Por André Burger*
Desde criança, ouvimos a história: Portugal roubou o ouro do Brasil. A imagem é simples: navios carregados de riqueza deixando uma colônia explorada rumo a uma metrópole voraz. Mas a realidade é menos dramática e mais incômoda.
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Portugal só teria roubado o Brasil se considerarmos que imposto é roubo, pois ele tributou. O principal imposto era o quinto, 20% sobre o ouro extraído e fundido. Elevado? Sem dúvida. Arbitrário? Não, estava dentro da lógica da época. Era a regra do jogo.
Durante o auge do ciclo do ouro, entre 1730 e 1760, essa transferência representou algo entre 5% e 10% do PIB português. Um fluxo relevante para padrões do século 18.
Mas o quinto não estava sozinho. Havia outras formas de arrecadação pela Coroa portuguesa: dízimos, taxas, monopólios e restrições comerciais. No Brasil colonial, não se podia negociar livremente, não se podia industrializar e havia a submissão a monopólios. Isso funcionava como um imposto invisível. Ainda assim, considerando a baixa capacidade de fiscalização e a informalidade da economia, é razoável supor que a carga tributária total ficava abaixo dos atuais 32% do PIB.
É importante entender que boa parte do ouro que saiu do Brasil não ficou em Portugal. Por meio de acordos comerciais, como o Tratado de Methuen, o ouro acabou financiando, na Inglaterra, a Revolução Industrial.
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As estimativas mais consistentes indicam que o Brasil produziu entre 800 e 1.000 toneladas de ouro no período colonial. Desse total, algo como 500 a 600 toneladas foram para Portugal, sendo cerca de 150 a 200 toneladas pelo quinto, que se consagrou na expressão “quinto dos infernos”.
Vamos adotar o número mais alto, 600 toneladas. Em valores atuais, isso equivale a aproximadamente R$ 400 bilhões a R$ 450 bilhões acumulados ao longo de cerca de três séculos. Traduzindo: algo como R$ 1,3 bilhão a R$ 1,5 bilhão por ano, em média.
Sim, é muito dinheiro, mas coloquemos em perspectiva.
O gasto com funcionalismo público nas três esferas de governo — federal, estadual e municipal — somou, em 2024, cerca de R$ 1,5 trilhão em um único ano. Convertido em ouro, isso representa algo como 4.500 toneladas ou mais de quatro vezes todo o ouro produzido no Brasil colonial. Não ao longo de 300 anos, mas em apenas um ano.
É importante destacar que o ouro enviado a Portugal foi um estoque acumulado ao longo de três séculos. Porém o gasto público atual é um fluxo contínuo, renovado ano após ano. Essa diferença torna a comparação ainda mais desconfortável, pois não estamos falando de um evento histórico, mas de um mecanismo permanente.
Outra comparação interessante. O Supremo Tribunal Federal custou aos contribuintes, em 2025, cerca de R$ 900 milhões, o equivalente a aproximadamente 2,7 toneladas de ouro. Portugal, no auge do ciclo do ouro, recebeu algo em torno de 2 toneladas por ano. Ou seja, o custo anual de manter a mais alta Corte do país supera a transferência média de ouro da colônia para a metrópole, o tal roubo.

Ainda assim, seguimos repetindo a história do “ouro roubado”. Talvez porque seja mais confortável culpar os portugueses do século 18 do que encarar o custo do Brasil no século 21.
As consequências econômicas também guardam paralelos incômodos. No período colonial, a extração de riqueza limitava o desenvolvimento local. Hoje, a carga tributária elevada combinada com o gasto público crescente produz efeito semelhante: menos investimentos, menor produtividade e baixo crescimento.
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Mudamos a forma, mas não a lógica. O Brasil não tem mais uma metrópole para a qual transfere a riqueza gerada pelo setor produtivo. Faz isso em escala muito maior para o aparato do Estado brasileiro.
Devemos nos desculpar com os portugueses e, mais que isso, agradecer-lhes por serem menos gananciosos que os ladrões atuais.
O país deixou de ser colônia, mas a metrópole não desapareceu. Só mudou de endereço.
* André Burger é economista e conselheiro superior do Instituto Liberal.





































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