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Política

Um Pilatos não pode ser conservador

Quando a prudência vira desculpa para a covardia, a história cobra seu preço — e o Brasil parece prestes a pagar novamente

Flávio Bolsonaro (PL/RJ) descarta sugestão de Ciro Nogueira (PP/PB) e diz que pretende permanecer no Congresso como senador | Foto: Flávio Bolsonaro (foto) disse que pretende concorrer à reeleição no Senado em 2026 Andressa Anholete/Agência Senado
Flávio Bolsonaro é pré-candidato à Presidência | Foto: Andressa Anholete/Agência Senado

Passei boa parte da minha vida estudando o conservadorismo, e isso inclui o governo de conservadores, mas antes os conceitos teóricos e práticas públicas daquilo que Russell Kirk denominava de “conduta conservadora”. Segundo o referido escritor e pensador norte-americano, o pensamento conservador se define pela prudência, pautado na máxima de que a verdade não é plenamente captada por ideias políticas e que os homens não são capazes de perfeição, e por uma postura reformista e antirrevolucionária — pois toda revolução pressupõe agendas que diminuem a realidade em um funil de percepção, e tal funil ideológico é totalizante e burro em si mesmo.

Todavia, tais valores conservadores, extraídos da obra fundante do conservadorismo moderno, Reflexões Sobre a Revolução na França, de Edmund Burke, se confundem na mente dos conservadores e daqueles que buscam compreendê-los, pois jamais a prudência pode ser confundida com passividade, e nem antirrevolução com inação. Os conservadores devem e são instados a serem corajosos e combativos quando os valores que fundamentam suas vidas e condutas, além de seu país e famílias, se encontram à mercê de subjugadores e larápios do poder. Ao conservador cabe a escolha corajosa, o afrontamento devido, a ação efetiva quando chamado; lavar as mãos nas águas da covardia e da indiferença não é opção — por isso Pilatos jamais seria conservador.

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Há, no país, atualmente, após a eleição de Lula, uma notória passividade nos conservadores, uma espécie de ressaca angustiante que toma não só o eleitorado, como até mesmo boa parte dos políticos de matriz à direita. O sentimento de que tudo se perdeu, e que o Brasil é definitivamente esta fanfarra de malucos e malandros. Ainda assim, segundo pesquisa do Datafolha, divulgada no último dia 24, 35% dos brasileiros são decididamente conservadores, contra 22% abertamente de esquerda. O brasileiro se posiciona, mas de forma anêmica, apática. Só que tal anemia, covardia consentida, quando olhado com os olhos da história, se revela como principal motivo para a decadência moral e social. Como dizia Martin Luther King: “O que me preocupa não é o grito dos maus, mas o silêncio dos bons”. Exatamente: o que de fato me assusta não é a corrupção e a tirania dos maus, mas sim a apatia e a covardia dos bons.

De 1935 até 1940, no Reino Unido, havia uma crença no partido conservador e trabalhista de que a única maneira de se enfrentar um mal político se dava pela diplomacia e pelos tratos e negociatas de Parlamento. Por meio disso, a Inglaterra viu a Alemanha nazista ganhar corpo e se estruturar bélica e economicamente em seu quintal, acreditando que o ditador nazista acataria os acordos timbrados, que palavras e promessas, que aplausos públicos e apertos de mão de Neville Chamberlain teriam o poder mágico de converter um maluco sanguinário. A imensa maioria da população conservadora apoiava a medida de apaziguamento a todo custo, e entre posturas pomposas e covardias públicas dos líderes de governo, evitavam palavras duras e condenações tácitas à Alemanha da suástica.

Churchill, o herói improvável

Quase unicamente, foi Winston Churchill, um conservador do fundão, um ex-militar envergonhado, um gordão desajeitado, quem teve coragem de se opor aberta e desavergonhadamente a Hitler. Como sabemos, a Alemanha ignorou os acordos, riu na cara do primeiro-ministro trabalhista e começou a tomar a Europa de assalto. Aos poucos, o então louco Churchill, o conservador beberrão e estranho, era praticamente o único que surgia com coragem de fazer o que devia ser feito: unir o povo do Reino Unido e inflar coragem no peito da população e dos militares para os dias duros que com certeza viriam. A população aos poucos comprou a luta, e, quando os aviões do Reich soltavam suas bombas sobre Londres, o lamento era por que os conservadores não pararam Chamberlain antes. A inação, misturada à apatia ante o que devia ser feito, quase levou o mundo por definitivo para uma das ruínas mais macabras que a humanidade poderia ter caído.

