Natural de Niterói (RJ), a delegada da Polícia Civil de São Paulo Raquel Gallinati foi levada para Santos (SP) quando tinha 1 ano. Foi na cidade do litoral paulista onde descobriu a vocação para combater a criminalidade. Contudo, antes de ingressar na carreira policial, formou-se em Direito pela Universidade Mackenzie, em 2000. Em 2007, terminou o mestrado em filosofia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.
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Mas em 2011 descobriu que poderia juntar o Direito e a filosofia para combater o crime organizado. De acordo com Raquel, parte da sociedade brasileira e da mídia vê a polícia como truculenta e sanguinária. “Essa mentalidade favorece o crime”, disse. “É preciso legitimar o uso da força quando necessário. O fato de tratar o policial de forma preconceituosa enfraquece a proteção da sociedade.”
Raquel Gallinati assumiu mandato de deputada estadual em São Paulo
No fim de novembro, Raquel assumiu o mandato de deputada estadual pelo Partido Liberal (PL) no lugar de Carlos Cezar (PL), que passou a integrar o Conselho do Tribunal de Contas do Estado de São Paulo. A delegada afirmou que é a chance de lutar, dentro da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, pela valorização das forças policiais. Em entrevista a Oeste, comentou a atuação na Polícia Civil e os projetos que já protocolou como deputada.
A seguir, os principais trechos da entrevista:
Por que a senhora decidiu atuar na área da segurança pública?
Desenvolvi esse olhar desde criança. Sempre tive uma personalidade, digamos assim, desconfortável com o errado. Na escola, por exemplo, ficava mal quando uma criança era ridicularizada. Então me intrometia naquela situação. Fiz artes marciais desde os 4 anos. Desde aquela época percebi que minha carreira seria na polícia. O problema da criminalidade não me deixa angustiada. Pelo contrário. Tenho o movimento de impulso em relação àquilo. Quero dar uma resposta às injustiças, que pairam sobre valores muito caros aos seres humanos, que é a vida e a liberdade.
Como a formação em filosofia e Direito contribuiu para a atuação na polícia?
A polícia é vista com preconceito por parte da sociedade e da mídia. A corporação é olhada como truculenta e sanguinária, que pratica tortura e violação dos direitos humanos. Essa mentalidade degradante favorece o crime. O uso da força deve ser legitimado diante de fatos criminosos que destroem a sociedade e o pacto social. O preconceito às forças policiais é um movimento proposital, cujo objetivo é enfraquecer a proteção da sociedade. Quando alguém coloca bandeiras ideológicas em alguns atos ao dizer, por exemplo, que a violência contra a mulher é “mimimi” ou que é pauta de esquerda, o criminoso é favorecido e a vítima é desprotegida. Sou delegada de polícia e operadora do Direito. Não flerto com o criminoso e trato como bandido aqueles que minimizam atos de crime.
Como a senhora vê as iniciativas, como as audiências de custódia, que criminalizam os policiais e colocam o bandido como vítima?
O Brasil é um país muito benevolente para o bandido. Porque há políticas públicas que diminuem a gravidade de atos criminosos e demonizam aquele que deveria impedir os crimes. Muitos questionam as operações policiais nos morros, como a que ocorreu nos complexos da Penha e do Alemão, no Rio de Janeiro. Somente a população que vive nessas áreas sabe o quanto é subjugada. Antes as atuações das facções criminosas se restringiam às comunidades. Hoje, avançam para a multiplicidade de atuações, como a lavagem de dinheiro. Saíram da periferia e entraram em instituições de Estado. Houve uma elitização e uma sofisticação daqueles que antes estavam na periferia.

Há uma idolatria em relação a atos criminosos?
A idolatria é para o malandro. “Malandro é malandro, mané é mané”. Aquele que cumpre a lei é tratado como mané. O criminoso é o malandro. Hoje, por meio das redes sociais, valorizam de forma ostensiva o dinheiro ilícito e a riqueza duvidosa. O cidadão de bem é tratado como mané até pelo Estado. Paga imposto, cumpre os deveres, mas é tratado como trouxa. Porque a liberdade plena não existe. O exemplo é a dificuldade para ter acesso às armas. Isso não é terceirizar a segurança pública, mas proporcionar a liberdade de escolha de ter uma arma ou não.
Por que a senhora decidiu entrar para a política?
Tem uma frase da Maya Angelou, que é uma escritora norte-americana e ativista de direitos humanos e civis, que dizia: “Toda vez que uma mulher se defende, sem ao menos ter a ciência de que aquilo era possível, automaticamente defende todas as mulheres”. Isso é um ato político. Falo dela porque o sentimento de não permitir o errado já é um ato político. Entrei para a política com essa ideia. Tenho dois projetos de lei protocolados. O primeiro trata do Estatuto da Vítima do Estado de São Paulo. Propõe a sistematização do acesso da vítima ao sistema público. Nosso sistema de Justiça criminal faz com que a vítima figure apenas como coadjuvante ou um objeto no sistema de justiça. Porque quem tem direito no sistema de Justiça é o criminoso, que tem um amplo olhar do Estado. A vítima, não. O objetivo é ter um sistema integrado com saúde e assistência à vítima, para que tenha o respaldo genuíno, rápido e eficiente do Estado e da Justiça. O outro é relacionado às mulheres gestantes e lactantes que integram o sistema de segurança pública. A polícia é predominantemente masculina. O exemplo básico é que não existe colete balístico anatômico para o corpo feminino. Quando uma mulher é gestante ou lactante, passa a ser um estorvo para a equipe. Geralmente a gestante opta por tirar a licença dias antes de o bebê nascer. A polícia tem operações noturnas. Minha proposta é dar a possibilidade para a mulher gestante e lactante optar ou até não participar de operações perigosas e traumáticas. A agente ficaria em um setor que a preserve não só a ela, mas principalmente o bebê, pois é um direito do nascituro. Não há uma sistematização normativa em relação a isso. Há um projeto de lei, mas se aplica à Polícia Civil. Meu projeto respalda todas as policiais.
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O Brasil precisa de 50 mil iguais a essa moça.