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Membros da ONG Coletivo Tem Sentimento | Foto: Divulgação
Edição 270

Para onde foram os usuários da cracolândia?

O principal ponto de concentração dos dependentes químicos no centro de São Paulo amanheceu vazio no domingo 11

O centro de São Paulo estava diferente no dia 11 de maio. A Rua dos Protestantes, principal ponto de concentração da cracolândia, amanheceu vazia. Apenas guardas civis metropolitanos e repórteres caminhavam pelas calçadas que antes abrigavam centenas de usuários de crack. O chão, geralmente marcado pelo cheiro de fezes e urina, estava completamente limpo. Comerciantes se mostraram aliviados por poderem trabalhar tranquilamente.

Uma semana antes, em 5 de maio, a reportagem de Oeste havia visitado a região. O cenário incluía moradores em situação de rua, usuários de drogas visivelmente alterados e um único comércio aberto, um atacado que tentava resistir ao abandono. A convivência forçada entre a história tombada e a degradação instalou-se no centro da maior cidade da América Latina, responsável por mais de 10% do PIB brasileiro. No coração da metrópole, fachadas desgastadas, comércio fragilizado e calçadas tomadas pela violência.

O que aconteceu, então, para a cracolândia se esvaziar da noite para o dia? Um guarda metropolitano que trabalha na região disse que a polícia conseguiu desmantelar o tráfico de drogas no entorno. A ação, de acordo com o agente, seria o principal motivo. “Todos os traficantes que atuavam perto do fluxo foram presos”, afirmou. “Os usuários não conseguiram mais comprar drogas.”

Nas redes sociais, o secretário de Segurança Pública do Estado de São Paulo, Guilherme Derrite, comemorou o sumiço dos dependentes da cracolândia e enalteceu os policiais. Derrite citou, por exemplo, a prisão de Léo do Moinho, apontado como o chefe do tráfico no centro de São Paulo. A prisão ocorreu durante uma megaoperação realizada em agosto de 2024. “A droga parou de chegar”, escreveu o secretário. “O centro de São Paulo deixou de ser um ponto interessante para a criminalidade.”

O prefeito Ricardo Nunes (MDB), por sua vez, mostrou-se surpreso. Durante entrevista em 13 de maio, o chefe do Executivo municipal disse que tentava entender o que estava acontecendo. Dois dias depois, mudou o discurso e atribuiu a mudança a ações conjuntas de saúde, assistência social e repressão ao tráfico. “Estamos colhendo os frutos de um trabalho muito sério, desenvolvido pelo governo do Estado e prefeitura já de muito tempo”, afirmou durante entrevista ao programa Arena Oeste.

Segundo o coronel Mello Araújo (PL), vice-prefeito de São Paulo, a estratégia de enfrentamento consistiu na presença diária de equipes de saúde, assistência social e de segurança pública, além de ações de reinserção profissional. Mello Araújo relatou que, nos últimos meses, muitos dependentes pediram para ser internados. O vice-governador de São Paulo, Felicio Ramuth (PSD), afirmou em entrevista ao portal UOL que mais de mil dependentes que frequentavam a cracolândia estão em clínicas de recuperação. 

A segunda questão

A segunda questão consiste em saber o destino dos outros dependentes químicos. Se não há mais traficantes e drogas na região da cracolândia, para onde foram os usuários que não buscaram tratamento? De acordo com Ramuth, é preciso ter cuidado ao afirmar que a cracolândia acabou. O momento é de cautela para “não repetir erros anteriores”.

Depois do episódio, a equipe da Oeste percorreu o centro de São Paulo e encontrou concentrações de usuários em diferentes pontos. O entorno da Praça Princesa Isabel, no bairro Campos Elíseos, por exemplo, voltou a ser ocupado por eles. Comerciantes locais afirmaram que isso passou a ocorrer depois do sumiço na Rua dos Protestantes. Os dependentes se aglomeram durante o dia e a noite na esquina da Rua Glete com a Guaianazes.

Usuários de drogas se concentram nas proximidades da Praça Princesa Isabel, em Campos Elíseos | Foto: Uiliam Grizafis/Revista Oeste

A Praça Marechal Deodoro também emergiu como um dos principais pontos de encontro, assim como a Rua General Osório. Durante a noite, dependentes foram vistos na esquina da Rua Helvétia com a Avenida São João, no centro de São Paulo.

De quem é a culpa?

Ao serem abordados pela reportagem, os usuários alegaram que agentes da Guarda Civil Metropolitana os expulsaram da Rua dos Protestantes e os obrigaram a se dispersar pela cidade.

ONGs de esquerda acusadas de incentivar os usuários de crack também culpam a polícia pela dispersão. Integrantes da Craco Resiste, movimento conhecido por fazer apologia às drogas e ostentar cachimbos de crack nas redes sociais, publicaram um vídeo no Instagram afirmando que “a violência extremada por parte da segurança pública” os impede de saber para onde os dependentes de crack foram. Os militantes contam com o apoio da vereadora Keit Lima (Psol).

