publicidade
Política

SP: ONGs movimentaram R$ 9,8 mi em emendas via contratos cruzados

Prestações de contas mostram relações recíprocas de contratação entre entidades, algumas com mesmos dirigentes e endereços

Prédio-sede da Prefeitura de São Paulo (SP), o edifício Matarazzo
Prédio-sede da Prefeitura de São Paulo, o edifício Matarazzo | Foto: Divulgação/Guilherme Cunha/SMTUR

Um levantamento do jornal O Estado de S. Paulo revelou que seis organizações não governamentais (ONGs) de São Paulo participaram de uma complexa rede de contratos cruzados, por meio dos quais movimentaram ao menos R$ 9,8 milhões em recursos provenientes de emendas parlamentares de vereadores entre 2020 e 2025.

+ Leia mais notícias de Política em Oeste

Receba nossas atualizações

A análise avaliou 120 prestações de contas de convênios com a Prefeitura Municipal. Assim, conforme a publicação, evidenciaram-se relações recíprocas de contratação entre as entidades e empresas ligadas a seus dirigentes.

As organizações Ideccs, Ipos, Nucreative, Inpes, Instituto Arte, Terapia e Felicidade e Instituto Família Gamação Danada aparecem no centro dessas transações. As quatro primeiras compartilham dirigentes e sede no centro da capital, enquanto os outros dois institutos movimentaram valores expressivos, embora sem vínculos administrativos diretos. O total de repasses às seis ONGs chegou a R$ 36 milhões no período, mas não houve apresentação de todas as prestações de contas.

Contratos cruzados entre ONGs e falta de prestação de contas

Movimentações das ONGs
As movimentações das ONGs | Fonte: Prefeitura de SP / Arte: Estadão

O Ideccs, por exemplo, foi contratado pelo Nucreative em R$ 2 milhões, mesmo compartilhando três dos cinco dirigentes. Em sentido inverso, o Ideccs repassou R$ 391 mil ao Nucreative.

O Ipos, por sua vez, recebeu R$ 467 mil do Ideccs e R$ 305 mil do Nucreative, além de R$ 1,6 milhão do conjunto de contratos cruzados, mas ainda não prestou contas à prefeitura.

Leia mais: “A convivência das ONGs com o crime”, reportagem de Loriane Comeli publicada na Edição 296 da Revista Oeste

O Instituto Família Gamação Danada subcontratou o Ideccs em R$ 1,2 milhão, o Ipos em R$ 466 mil e o Nucreative em R$ 122 mil. Já o Instituto Arte, Terapia e Felicidade repassou R$ 2,1 milhões ao Ideccs, que devolveu R$ 271 mil, e também contratou Nucreative e Ipos, totalizando centenas de milhares de reais em transações recíprocas.

Especialistas apontam riscos de falta de controle

Segundo especialistas, a prática de cruzar despesas entre ONGs com vínculos diretos fragiliza a transparência e dificulta o controle dos recursos públicos. O advogado Vitor Barretta, especialista em Direito administrativo, afirmou ao Estadão que “a administração deixa de fiscalizar diretamente quem efetivamente executa o serviço”. “Cria-se uma camada adicional de intermediação entre o recurso público e sua aplicação final, dificultando a rastreabilidade, o controle e a responsabilização”, explicou.

Ainda segundo Barretta, o problema se agrava quando organizações interligadas circulam recursos entre si. Assim, podem transformar a subcontratação em mecanismo de circulação interna de verbas. Rodrigo Zambão, mestre em Direito Público pela Uerj, acrescentou que “uma gestão compartilhada de recursos, de estruturas e de dirigentes demonstra uma simbiose pouco ortodoxa para o ambiente do terceiro setor”.

Leia também: “A farsa dos direitos humanos”, reportagem de Sarah Peres e Vanessa Araujo publicada na Edição 324 da Revista Oeste

O levantamento do Estadão identificou também que algumas ONGs foram subcontratadas antes de ter recebido credenciamento da prefeitura. O Ideccs, por exemplo, só foi credenciado em fevereiro de 2024, mas já havia obtido R$ 1,6 milhão em contratos. O Ipos só obteve autorização em fevereiro de 2025, depois de já ter movimentado R$ 1 milhão.

As emendas parlamentares dos vereadores de São Paulo funcionam de forma semelhante às de deputados federais e estaduais. Desde 2021, cada vereador tem direito a R$ 5 milhões anuais em indicações ao orçamento municipal. Ao contrário das esferas estadual e federal, os repasses não são obrigatórios, o que resulta em distribuição irregular dos recursos entre as regiões da cidade.

Leia mais sobre:

0 comentários
Nenhum comentário para este artigo, seja o primeiro.
Canal Oeste
Nossos colunistas
J. R. Guzzo (diretor perpétuo)
Augusto Nunes
Ana Paula Henkel
Guilherme Fiuza
Rodrigo Constantino
Alexandre Garcia
Antonio Cabrera
Eugênio Esber
Eugênio Esber
Evaristo de Miranda
Flávio Gordon
Roberto Motta
Miriam Sanger
Adalberto Piotto
Frank Furedi, da Spiked
Jeffrey A. Tucker.
Theodore Dalrymple
Flavio Morgenstern
Ubiratan Jorge Iorio
publicidade
Background
NEWSLETTER
Cadastre-se e receba nossas newsletter com matérias exclusivas toda semana
Background
TELEGRAM
Cadastre-se e receba nossas newsletter com matérias exclusivas toda semana
publicidade
Background
Assine a Revista Oeste
Seja um dos brasileiros que acreditam que o bom jornalismo transforma um país.