Durante anos, caminhões brasileiros cruzaram a Ponte da Amizade em direção ao Paraguai em busca de mercadorias baratas. Agora, o cenário é outro.
Empresas brasileiras passaram a instalar fábricas do outro lado da fronteira, investidores estrangeiros disputam acesso à energia paraguaia e gigantes da tecnologia veem no país uma plataforma promissora para data centers de inteligência artificial.
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O interesse internacional cresceu a ponto de envolver diretamente os Estados Unidos. Em meio à corrida global por infraestrutura de IA, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, confirmou o interesse de Washington na energia produzida pelo Paraguai para abastecer centros de processamento de dados. A eletricidade de Itaipu, durante décadas absorvida majoritariamente pelo Brasil, passou a ser tratada como ativo estratégico num mercado em rápida expansão.
A mudança expõe um contraste cada vez mais visível entre os dois países. Enquanto o Brasil perdeu participação industrial, manteve juros elevados e ampliou a complexidade tributária, o Paraguai passou os últimos anos construindo um ambiente voltado para atração de indústrias, infraestrutura digital e capital estrangeiro.
O resultado começou a aparecer em cifras bilionárias. A empresa norte-americana X8 Cloud anunciou um projeto estimado em US$ 50 bilhões para construção de um mega data center em território paraguaio. O valor supera investimentos recentes anunciados no Brasil, incluindo o centro de dados ligado ao TikTok no Ceará, estimado em aproximadamente US$ 40 bilhões.

Paraguai virou potência emergente
A escolha pelo Paraguai não ocorreu por acaso. Data centers voltados para inteligência artificial consomem volumes gigantescos de eletricidade. Empresas de tecnologia passaram a buscar países capazes de oferecer energia abundante, barata e limpa.
O Paraguai reúne essas três condições. Parte considerável dessa vantagem se deve à Itaipu. Durante décadas, o Brasil comprou o excedente da energia paraguaia da usina binacional a preços reduzidos. Esse modelo muda a partir de 2027, quando Assunção ganhará liberdade para vender sua parcela da produção diretamente ao mercado internacional e negociar os próprios preços.
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Antes mesmo dessa mudança, o país já vinha atraindo operações intensivas em consumo energético. O Paraguai seguiu uma estratégia semelhante à adotada pela Islândia: primeiro captou mineradores de criptomoedas interessados em eletricidade barata, depois passou a receber grandes estruturas de armazenamento e processamento de dados.
Ao mesmo tempo, o país avançou em outra frente: a industrial. Nos últimos dez anos, o número de empresas brasileiras instaladas no Paraguai cresceu mais de 400%. Em 2015, pouco mais de 40 companhias operavam no país vizinho. Hoje, são mais de 200, segundo dados da Confederação Nacional da Indústria.
Empresas brasileiras cruzam a fronteira
A fabricante Lupo está no topo da lista. Em janeiro, a companhia anunciou a construção de uma fábrica em Ciudad del Este. A unidade deve produzir até 20 milhões de pares de meias por ano. O investimento estimado gira em torno de R$ 30 milhões.
Um mês depois do anúncio, a empresa deixou clara a motivação econômica da mudança. “Buscamos melhorar as margens e gerar novas oportunidades”, afirmou o diretor de relações com investidores da companhia, Carlos Alberto Mazzeu.
Outros grupos brasileiros, como Guararapes, dona da Riachuelo, além de Vale e JBS, também mantêm operações no Paraguai.

País convidativo para a indústria
Parte desse movimento gira em torno do Regime de Maquila, política criada pelo governo paraguaio em 1997 para atrair indústrias exportadoras. O sistema estabelece imposto de apenas 1% sobre o valor agregado localmente para empresas estrangeiras voltadas à exportação.
Além disso, operações industriais ligadas à maquila recebem isenções em etapas de importação de insumos, produção e exportação. O Paraguai também adotou um modelo tributário conhecido como “Triplo 10”, que limita a 10% os impostos sobre renda, empresas e valor agregado.
Na contramão do Paraguai, o Brasil continua figurando entre os ambientes tributários mais complexos do planeta. Levantamento do Banco Mundial pôs o país entre os piores do mundo para pagamento de impostos corporativos. A Tax Foundation classificou os tributos brasileiros entre os mais altos do planeta para empresas.
Paraguai goleia Brasil na economia
Os reflexos aparecem nos indicadores econômicos. A indústria de transformação representa atualmente cerca de 19% do Produto Interno Bruto do Paraguai. No Brasil, o setor responde por aproximadamente 11% do PIB — porcentual inferior ao registrado nos anos 1990.
Os dois países também seguiram trajetórias diferentes em crescimento econômico. O Paraguai cresceu 6,6% em 2025. O Brasil avançou 2,3% no mesmo período. Na média dos últimos dez anos, a economia paraguaia cresceu cerca de 3% ao ano. A brasileira ficou em torno de 1,4%. As projeções para este ano seguem na mesma direção: expansão de 4,5% para o Paraguai e de aproximadamente 1,6% para o Brasil.
A diferença também aparece na política monetária. O Paraguai mantém taxa básica de juros próxima de 5,5%. No Brasil, está em 14,5%.
Quando descontada a inflação, a distância se amplia ainda mais. Os juros reais brasileiros giram em torno de 11,5%, contra cerca de 2% no Paraguai. A inflação anual paraguaia está próxima de 1,9%. A brasileira supera 4%.

O Paraguai também conquistou grau de investimento em duas grandes agências internacionais de classificação de risco. O Brasil segue sem essa chancela.
Outro indicador acompanhado por economistas é o Índice de Complexidade Econômica, usado para medir sofisticação produtiva e capacidade tecnológica. O Paraguai aparece em trajetória de ascensão. O Brasil perdeu posições nas últimas décadas.
Até os indicadores sociais começaram a seguir caminhos diferentes. Nos últimos 25 anos, o Paraguai reduziu a pobreza em cerca de 45 pontos porcentuais. No Brasil, a queda foi de aproximadamente 27 pontos.
A diferença de escala entre os dois países continua enorme. O Paraguai possui cerca de 7 milhões de habitantes. O Brasil supera 215 milhões.
Mesmo assim, o país vizinho passou a ocupar espaço crescente em setores estratégicos da economia regional. A energia que durante décadas era tratada apenas como excedente de Itaipu virou instrumento de atração industrial, tecnológica e geopolítica.
Leia também: “Adiós, Brasil”, reportagem de Anderson Scardoelli publicada na Edição 282 da Revista Oeste
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