditado por Gilmar Mendes submetendo-se ao próprio flagelamento, é bem parte da desgraça moral da Casa de Tolerâncias apelidada de STF. ” O ministro do STF disse que o dinheiro desviado da Petrobras tinha como destino campanhas eleitorais e, combinado com o final do financiamento privado de campanha, que é uma antiga bandeira do partido, o PT seria a sigla com mais recursos em caixa.” E mais. “O partido consegue captar recursos na faixa dos bilhões de reais por contratos com a Petrobras e passa a ser o defensor do fim do financiamento privado de campanha. Eu fico emocionado, me toca o coração”. Como a OAB é apêndice de tudo de AUTORITARISMO nesses novos dias de chumbo, mais uma contra Gilmar. Ele ainda voltou a criticar a OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), chamando-a de “órgão sindical de advogados” e que perdeu a relevância nas últimas décadas. Ontem, 17/06/2015, a OAB lamentou em nota a postura “grosseira, arbitrária e incorreta” de Mendes, que abandonou a parte final da sessão de quarta, após se desentender com o presidente da Corte, Ricardo Lewandowski. Para o conselho, o comportamento do ministro é incompatível com postura de um magistrado. Claro que hoje Gilmar Mendes combate a Operação Lava Jato hoje, é o mesmo Gilmar que acusava o PT. Nem precisa ser inteligente para entender a ” conver4ão “, que acha normal sua esposa advogar em favor de empresas que o próprio marido vai julgar. NÃO É MERO ACASO QUE QUEIRAM CENSURAR AS REDES SOCIAIS.
Parabéns Motta pelo belissimo artigo. Esse assunto é muito atual para o momento que estamos vivendo.