A Craco Resiste é um dos movimentos acusados de incentivar o uso de drogas. Integrantes do grupo entravam no fluxo para distribuir seringas e cachimbos aos dependentes químicos. 

O movimento alega que a distribuição faz parte do que eles chamam de “política de contenção de danos” para “minimizar os efeitos negativos do uso de drogas”, como a transmissão do vírus HIV e da hepatite. Segundo Roberta Costa, uma das fundadoras da Craco Resiste, o movimento é a favor da legalização de todas as drogas e contra o sistema prisional. “Enquanto a droga for proibida, a polícia vai dificultar os cuidados com os dependentes”, afirmou.

No X, a Craco Resiste publica vários posts com referência ao uso de drogas. Em 2020, por exemplo, o grupo compartilhou uma matéria do jornal Folha de S.Paulo que afirmava que “a guerra contra as drogas vai entrar para a história como um grande erro de percurso da humanidade”.

Publicação da Craco Resiste classifica guerra contra as drogas como ‘erro de percurso’ | Foto: Reprodução

Para o vereador Rubinho Nunes (União Brasil), se não houver cracolândia, não haverá razão para essas ONGs existirem. O parlamentar disse que os movimentos vão lutar até o fim para que os dependentes tenham um lugar para usarem drogas.

Guerra interminável

A luta contra a cracolândia não é de agora. Há anos, prefeitos e vereadores tentam mudar a realidade, mas enfrentam resistência de ONGs de esquerda.

No fim de 2023, Rubinho entrou com um pedido para criar uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI). O objetivo era investigar os grupos que atuam no centro da capital paulista.

A Câmara Municipal de São Paulo, contudo, rejeitou o pedido. Caso os vereadores tivessem aceitado, duas entidades seriam prioridade na investigação: a Craco Resiste e o Centro Social Nossa Senhora do Bom Parto, conhecido como Bompar. A ONG teve como conselheiro o padre Júlio Lancellotti, que recentemente publicou um vídeo no qual culpa a administração municipal pela dispersão dos usuários da cracolândia.

Um dos principais objetivos da CPI proposta por Rubinho era entender se algumas organizações ligadas à cracolândia recebiam repasses da Prefeitura de São Paulo. Nas redes sociais, a Craco Resiste alega que não tem CNPJ e sobrevive de doações. Em paralelo, de 2020 a maio de 2025, a Prefeitura de São Paulo repassou quase R$ 30 milhões à Bompar.

Além desses valores, a entidade recebeu repasses extras de R$ 10 mil em 2023 e 2024, liberados por portarias recentes da Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social (Smads) para reforço das atividades. A instituição também está cadastrada no Cadastro Único das Entidades do Terceiro Setor (Cents), da Prefeitura de São Paulo.

O Cents é um registro obrigatório para que organizações da sociedade civil celebrem parcerias com a Prefeitura de São Paulo, incluindo termos de fomento, colaboração e cooperação.

Cracolândia na zona leste de São Paulo

Moradores do bairro Belém, na zona leste de São Paulo, acusam Lancellotti de ter transferido os usuários da cracolândia para aquela região. Eles afirmam que a criminalidade aumentou depois que o padre passou a receber os dependentes no bairro. A preocupação fez com que os moradores criassem uma página no Instagram para denunciar o caso. Fernando Reis, por exemplo, alega que o número de moradores de rua aumentou consideravelmente na região.

Uma das ações promovidas por comerciantes do Belenzinho | Foto: Reprodução/Instagram/@vigiabelemsp
O perfil ‘Vigia Belém’, mantido por moradores da região do Belenzinho | Foto: Reprodução

Algumas pessoas ouvidas pela reportagem temem que a dispersão dos usuários pela cidade faça a criminalidade aumentar. Mello Araújo ressaltou que o trabalho é de “formiguinha”. O governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), por sua vez, garantiu durante entrevista ao programa Pânico que “a cracolândia vai acabar”. Em pronunciamento, Ramuth disse que vai ampliar a fiscalização de estabelecimentos envolvidos na venda de entorpecentes. O alvo principal são bares que, segundo as investigações, operam irregularmente e funcionam como fachada para o tráfico.

O poder público conseguiu tirar os dependentes da Rua dos Protestantes. Agora falta descobrir o que fazer com os que migraram para diferentes regiões de São Paulo.


— Com colaboração de Luiz Guerra

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2 comentários
  1. Tellis Navas
    Tellis Navas

    Aí é que está, a “cracolandia” é limpa. Mas para onde vão os viciados? Para regiões que antes eram tranquilas… isso não é uma solução, éao contrário espalhar o problema…

  2. Luzia Helena Lacerda Nunes Da Silva
    Luzia Helena Lacerda Nunes Da Silva

    Excelente reportagem.
    Não dá para acreditar que existam ONGs como a Craco Resiste.
    Sugiro uma reportagem sobre as acusações de abuso que pairam sobre o padre Lancelotti.

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