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Política

O que é a Lei Magnitsky, aplicada pelos EUA contra Moraes

Medida visa a punir acusados de violar direitos humanos

Ministro Alexandre de Moraes em Sessão plenária do STF (12/6/2025) | Foto: Ton Molina/STF
Jamais um integrante do STF havia recebido punição similar de um governo estrangeiro | Foto: Ton Molina/STF

O governo dos Estados Unidos anunciou, nesta quarta-feira, 30, a imposição de sanções contra o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). A punição se dá com base na Lei Magnitsky. A informação foi publicada há poucos minutos no site do Tesouro dos EUA.

O que é a Lei Magnitsky?

A Lei Magnitsky é uma legislação que permite aplicar sanções a pessoas e entidades estrangeiras acusadas de corrupção ou de violar direitos humanos. Ela vale mesmo que esses atos tenham ocorrido fora dos EUA e não envolvam cidadãos norte-americanos.

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As punições podem incluir o bloqueio de contas bancárias, a proibição de entrada nos EUA, a revogação de vistos, o corte de acesso a serviços digitais como Google e YouTube, além de restrições para empresas e bancos que mantenham relações com os sancionados.

A origem da lei

A lei surgiu com o caso do advogado russo Sergei Magnitsky, que denunciou um esquema de corrupção entre autoridades fiscais e policiais na Rússia. Preso em 2008, ele morreu no ano seguinte sob custódia estatal.

O empresário Bill Browder, que trabalhava com Magnitsky, abandonou o mercado financeiro e começou uma campanha internacional para responsabilizar diretamente os agentes envolvidos. Segundo ele, “Sergei Magnitsky foi torturado até a morte por agentes do próprio Estado que ele denunciou”.

O objetivo era criar um modelo de sanção que atingisse apenas os autores dos abusos, sem prejudicar toda a população de um país. O resultado foi a aprovação da Magnitsky Act em 2012, inicialmente restrita à Rússia, e sua expansão global em 2016.

O advogado russo Sergei Magnitsky. Lei que leva o seu sobrenome pode ser usada contra autoridades brasileiras
Sergei Magnitsky, advogado russo, morreu nos cárceres da polícia de Putin depois de denunciar a corrupção no seio da Nomenklatura | Foto: Reprodução/Wikimedia Commons

Como a Lei Magnitsky funciona?

A Global Magnitsky Human Rights Accountability Act é aplicada com base na Ordem Executiva 13.818, assinada em 2017. Ela é sustentada por três leis norte-americanas:

  1. International Emergency Economic Powers Act;
  2. National Emergencies Act; e
  3. Immigration and Nationality Act.

A decisão de aplicar sanções parte do Departamento do Tesouro, com apoio do Secretário de Estado e do Procurador-Geral. As investigações são conduzidas pelo Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros e podem usar dossiês enviados por governos, parlamentares, ONGs ou fontes internas.

A lei se aplica a qualquer pessoa ou entidade, de qualquer país. Para isso, é necessário reunir provas mínimas, como nome completo, data de nascimento e indícios confiáveis de envolvimento em corrupção ou violações graves. Entre as punições previstas estão:

  • Congelamento de bens nos EUA;
  • Proibição de entrada no país;
  • Revogação de vistos diplomáticos;
  • Bloqueio de uso de serviços digitais como Google, Gmail, YouTube e Google Pay;
  • Impedimento de uso de cartões Visa, Mastercard e American Express;
  • Sanções secundárias a bancos ou empresas que mantiverem negócios com os sancionados.

Até parentes e associados podem ser punidos, caso fique comprovado que atuaram juntos em ações ilícitas. De acordo com o decreto, esse tipo de envolvimento é chamado de “conspiração”.

Exemplos internacionais

A lista de sancionados é extensa. Segundo relatório oficial de 2025, até o fim de 2024 foram punidos 245 indivíduos e 310 entidades. Casos incluem:

  • Yahya Jammeh (Gâmbia): execuções extrajudiciais e desvio de recursos;
  • Maung Maung Soe (Mianmar): limpeza étnica contra os rohingyas;
  • Gao Yan (China): implicado na morte do ativista Cao Shunli;
  • Angel Rondón Rijo (República Dominicana): envolvido no caso Odebrecht;
  • Dan Gertler (Israel): acusado de corrupção em contratos de mineração; e
  • 157 embarcações chinesas: sancionadas por trabalho forçado.