Muitos, como Philip K. Dick em O Homem no Castelo Alto e Robert Harris com Fatherland, imaginaram como seria o mundo se o Eixo tivesse vencido. O que poucos disseram foi que, aquilo que quase tornou isso real, foi a covardia dos que deveriam ter tido a audácia de contrapor absurdos e notarem que os valores fundamentais do Ocidente, como liberdade e dignidade, não poderiam estar nas mesas de negociação.

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Quero me antecipar, e por isso minha última coluna de 2025 será sobre política, uma espécie de convocação. Não gosto de apocalipsismo, mas não é exagero algum imaginar que 2026 seja para o Brasil uma espécie de portal sem retorno, via que nos levará para a decadência política e econômica completa, ou para uma longa estrada de restauração. Estamos perto do último grau de declínio, e, na política, quando se atravessa essa última estada, vem a decadência, e a decadência já é a pura ditadura. O que nos separa disso é uma tomada de consciência madura, sincera, uma análise conjectural que vá além do partidarismo e do binarismo ideológico. O projeto petista não é democrático, é profundamente ineficaz, e pior, ruma em direção ao fracasso de todo tipo. E, diante disso — assim como foi na Inglaterra —, nem que seja por um breve instante, os sensatos restantes devem tomar a dianteira, vencer seus nojinhos e se unirem em prol de uma restauração. Saírem da letargia paralisante, suplantar diferenças para que, no final, todos possam plenamente voltar a gozar de suas ideias antagônicas num ambiente livre.

Seja Flávio, Tarcísio, Michelle ou Caiado, a única postura possível, hoje, é a de ser oposição — e oposição unida. Aos conservadores, não a revolução, mas sim a atuação consciente, decidida, a presença afrontosa e lúcida que resulte em clara escolha de uma nova postura para o país. Negar duramente a submeter-se ante uma agenda totalizante e antagonista aos valores populares do brasileiro. Fingir que basta apertar mais algumas mãos, negociar em jantares escusos ou jatinhos particulares, manejar algumas emendas e tudo será resolvido dentro de mais quatro anos de Lula é sofrer da síndrome de Pilatos. O que não disseram aos conservadores limpinhos, os teóricos de políticas de mesa de chá, é que a postura, sem a coragem, a reforma sem a ação consciente e determinada, não passa de covardia com estética gourmet. Está na hora de voltar a afrontar os tiranos, a tomar lado na batalha.

6 comentários
  1. FLAVIO AUGUSTO ROSSI
    FLAVIO AUGUSTO ROSSI

    COMO DIZ O DITADO…QUEM QUER FAZ , QUEM NÃO QUER MANDA…
    POVO DECENTE TEM DE SE UNIR E AGIR , PARA TIRAR ESSE PAÍS DO ESGOTO QUE ESTÁ !

  2. Albino Cezario Hernandes Zanatta
    Albino Cezario Hernandes Zanatta

    É isso ou a desgraça. Perfeito.

  3. Ana Cláudia Chaves da Silva
    Ana Cláudia Chaves da Silva

    Artigo excelente.
    Enquanto o povo brasileiro continuar apático, esperando que o EUA tome uma atitude e resolva nossos problemas, ou, então, aguardando de camarote por uma intervenção divina, ou, ainda, que os carrascos de repente entendam que estão destruindo “a galinha dos ovos de ouro” e recuem, infelizmente nada vai nos tirar desse buraco. E quando o povo decidir agir, o buraco terá virado um imenso abismo e será tarde demais.

  4. Plínio de Assis Tavares Junior
    Plínio de Assis Tavares Junior

    O novo sistema já se acomodou entre banqueiros e miseráveis e assim vão caminhando ao precipício.Uns nada tem a perder enquanto outros fazem seus conchavos pra obter vantagens. O MEDO foi implantado e contra o ele não há orações nem intervenção estrangeira. As urnas já estão lubrificadas novamente assim como a comunicação de massa qual Nazifascismo. Vamos botar a cara nas Ruas.

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