Apesar de comum em regimes autoritários, a lei já foi usada contra pessoas de países democráticos. O foco está na conduta do indivíduo, não no sistema político.

Moraes entra na lista da Lei Magnitsky

Nesta quarta-feira, 30, o governo dos EUA anunciou oficialmente a inclusão de Moraes na lista de sancionados com base na Lei Magnitsky. Segundo o Departamento do Tesouro, Moraes foi responsabilizado por “ações que violam liberdades civis e direitos fundamentais”, com base em um dossiê que circulava desde fevereiro.

A proposta de sanção começou com dois deputados norte-americanos: Rich McCormick e María Elvira Salazar, ambos alinhados com o governo Trump. Eles acusaram Moraes de censura e perseguição política.

O ministro do STF Alexandre de Moraes e o procurador-geral da República, Paulo Gonet, em Brasília | Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Motivos da sanção

Entre os motivos citados estão:

  • Bloqueio de redes sociais de jornalistas brasileiros exilados nos EUA: Rodrigo Constantino, Allan dos Santos e Paulo Figueiredo;
  • Censura a plataformas digitais como X, Rumble e Truth Social (empresa de Donald Trump);
  • Prisões preventivas prolongadas contra manifestantes de 8 de janeiro;
  • Imposição de regras unilaterais para empresas de tecnologia; e
  • Adoção de medidas judiciais contra Jair Bolsonaro, como uso de tornozeleira e proibição de uso das redes sociais.

Segundo a Casa Branca, essas decisões ferem o princípio de soberania tecnológica, já que impactam empresas registradas nos EUA.

O que muda com a sanção

Com a sanção, Moraes:

  • Está proibido de entrar nos EUA;
  • Teve todos os bens e contas sob jurisdição norte-americana bloqueados;
  • Não pode usar serviços digitais norte-americanos, como Google, Gmail, YouTube ou Google Pay;
  • Perdeu o acesso a cartões internacionais; e
  • Coloca qualquer banco que o atenda em risco de punição.

Segundo o advogado Ricardo Vasconcellos, “essa pessoa não pode nem fazer uma pesquisa no Google, pois o seu endereço IP será bloqueado pela própria empresa”. E, se um banco mantiver relações com ele, “esse banco pode ser alvo de sanções secundárias”.

Impactos e próximos passos

A medida pode gerar efeitos jurídicos, diplomáticos e comerciais. Mesmo que o Brasil não reconheça oficialmente as sanções, seus efeitos práticos são relevantes:

  • Afetam a reputação internacional;
  • Limitam viagens e transações financeiras; e
  • Podem influenciar decisões de aliados dos EUA, como Reino Unido, Canadá e União Europeia, que costumam adotar medidas equivalentes.

Além disso, o presidente Donald Trump citou o caso ao anunciar uma tarifa de 50% sobre produtos e serviços brasileiros, com começo previsto para 1º de agosto. Segundo ele, trata-se de uma resposta à “perseguição política a um aliado”, em referência a Bolsonaro.

Leia também: “Togas fora da lei”, artigo de Augusto Nunes publicado na Edição 245 da Revista Oeste

4 comentários
  1. Denis R.
    Denis R.

    O problema de sempre se dobrar a aposta é que quanto mais alto se está mais alta é a queda!

  2. Carlos Pommer
    Carlos Pommer

    Acho que nada muda para ele. Lula empresta o cartão corporativo para ele e deu.

    1. Paulo
      Paulo

      Dúvida cruel: como será que o Sr. Ministro Alexandre de Moraes pagou o ingresso para assistir ao jogo do Corinthians? Dinheiro vivo, não é ?

  3. Eduardo
    Eduardo

    O que me deixa entristecido é saber que foi preciso outro país interferir pra barrar os desmandos desse indivíduo desprezível. Mas melhor assim do que imaginar o que ele poderia fazer se a Magnitsky não fosse implementada.

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